Hospitais públicos na berlinda
Falta de recursos públicos pode gerar fechamento de emergências em São Gonçalo e Niterói

O Azevedo Lima, em Niterói, é um dos hospitais mantidos pela Secretaria Estadual de Saúde
Foto: Luiz NicolellaPor Daniela Scaffo
Diante do cenário de crise financeira que assola todo o país, os principais hospitais da rede estadual têm sido um dos mais afetados e correm o risco de fechar as alas de emergência. Entre eles, estão os Hospitais Estaduais Alberto Torres (Heat), no Colubandê, em SG, e Azevedo Lima (Heal), no Fonseca. Os motivos são a falta de repasse de verbas do governo para os fornecedores e às organizações das unidades de saúde.
O problema também afetou a distribuição de materiais básicos dos hospitais, como: material de limpeza, fraldas, soro, alimentação enteral e até mesmo fios para sutura. Preocupados com a notícia, que foi divulgada segunda-feira pelo secretário de saúde, Felipe Peixoto, secretários municipais de São Gonçalo se reuniram na tarde de ontem para discutir planos de ação.
Nos últimos dois dias, o Pronto-Socorro do Zé Garoto e de Alcântara já tiveram um aumento de aproximadamente 30% nos atendimentos emergenciais. “São três serviços do Estado aqui no município, que são duas Unidades de Pronto-Atendimento e o Hospital Geral, e a gente vai acabar assumindo essa demanda de pacientes, em virtude de São Gonçalo ter um cardápio de serviços de saúde municipal maior do que o dos municípios adjacentes. Esse é um momento crítico para a saúde em geral. A crise afeta tudo, e o município, que já tem dificuldades, acabará tendo que assumir uma demanda estadual”, explicou o secretário de saúde, Dhimas Gadelha.
Ainda segundo o secretário, as ações de curto prazo foram suspensão de férias dos funcionários da saúde do município e possibilidade de aumento de leitos nos Pronto-Socorros. “Como as UPAs não estão atendendo os casos classificados em baixo risco, a gente precisou pensar em reforçar as nossas unidades para receber o contingente. Praticamente 80% da demanda são de baixo risco. Inicialmente, iremos suspender as férias de funcionários e estamos trabalhando com a possibilidade de aumentarmos nossos leitos”, finalizou.
De acordo com a assessoria da Secretaria Estadual de Saúde, o atendimento segue normal nas unidades de Niterói e São Gonçalo, sem acarretar prejuízos aos pacientes. Em nota, o órgão disse que: “Diante da crise financeira do Estado, a Secretaria de Estado de Saúde vem reunindo esforços, dia a dia, junto às secretarias municipais de saúde, ao Ministério da Saúde, outros órgãos do Governo do Estado e até à iniciativa privada para manter suas unidades funcionando no intuito de minimizar ao máximo possível os transtornos à população e restabelecer os serviços eventualmente suspensos ou restritos. Os principais problemas encontram-se nos hospitais.
Toda a movimentação feita acontece no intuito de buscar alternativas e soluções para cumprir com suas responsabilidades financeiras”, informou a nota oficial.
Pacientes temem pela suspensão dos serviços
O aposentado Luiz Carlos de Carvalho, de 68 anos, está com câncer de próstata e reto. O diagnóstico foi apresentado apenas em junho por um nefrologista da rede particular, após seis meses rodando em diversas unidades estaduais.
Em função do problema, os rins acabaram sendo afetados e constantemente o aposentado é encaminhado para o Hospital Estadual Alberto Torres para fazer sessões de hemodiálise, como aconteceu na noite da última segunda-feira.
“Depender da saúde pública está complicado. O paciente é visto apenas como uma forma de gerar dinheiro. Constantemente, transferem meu sogro para o Hospital Estadual Prefeito João Batista Caffaro, em Itaboraí, e de lá liberam ele. Ninguém resolve nada.
Inicialmente, ele tinha apenas câncer de próstata, mas com a demora no tratamento e liberação do Sisreg, os rins dele estão parando”, contou o servidor federal Leovigildo Silveira, de 41 anos.
O pedreiro Carlos de Oliveira, 63, sofreu três infartes em menos de 45 dias. O último aconteceu em novembro. Para ele, que depende da saúde pública, o medo é inevitável. “Esse é um dos melhores hospitais que temos. Se a emergência daqui fechar, muita gente vai morrer”, argumentou.
