Resistência cultural em São Gonçalo
Projeto ‘Uma Noite na Taverna’ é realizado há 12 anos por puro amor à arte

Rodrigo Santos, Ricardo Sirieiro e Romulo Narducci realizaram, este mês, a primeira edição na ‘casa nova’: o Clube Tamoio
Foto: Filipe AguiarPor Elena Wesley
“Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas”. Não foi este trecho de “A arte de ser feliz” que inspirou as homenagens à Cecília Meireles na última edição de “Uma Noite na Taverna”, na semana passada. No entanto os versos servem de analogia à ação de resistência que os organizadores têm desempenhado mensalmente, há 12 anos. Sem qualquer auxílio governamental ao longo de todo esse tempo, Rodrigo Santos e Romulo Narducci têm trabalhado a terra para fazer florescer a poesia e, após ver alguns frutos crescerem, buscam novas parcerias para não deixar o jardim morrer.
Tudo começou em 2003, quando os dois moradores de São Gonçalo decidiram criar um espaço para divulgar produções autorais e incentivar a arte no município.
“A ideia do evento surgiu a partir de uma necessidade de expor a nossa obra e a de tantos outros poetas que, assim como nós, enfrentavam inúmeras dificuldades para apresentar o próprio trabalho. A oportunidade se consolidou com um convite do Sesc e estamos na luta até hoje”, contou Romulo, que lançou recentemente o livro de contos “Angustiolândia (ou de bares, ruas e bordéis)”, a terceira publicação independente da carreira, após as coletâneas de poesia “Orações Licenciosas (Ou Cancioneiro Erótico)” e “Tudo Que Morre é Consumado”, em 2008 e 2010, respectivamente.
Climatizado com velas e regado a muito vinho, o ambiente justifica o título da iniciativa, promovida toda segunda sexta-feira de cada mês, no Clube Tamoio.
“As tavernas eram o ponto de encontro dos artistas na Idade Média. Um misto de bar e estalagem, nas quais os trovadores se apresentavam. A arte estava entrelaçada à boemia e, por isso, trazemos ao público um pouco desse clima, com velas, penumbra e é, claro, vinho”, explicou Rodrigo, que lançou o livro de poesias “Máscaras sobre Rostos Descarnados”, em 2003, pela Editora Muiraquitã, e o romance independente “Mágoa”, em 2010.
Mas manter o padrão não é nada fácil. Atualmente, a equipe não conta com qualquer patrocínio privado ou público e tira do próprio bolso os recursos necessários para financiar o evento.
“Fomos abraçados gentilmente pelo Tamoio, que tem nos cedido a estrutura há duas edições. Mas os custos são altos. Temos que pagar o aluguel de som, transporte de equipamentos, decoração, divulgação, etc. Acredito que não é a gente que escolhe a missão, e sim a missão que nos escolhe e, por isso, tentamos fazer a taverna com perfeição”, afirmou Rodrigo.
Ecletismo - A programação, por sua vez, como não poderia deixar de ser, é eclética e democrática, com homenagens a um artista ou movimento cultural a cada edição. Embora conhecida pela poesia desde a fundação, a Taverna tem portas abertas para a música, o teatro e outras expressões. Além dos artistas convidados, participantes também podem se apresentar ao público.
“Não existe essa história de que São Gonçalo não gosta de arte. Somos uma cidade repleta de produtores e de gente interessada no lúdico. A cada mês comparecem uma média de 200 pessoas, e o número tende a aumentar agora, com esta parceria com o Tamoio (clube)”, enfatizou o funcionário público e poeta Ricardo Sirieira, que reforça a comissão organizadora desde 2012.
Programação de maio - A próxima edição está marcada para o dia 8 de maio, com o tema “The Beat Generation”, movimento cultural de grande influência sobre os organizadores.
“Será uma reedição do que fizemos em 2007, com mais conhecimento e afinco sobre os belos e malditos beatniks. Como estamos de casa nova, resolvemos revisar o tema, a fim de nos dar a força e motivação que precisamos. Será lindo e impactante, como tudo no universo beatnik, revolucionário”, assegurou Romulo.
Gonçalense ‘emprestado’ destaca história com a poesia e o município
Com a segunda edição da “Antologia de Poetas Gonçalenses” às mãos, o cearense Zé Salvador sobe ao palco para falar de amor e de saudade. A coletânea publicada no ano passado se encerra com uma poesia de sua autoria, “Só imagens”, uma das preferidas entre as centenas que já escreveu ao longo de 59 anos de vida, boa parte dela envolvida com a literatura.

Cearense de origem, porém gonçalense de coração há 38 anos, como ele mesmo enfatiza, Zé Salvador chegou ao Rio de Janeiro na década de 1970, impulsionado pela expectativa de mudar de vida.
“Este era o sonho da maioria dos nordestinos. O Rio de Janeiro era a nossa esperança por dias melhores”, lembra Salvador, fã dos estilos soneto e cordel.
O vínculo com a arte ele trouxe na bagagem. Ainda na terra natal, Salvador já produzia o que intitula “poesia de protesto”, uma delas censurada pelo regime militar.
“O curioso é que ‘Conversando com a brisa’ não fazia qualquer analogia à falta de liberdade. Mas os censores a interpretaram dessa forma, e a publicação foi negada no ‘Tribuna do Ceará’, em 1975”, contou o poeta.
Dois anos depois, Salvador chegaria à Parada 40, São Gonçalo e, pouco depois, se instalou no Mutuá, bairro em que reside até hoje e onde pôde se dedicar mais à poesia.
Menos assíduo na taverna do que gostaria, Salvador ressalta que a arte é pra todos.
“Não posso vir em todas as edições por conta do meu trabalho, mas sempre que venho é um prazer ver o interesse de gerações diferentes”, afirmou o supervisor de logística que, após participar de 31 antologias, mantém viva a meta de publicar uma obra individual.
Evento atrai artistas de outras cidades
O prestígio do evento por parte de artistas de outras cidades também é notório. Este mês, foi a vez de Felipe Silva, o poeta Felizpe, abrilhantar a noite, com o lançamento do livro “2019 e outros poemas sombrios”. Natural da Vila da Penha, Zona Norte do Rio, o poeta de 28 anos recitou algumas de suas principais criações.

“Fico muito feliz de ampliar o leque em São Gonçalo, conhecer um público que também é apaixonado por poesia e poder divulgar meu trabalho”, declarou o poeta.
Pós-Graduando em Roteiro para Cinema e TV, Felipe tem no currículo a publicação independente “Fruta-Afrodisíaca” e a participação no “FLUPP PENSA - Novos Autores”, com o conto “Soutien”, ambas em 2012.
A nova produção conta com 35 poemas, mas o autor destaca o “2019”, que prevê um futuro próximo no qual os poetas serão queimados a mando de líderes de uma ditadura político-religiosa.
“Tento tratar de forma coloquial e divertida temas como a política, o fanatismo religioso, a morte e a paixão platônica. 2019 se passa em um contexto no qual a maldade se torna corriqueira. Meu objetivo é despertar a reflexão sobre nossa passividade diante das tragédias alheias”, explicou Felipe Silva.