A arte de ser criança
Estava assistindo a um programa na televisão quando chegou uma criança que estava lá em casa e me pediu para trocar o canal. Ela queria ver um de seus desenhos favoritos. Lá fomos nós à procura do tão desejado programa. Achado o canal, ficamos cerca de cinco minutos vendo apenas propaganda para o Dia da Criança.
Uma enxurrada de brinquedos que falam, andam, pulam, lutam, brilham, soltam fogos, enfim, um apelo absurdo ao consumismo dirigido a uma criança. Fiquei pensando nos brinquedos que se faziam com barbante, corda, cola, papel, pedaços de madeira.
Brinquedos que, para falar ou fazer os barulhos que lhes são peculiares, tinham de ter a cumplicidade de seu dono. Tive, então, saudades do meu tempo de criança. É certo que brinquedo, seja ele qual for, tem uma linguagem universal. Em qualquer parte do mundo, quando se vê uma criança brincando e chega uma outra, seja lá de onde for, a coisa funciona como um imã. As peças se atraem e a brincadeira toma o rumo do imponderável.
A compreensão se estabelece naquele local onde só existe uma realidade: o brincar. Crianças que não falam a mesma língua, se entendem perfeitamente ao montar, juntas, um quebra-cabeça, chutar uma bola, pular corda, brincar de estátua, pique-pega, esconde-esconde. E qual é o eixo condutor da alegria de uma brincadeira ou de um brinquedo? O desafio. É ele que promove o incentivo na busca de resultados e a sensação de alegria no momento da conquista.
As crianças vivem desafiando as impossibilidades e nós as cerceamos, embora saibamos que os grandes feitos dos homens foram conquistados daquilo que parecia impossível. Rubem Alves, num de seus belos textos, fala sobre um Congresso em que ele foi na Itália e lá, distribuíram um folheto com os “Dez Direitos Naturais das Crianças” que, como ele, quero compartilhar com vocês.
São eles: 1. Direito ao ócio: Toda criança tem o direito de viver momentos de tempo não programado pelos adultos; 2. Direito de sujar-se: Toda criança tem o direito de brincar com a terra, a areia, a água, a lama, as pedras; 3. Direito aos sentidos: Toda criança tem o direito de sentir os gostos e os perfumes oferecidos pela natureza. 4. Direito ao diálogo: Toda criança tem o direito de falar sem ser interrompida, de ser levada a sério nas suas ideias, de ter explicações para suas dúvidas e de escutar uma fala mansa, sem gritos. 5. Direito ao uso das mãos: Toda criança tem o direito de pregar pregos, de raspar madeira, de lixar, colar, modelar o barro, amarrar barbantes e cordas, de acender o fogo. 6. Direito a um bom início: Toda criança tem o direito de comer alimentos sãos desde o nascimento, de beber água limpa e respirar ar puro. 7. Direito à rua: Toda criança tem o direito de brincar na rua e na praça e de andar livremente pelos caminhos, sem medo de ser atropelada por motoristas que pensam que as vias lhes pertencem. 8. Direito à natureza selvagem: Toda criança tem o direito de construir uma cabana nos bosques, de ter um arbusto onde se esconder e árvores nas quais subir. 9. Direito ao silêncio: Toda criança tem o direito de escutar o rumor do vento, o canto dos pássaros, o murmúrio das águas. 10. Direito à poesia: Toda criança tem o direito de ver o sol nascer e se pôr e de ver as estrelas e a lua.”
E aí, Rubem Alves acrescentou o décimo primeiro direito ao qual eu me incorporo: “Todo adulto tem o direito de ser criança...”. Feliz Dia das Crianças!