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Em nome da solidariedade

Ajuda a morador de rua em São Gonçalo agita as redes sociais, com manifestações elogiosas

relogio min de leitura | Redação 17 de outubro de 2015 - 20:47

No restaurante de Juraci Mota, o morador de rua recebe refeições que garantem sobrevivência

Foto: Luiz Nicolella

Por Cyntia Fonseca

Quero paz, violência não. Quero paz, é o que pede o meu coração”. Mais do que a letra de uma canção de Roberto Carlos, a mensagem reflete uma realidade bastante atual. Especialmente com a ajuda das redes sociais, a grande quantidade de informações negativas recheadas de desprezo, violência e descaso com o ser humano, tem sobressaído à histórias de “finais felizes”, como ações sociais e beneficentes. Felizmente, na contramão dessa perspectiva, um gesto simples de solidariedade a um morador de rua em São Gonçalo tomou grande proporção nas redes sociais, há duas semanas.

Ao passar pelo bairro São Miguel com a mãe para ir pagar contas, a auxiliar de administração Jamile Rodrigues se sensibilizou com a cena de um idoso revirando restos de lixo, na procura do que comer.

“Era horário do almoço, eu também estava com fome, então fui até ele e o chamei para pagar uma quentinha num estabelecimento ali perto”, contou.

A grande surpresa, porém, foi que ao chegar ao restaurante Casa do Rango, onde decidiu comprar a refeição, o comerciante recusou o pagamento de Jamile, dizendo que já era hábito aquele senhor almoçar no local.

“Eu fiquei impressionada com a honestidade deles, pois poderiam muito bem ter pegado meu dinheiro, mas não quiseram. Só depois fiquei sabendo que aquele senhor já almoçava ali todos os dias, sempre bem recebido, atendido normalmente com a dignidade de qualquer ser humano. Fiquei bastante emocionada”, declarou ela, que decidiu repassar aquela atitude a uma página de notícias no Facebook.

A ação repercutiu de forma inesperada. Em um dia, a postagem com a foto do senhor almoçando no restaurante já atingia quase 5 mil “curtidas”, bem mais do que a média recebida por outras postagens diariamente.

Proprietária do estabelecimento que funciona há quatro anos em São Miguel, Juraci Mota, 47, lida com a situação com naturalidade. “Às vezes, ele é meu primeiro cliente. Tem, pelo menos, dois anos, que ele almoça com a gente todos os dias, até três vezes por dia. E nenhum cliente meu critica. Às vezes, ele está almoçando, alguém levanta e oferece um copo de refrigerante. E ele é bem na dele. Só almoça e não pede mais nada. É assim, se tiver comida, eu não nego”, conta a comerciante, que trabalha com o filho, de 18 anos.

De poucas palavras, o senhor que é conhecido no bairro pelo apelido de “Comida boa”, carrega no rosto a expressão da dura realidade das ruas. Já idoso, ele diz não ter nome nem família e não costuma pedir mais do que acha necessário para sobreviver, segundo relatos dos comerciantes.

“Sempre tem alguém que ajuda. Um dia, ele apareceu limpo e de barba feita, falando ‘comida boa é assim mesmo, todo mundo ajuda’”, diz Juraci.

O lado bom de cada pessoa

O que explica o mau uso da internet nos dias de hoje? A psicóloga Fernanda de Souza Rocha, do Instituto de Saúde Mental e do Comportamento, explica que as redes sociais são uma ferramenta que possibilita uma maior exposição e interação das pessoas, mas também é uma forma de elas se esconderem, passarem por quem elas não são ou se revelarem.

“Muitas vezes, as pessoas usam máscaras para viver, de acordo com padrões impostos pela sociedade ou por elas mesmas. Geralmente não se responsabilizam pelo que fazem na vida real, mas na internet julgam o outro, discriminam por atitude semelhante e mostram a outra face”, esclarece.

Ainda segundo a especialista, cada pessoa tem um lado bom e outro ruim e é preciso que as pessoas revejam os valores dentro de um universo coletivo, deixando de pensar somente em si mesmas.

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