Niteroiense corre 42km: 'É o esporte individual mais coletivo do mundo'

Por Mariana Costa
Correr a XC Run Búzios é sempre muito especial. Em 2014, ela foi a minha segunda maratona e a primeira em montanha. A gente chega no balneário e a cidade já está respirando a prova. Moradores e turistas nos recebem integrados a esse clima animado e descontraído pré-prova. Só de lembrar a energia fico arrepiada. A XC Búzios tem um percurso total de 42k, mas você pode optar por completar em dupla (cada um faz 21k), quarteto (quatro trechos de 10k500) ou solo (42k).
Cada atleta encara essa prévia, que começa na retirada do kit um dia antes da prova, de uma maneira diferente: há os que se amarram em uma resenha; aqueles que só falam em bater tempo; a elite cheia de estratégias; os fanfarrões-gente-boa; os iniciantes, sempre muito atentos e receosos; e os tensos, que quase não ouvem o que dizem e desabafam sua ansiedade no primeiro abraço de boas-vindas que recebem. Bom, essa sou eu.
O Estaleiro
Em meados de julho deste ano a canelite (meu ortopedista que me desculpe a explicação tosca, a seguir), inflamação no osso da canela, me atacou depois de três anos de trégua. A dor era tão forte que eu, mesmo resistente à dor, não conseguia pisar no chão. Meu ortopedista (e terapeuta), Sérgio Maurício, me recomendou um antiinflamatório para eu sair da crise e decretou: “estaleiro”.
Para pessoas “normais” essa palavra não causa qualquer reação. Para nós é assustadora: significa repouso e distância da corrida. Estava com overtraining (excesso de treino) e havia ignorado os sinais (irritabilidade, fome zero, treinos que não rendiam, cansaço em demasia e insônia). Culpa minha, que me excedi no treinos, ignorando as orientações do meu treinador, Rafael Vianna (Equipe Rafinha Running). É como ele mesmo diz: “não é fazer muito é fazer o certo”. E eu fiz muito errado e paguei caro por isso.
Como a dor não passava procurei o fisioterapeuta Rodrigo Pinheiro, indicação da amiga maratonista Nathália Vicente. Estava a menos de dois meses da XC Run Búzios e, devido à canelite, já tinha desistido de duas corridas e de uma maratona em São Paulo, logo a XC eu iria fazer de qualquer maneira. Rodrigo, em conluio com o Dr. Sérgio Maurício, fez milagre. Ventosas, choques, exercícios localizados e alongamentos fizeram o estaleiro se transformar em Esperança, mas eu também tinha que fazer a minha parte.
Encarei de frente a dieta prescrita pela nutricionista-corredora Rita Melo. Enquanto não podia correr, nadava seis vezes por semana e reforcei os treinos de musculação com o auxílio do grande parceiro e educador físico mais paciente do mundo (porque aturar meu mau humor nessa fase é para poucos) Matheus Araujo, que preparou um trabalho de fortalecimento muscular dos membros inferiores e superiores, porque trilha e montanha se corre com o corpo inteiro. Trilha é entrega.
‘O retorno de Jedi’
A um mês da corrida, já sem dor, o “corpo médico” liberou areia fofa. Estava tão seca por treino que fiz 1h30 de fofa em um sábado de sol, para desespero do fisioterapeuta. Meu corpo estava reagindo. Aos poucos voltei a treinar, mas apenas em terrenos macios (areia, grama e terra batida), nada de asfalto, seguindo (dessa vez) à risca as recomendações do meu treinador, Rafinha.
Só fui fazer asfalto no sábado anterior à XC Run Búzios e na segunda-feira já estava no consultório do Dr. Sérgio, que me examinou e me liberou para fazer a prova. O alívio que senti pode ser comparado ao da Chegada de uma maratona. Chorei, porque estava com medo de me machucar ainda mais e ele me tranquilizou. “Vai fazer a sua prova. Te espero na Chegada.” E ele estava lá mesmo.
O Dia D
Cheguei no balneário na sexta (21) à noite, para pegar o kit, mas dormi e comi muito mal, por conta da ansiedade e do medo de sentir dor. No sábado, às 7h, o sinal da largada foi dado e meu coração veio à boca. O primeiro trecho da prova é muito urbano, mas já dá para esquentar o sangue com suas subidas pra lá de íngremes.
Na XC Run Búzios os terrenos são bastante diversificados e exigem tanto física quanto tecnicamente do atleta, mas passar a cada 10k500m por um pórtico de transição renova o ânimo. Enquanto os quartetos e duplas vão se revezando, nós do Solo somos energizados por essa galera limpa, cheirosa e cheia de gás, que passa varada nos fazendo torcer na mesma proporção da sua intensidade.
Em um desses momentos, vi um treinador empurrar sua aluna para ela completar os primeiros 10k de sua vida. Foi lindo vê-la dar um tiro até o pórtico se libertando do pace cadenciado do seu coach. Imediatamente, lembrei da emoção que senti a primeira vez que venci essa distância. Não aguentei e aplaudi. Na segunda parte já entramos um pouco na mata e enfrentamos as primeiras single tracks. Costumo dizer que é o trecho mais divertido, apesar de Tucuns.
Desculpem o transtorno, mas preciso falar de Tucuns. Esta é, sem dúvida, a parte mais difícil da prova. Acredito que seja de consenso unânime. Já com as pernas duras, o atleta chega a Tucuns fadigado para ainda correr 3k na areia fofa, na diagonal. Este ano, a maré estava bem baixa, menos em Tucuns. Vai entender. Nos anos anteriores ainda conseguimos “aproveitar” um pouco da areia dura, mas nessa edição foi só fofa.
Você pensa que acabou? Após os 3k percorridos bem ao estilo “ponto e vírgula”, como diria minha avó, o atleta enfrenta um paredão, com trecho em escalada de aderência, de 1k no total. O que parece 5k, por conta do grau de dificuldade. Lembro que um cara falou atrás de mim: “enfrentar essa parede no km 22 é muita falta de consideração”. Rimos e seguimos. Ou subimos. E subimos mais.
Ali eu já senti um lampejo da cãibra que veio a me derrubar no quilômetro 24. E quando eu digo derrubar, quero dizer literalmente. Senti a panturrilha direita retrair na hora em que fui saltar uma vala na trilha e para não estourá-la de vez, tirei o pé e caí com o obro. Rolei uns 100 metros e meu grito de dor deve ter apavorado toda a fauna local. Nunca senti cãibra correndo, mas caí bem. Protegi o local.
Sentada urrando, alguns corredores pararam e perguntaram se eu tinha quebrado “só a perna”. Quando falei que era cãibra alguns não acreditaram. Um corredor, com calma, me alongou e eu quase dormi de tanto alívio. Depois de um tempo, voltei a correr. Nesse momento estava chateada, com dores nas panturrilhas e assombrada pelo fantasma da cãibra quando ouço alguém cantar pra mim em plena descida.
Era Felipe de Macedo, colega de treinos e amigo querido da equipe. Apática, contei o que aconteceu e ele ficou comigo até a Chegada. Felipe estava fazendo 21k e disse que aquela não era a prova dele: “meu negócio é asfalto. Como ficaria minha consciência se eu te deixasse aqui?”. Falando da esposa, dos filhos, ele foi me distraindo e aos poucos fui encontrando a confiança novamente. Essa prova me fez ter certeza de que a corrida é o esporte individual mais coletivo do mundo.
Os últimos 3k de uma Maratona, de qualquer uma, são os mais especiais. É onde você pode perder o controle ou se machucar por querer chegar o mais rápido possível, por isso é bom respirar e ter cautela, porque você não está chegando. Ainda não. Nos últimos 3k eu curto a prova ao máximo para enganar a ansiedade. É o tempo necessário para lembrar de toda a corrida, do que te levou até ali; é hora de agradecer a Deus por ter saúde, por colocar nas trilhas e na sua trajetória de vida, anjos em forma de corredores, de médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e de treinadores.
É hora de encontrar de surpresa duas amigas, Nathália Vicente e Andreia Ramos (ambas da EZK Team), que estavam esperando por você na rampa que dá acesso ao pórtico final. É hora de cruzar a linha de Chegada, ao lado do seu fiel escudeiro Felipe de Macedo, sem conseguir respirar de tanta gratidão e por lembrar que há dois meses não conseguia colocar o pé no chão. É abraçar sua amiga Beta Nielsen e sentir nela o abraço de toda a equipe.
É agarrar a medalha de finisher com tanta força até os dedos ficarem dormentes. É fazer o seu pior tempo em Búzios (6h25min) e comemorar como se tivesse alcançado o lugar mais alto do pódio. É se sentir vitoriosa por ser, verdadeiramente, vitoriosa. No final daquele dia, ainda em êxtase, a amiga de equipe Maria Luiza de Castro me perguntou: “Como se sobrevive depois de completar uma prova tão dura quanto essa?”. Programando a próxima. Que venha XC Run Búzios 2017. Solo, sempre.