‘Filhos’ da roda de capoeira
Cultura se mantém viva em SG principalmente pela transmissão da prática nas famílias

Emanuelle, ao lado do marido Nilson, pratica a capoeira mesmo grávida de sete meses
Foto: Filipe AguiarPor Dayse Alvarenga e Matheus Merlim
O pequeno Ricardo ainda nem nasceu, mas o “pré-natal” de sua mãe tem sido ao som de berimbaus e atabaques. Emanuelle Cristina, de 22 anos, não abandona a capoeira nem mesmo aos sete meses de gravidez. O pai, Nilson dos Santos, 24, iniciou há pouco mais de um ano. Histórias como essa se repetem constantemente em diversas famílias praticantes, já que é tradicionalmente cultural da arte que os ensinamentos sejam passados por gerações.
“Só de eu estar grávida e jogando capoeira, já dá para perceber o quanto isso é importante na minha vida. É um leque abrangente entre o esporte e a cultura. Para mim, exclusivamente, é um estilo de vida. Eu vivo a capoeira”, afirma Emanuelle, que é capoeirista desde os 4 anos de idade.

Para Nilson, é importante que o filho conheça de perto a cultura para não reproduzir pré-julgamentos preconceituosos do senso comum sobre a capoeira, como ele mesmo reproduzia na infância.
“Antes de eu começar a jogar, eu tinha a visão de que todo capoeirista não trabalha e que a roda se misturava com religião. Mas não é nada disso”, relembra o iniciante que, junto com a esposa, é membro do grupo Aliança Brasil Capoeira, regida pelo Mestre Pulga, em Tribobó, São Gonçalo.
No grupo Filhos do Kikongo, que tem base no Rio do Ouro, o caminho foi inverso: a filha que introduziu a mãe na roda de capoeira. Há pelo menos cinco anos, a estudante de Comunicação Social Mylena Moraes, 22, conseguiu que Fátima Bernardes, 44, entrasse para a equipe.
“Ela me acompanhava nas aulas e fazia ginástica no mesmo local. Não demorou muito para despertar interesse. A energia chama”, explica Mylena, que começou com 4 anos e hoje já é professora de capoeira.
O sonho de Fátima, a mãe, era que Mylena entrasse nas aulas de balé. Mas, para a universitária, só de pensar nas sapatilhas de ponta, ela prefere o pé descalço.
“A capoeira é minha vida. Aqui aprendi a ter disciplina, a me expressar melhor em público, a respeitar o próximo. Fora que eu não sou nada delicada para ser bailarina”, brinca.
O mestre do Filhos do Kikongo, Tio Robson, também um exemplo do repasse oral da tradição cultural entre a família. Atualmente, ele conta com a esposa Eunice Farias, 42, que foi recém-integrada ao grupo. Embora já frequentasse a equipe por décadas, cuidando da parte administrativa, há três anos ela se rendeu ao batuque dos tambores e entrou para a roda.