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Garantia de uma nova vida

Programa ‘Família Acolhedora’ tem mudado a realidade de crianças vítimas de violência em SG

relogio min de leitura | Escrito por Redação | 19 de setembro de 2015 - 19:03

A enfermeira Roberta Feliciano já acolheu três crianças. Ele está agora com um menino de 3 anos

Foto: Luiz Nicolella

Por Elena Wesley

“Quando olhei pra ele, não pude acreditar que fosse uma criança retirada da rua. Era tão quietinho, tão meigo... Os remédios que ele precisava eram amor e carinho”. Quem vê Jussara Alencar de mãos dadas com o pequeno M., de 3 anos, pelos corredores do shopping nem imagina que a relação de “mãe e filho” tenha iniciado há tão pouco tempo. Faz apenas quatro meses que a educadora social abriu as portas de sua casa, em Itaoca, para receber a criança vítima de maus-tratos e abandono. Jussara participa do programa “Família Acolhedora”, administrado pela Secretaria de Desenvolvimento Social de São Gonçalo. Desde 2010, o programa providencia atendimento familiar provisório a crianças de 0 a 6 anos em situação de privação de direitos.

Embora não aparente, construir uma relação de confiança levou tempo. Devido às experiências difíceis com a família biológica, M. apresentava resistência para se aproximar da família temporária.

“Ele chegou muito acanhado, praticamente não falava. Me lembro que mantinha as mãos fechadas, como se a qualquer momento fosse precisar se defender. Hoje ele nos enche de abraços, atende o telefone de casa e até me chama de mãe”, compara Jussara, de 49 anos.

Situação semelhante viveu a família Feliciano ao receber F., também de 3 anos. Embora fosse a terceira criança a chegar na casa, no Barro Vermelho, a técnica de enfermagem Roberta, de 39 anos, percebeu que ele precisava de um tratamento especial.

“Por mais que tivessem passado por situação de abandono e por uma tentativa de homicídio, os bebês não tinham os traumas que o F. possuía. Ele gritava à noite devido a pesadelos e esperneava na hora de trocar fralda. Passaram semanas até que ele permitisse a aproximação do meu marido. Conversamos com ele, garantindo que nunca levantaríamos a mão contra ele”, conta.

Apesar da formação na área de saúde, Roberta revela nunca ter visto algo parecido com as condições físicas do pequeno F. no dia do acolhimento.

“Ele foi encontrado confinado com um tio autista. Os dois comiam lixo e bebiam água do vaso sanitário. Ele tinha sinais de espancamento, feridas pelo corpo e infecções gravíssimas. Até hoje faz tratamento com medicação forte”, destaca.

Jussara também comenta sobre o choque de conhecer a história de M.: “A mãe dava cachaça, droga na rua. Ele mostrava pra gente como fazia pra cheirar cocaína”.

Somado ao carinho das famílias acolhedoras, as duas crianças têm acompanhamento médico nas áreas de neurologia, psiquiatria, psicologia e fonoaudiologia.

Famílias recebem toda estrutura

Jussara Alencar também acolheu um menino de 3 anos para superar a perda de filhos biológicos (Foto: Luiz Nicolella)
Jussara Alencar também acolheu um menino de 3 anos para superar a perda de filhos biológicos (Foto: Luiz Nicolella)

Vistas como “heroínas” e exemplo de solidariedade, Roberta e Jussara ressaltam o quanto a participação no programa tem sido produtiva para elas, de forma particular. A técnica em enfermagem aderiu ao programa há dois anos, como uma forma de superar problemas pessoais.

“Passei por um conflito familiar no qual me acusaram de ser uma mãe ruim. Procurei tratamento psicológico e nada foi diagnosticado. Quando percebi que não havia nada de errado comigo, decidi me inscrever e me sinto realizada”, conta.

Jussara aproveita o convívio com M. para sarar as feridas pela perda dos dois filhos biológicos.

“É um prazer viver esta fase novamente, principalmente por saber que estou mudando a vida de alguém. Confesso que fiquei muito empolgada, pintei a casa, reformei o quarto, só para recebê-lo bem, para que desfrutasse do que lhe privaram”, enfatiza.

As famílias Alencar e Feliciano são duas entre as sete em atendimento vigente, sendo duas delas homoafetivas. Desde que o lançamento do programa, 55 crianças já foram assistidas. A assistente social Natalia Figueiredo explica que a assistência também abrange auxílio material.

“O programa oferece alimentação, vestuário, higiene pessoal, material escolar, remédios, encaminhamento à rede de saúde, transporte, bem como outras necessidades, como cadeirinha de carro, bebê conforto, banheira, entre outros, conforme solicitação da família. Elas escolhem a marca da fralda, da pomada, do biscoito preferido da criança, para garantir o máximo de bem estar à criança”, afirma.

Outras 15 famílias participam da primeira fase de capacitação junto à secretaria. De acordo com a coordenadora técnica Dinamarcia Monteiro, a qualificação é um processo contínuo.

“No primeiro momento, nosso foco é qualificar as famílias cadastradas, a partir da leitura do programa, que contém as normas técnicas da iniciativa. Uma equipe formada por assistentes sociais, psicólogos e pedagogos realizam visitas domiciliares, com o objetivo de conhecer a dinâmica familiar para delinear a inserção da criança”, explica Dinamarcia.

Para acompanhar os participantes mais antigos, a secretaria lançou em junho a Rede Acolher, que são encontros mensais sobre acolhimento.

Iniciativa não é adoção

Apesar do vínculo com as crianças, as famílias não podem adotar, uma das prerrogativas para participação no programa. Jussara admite que sentirá saudade de M., porém afirma que estará segura de que o futuro do menino fará com que o passado difícil seja esquecido.

“Sei que a partir da adoção ele estará bem, com uma família que vai amar e cuidar dele”, afirma Jussara.
Mais experiente no processo, Roberta assegura que o elo não se perde.

“A mãe adotiva do primeiro bebê estava na fila de adoção há nove anos. Fiz questão de conhecê-la na minha casa, para criar uma relação entre todos os envolvidos. Ela me convidou para o aniversário de um ano, fez homenagem, e eu chorei muito”, recorda Roberta emocionada.

Para participar, são exigidos: ser maior de 18 anos, concordância de todos os membros da família; não possuir antecedentes criminais; não ter interesse em adoção e disponibilidade de tempo. O cadastro deve ser feito na Rua Rua Uriscina Vargas, 36, Alcântara, telefone 3719-2473.

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