Força cultural em SG
Capoeira tem mais de 10 mil adeptos distribuídos em 30 grupos independentes

A prática reúne pessoas de todas as idades na cidade de São Gonçalo, que se dedicam com afinco à pluraridade da capoeira, uma manifestação cultural que mistura jogo, luta, dança, esporte e arte
Foto: Filipe AguiarPor Dayse Alvarenga e Matheus Merlim
Jogo, luta, dança, esporte e arte. A pluralidade dos significados da capoeira surpreende aqueles que não conhecem a essência da doutrina. Com mais de 10 mil adeptos distribuídos em 30 grupos independentes somente em São Gonçalo, segundo a Liga Gonçalense de Capoeira, a prática cultural brasileira tem como principais objetivos passar valores e quebrar paradigmas. Originada no século XVII, em pleno período escravista, a manifestação tem atraído cada vez mais praticantes na região. Entre hoje e amanhã, O SÃO GONÇALO vai mostrar um pouco da importância da prática no município e como a cidade se destaca no cenário nacional.
Presidente da Liga, Paulo Henrique Menezes, de 50 anos, o Mestre Paulão do Filhos do Kikongo, explica que a prática se divide em duas vertentes no Estado do Rio: Angola e Regional.
“A capoeira está na maioria da comunidades de São Gonçalo. Desde 2012, os grupos têm se aproximado da Liga e agora estamos conseguindo fazer um trabalho em conjunto na desconstrução do racismo, do bullying nas escolas e no combate à intolerância religiosa”, afirma.
A música é um dos elementos mais importantes para nortear os movimentos em uma roda de capoeira. A mais famosa delas é a “Paranauê paraná”. A percussão que dá ritmo às letras é formada por, no mínimo, berimbaus, atabaques e pandeiros.
“É por meio da música que a gente passa a mensagem de conscientização. A capoeira considera o valor acadêmico, mas valoriza, sobretudo, a oralidade dos conhecimentos, dos ensinamentos passados por gerações”, explica Robson da Costa, Mestre Tio Robson do grupo Filhos do Kikongo, de 53 anos.
Hoje, de acordo com o Ministério da Cultura, a capoeira está presente em pelo menos 160 países. No dia 26 de novembro do ano passado, inclusive, a prática recebeu da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Segundo a entidade, a arte simboliza a resistência negra no Brasil durante o período da escravidão e esse reconhecimento reforça o valor da herança cultural afro-brasileira.
Como prova da representatividade da cidade de São Gonçalo no cenário da capoeira, o presidente da Liga Gonçalense, Mestre Paulão foi um dos convidados na cerimônia de entrega da conquista, em Paris, na França.
A capoeira recebeu, alguns anos antes da Unesco, outras condecorações. Em 2008, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional(Iphan) reconheceu a prática como patrimônio cultural brasileiro. E no dia 20 de novembro de 2009, o Governo do Estado tombou a capoeira como Patrimônio Imaterial do Rio de Janeiro (lei 5.577/2009).
Capoeiristas elevam município no cenário nacional

As últimas eleições para o Conselho Nacional de Política Cultural trouxeram um saldo positivo para o reconhecimento da cultura gonçalense em escala nacional. Três conterrâneos, entre eles dois capoeiristas, foram eleitos em diferentes vertentes do órgão do Ministério da Cultura, no final do ano passado.
Mestre Paulão, do Filhos do Kikongo, é o representante no setorial Patrimônio Imaterial. O também mestre, Tio Robson, foi eleito para o setorial de Culturas Populares. Por fim, a artesã Egbomi Juçara de Yemojá, de 61 anos, está à frente da categoria Artesanato. O CNPC tem como objetivo ser um orgão de formulação de políticas públicas, a fim de promover a articulação e o debate dos diferentes níveis de governo e sociedade civil.
Para a artesã Juçara Tereza, o primeiro passo após a eleição é criar dentro de São Gonçalo uma cultura de valorização do artesanato. “Para conseguir uma grande conquista na rua, primeiro a gente precisa arrumar nossa casa”, afirma Egbomi reiterando que a atuação dos conselheiros se estende por toda região sudeste.
Cultura que não ‘emplaca’ no legislativo
Apesar do reconhecimento de órgãos nacionais e até mundiais, como o Iphan e a Unesco, a capoeira ainda não consegue ser difundida como prática educacional. Em 2009, o então deputado Gilberto Palmares (PT) elaborou um projeto de lei (2825/2009) que pretendia introduzir a expressão cultural no currículo do ensino público estadual.
A justificativa do projeto era oferecer aos alunos a oportunidade de conhecimento de suas origens como brasileiros e como participantes de grupos culturais específicos. Dois anos depois, no entanto, a proposta foi arquivada.
A deputada Aparecida Gama, relatora pela Comissão de Constituição e Justiça, alegou que a proposição esbarrava na competência do Poder Executivo, que, para ela, é o órgão responsável por definir as diretrizes curriculares.
Amanhã, ‘Filhos de uma roda de capoeira’