Eles são ‘cheios’ de histórias
OSG começa a contar, nesta edição, a vida de residentes do Abrigo Cristo Redentor

O engenheiro Sidney Motta tem 74 anos e vive por vontade própria há 15 na instituição
Foto: Julio DinizPor Marcela Freitas
Fundado em 1939 em São Gonçalo, o Abrigo do Cristo Redentor (ACR), na Estrela do Norte, tem uma importância histórica para a cidade. Além de ter recebido importantes visitas, como a do ex-presidente Getúlio Vargas, foi neste local que há 76 anos, diferentes histórias de vidas se misturam ao longo de seus pavilhões compostos por alojamentos, refeitórios e casarão. Assim sendo, a partir de hoje, O SÃO GONÇALO, vai contar um pouco da história de alguns residentes, uma entidade sem fins lucrativos com o objetivo principal de dar assistência a pessoas idosas carentes.
Dentre tantas recordações, a relação do engenheiro mecânico Sidney Pereira Motta, de 74 anos, ex-diretor de patrimônio da entidade e empresário do ramo de estaleiros, chama bastante atenção. Sidney vive há 15 anos na entidade por vontade própria e, foi ali, que construiu e reconstruiu sua história.
A história de Sidney com o abrigo começou em 1968, quando ele, morador do Fonseca, em Niterói e estudante de Engenharia da Universidade Federal Fluminense ( UFF). Foi durante uma partida de basquete no Clube Mauá, que ele se interessou pelo abrigo. Jogador da Seleção do Rio de Janeiro, o jovem quis conhecer mais daquele espaço e, segundo ele, foi “amor à primeira vista”.
Após se formar em 1969, Sidney deixou o basquete e foi se dedicar à área naval. “Adotado” pelo dono de estaleiros Arthur MacLarem, Sidney passou a ajudar o abrigo e sempre que podia patrocinava atividades na entidade.
Alguns anos depois, Sidney conseguiu montar sua própria empresa e fundou o extinto estaleiro RCN, que ficou em atividade por 32 anos, na Ilha da Conceição. Mesmo focado na empresa, Sidney nunca deixou de ajudar o abrigo e, em 1980, foi convidado pelo então presidente José Calil Abuzaid para a assumir a diretoria de patrimônio, cargo que exerceu até 1990.
Apesar de não viver mais em mundo de “ostentação”, como ele mesmo define, o engenheiro garante não sentir falta da vida em que levava no passado.
“Sofri muito preconceito. Sou filho de um operário com uma dona de casa de casa analfabeta. Graças à educação consegui chegar ao banco de uma universidade. As pessoas não me aceitavam. Um negro na universidade era inconcebível para alguns. Mostrei que era capaz e venci. Mas vivia uma vida vazia. Era conhecido como o preto rico de Niterói. Vivia em uma casa de 2.4 mil metros com seis banheiros. A casa foi publicada duas vezes em uma revista especializada. Tinha incontáveis amigos. Toda semana minhas casas de campo e praia estavam lotadas. Mas hoje me pergunto: para que tudo isso? E onde estão esses amigos?”, questionou.
Casado por duas vezes, Sidney teve dois filhos legítimos e um adotado. E foi após complicações com a diabetes que ele decidiu viver no abrigo. “Fiquei internado por um ano. Meu casamento já estava em crise há algum tempo e, como gostava muito do abrigo, resolvi morar aqui. Hoje tenho um ótimo relacionamento com as minhas ex-esposas e com meus filhos. Sempre nos vemos na Igreja Metodista que frequento em Niterói”, contou.
Sidney diz que não teria melhor lugar para viver. “Aqui o tratamento é ‘vip’. Temos tratamento médico, sociológico e psicológico e refeições bem preparadas. Além de amigos, é claro. Esse é o meu lar. Hoje, vivendo somente em um quarto, sou mais feliz do que há anos que vivia com muito dinheiro. Aqui posso me sentir em paz com Deus e refletir sobre o verdadeiro sentido da vida”, afirmou Sidney que reside na área do casarão.
Campanha para conter crise
Sem receber da Fundação Estadual Leão XIII o repasse da verba referentes aos meses de agosto, setembro, outubro, novembro e dezembro de 2014 e abril deste ano, a instituição passa por grave crise financeira. Sensibilizados com a situação da instituição, o Rotary Clube e a Câmara dos Vereadores de São Gonçalo lançaram, no último dia 13, a campanha “Seja um sócio contribuinte” que busca ajudar a instituição, que abriga atualmente 175 idosos e sobrevive de repasses públicos da Prefeitura de São Gonçalo e do Governo do Estado e doações da sociedade.
Para ser um dos contribuintes, basta preencher um formulário, que pode ser retirado no próprio Abrigo. Qualquer cidadão poderá fazer uma contribuição mensal de R$20.
História - Raphael Levy Miranda, conhecido como apóstolo da assistência social no Brasil, foi o idealizador e fundador do Abrigo do Cristo Redentor do Estado do Rio. A meta inicial era criar uma federação que unificasse em todo o país os serviços gerais de assistência a pessoas idosas carentes abandonadas.