Um diálogo com o céu
A astronomia é, sem dúvida, além da mais antiga das ciências, a mais poética. Ela nasceu frente à necessidade de sobrevivência dos povos primitivos que, convivendo diretamente com a natureza a observavam e a liam. Viam, no céu, o templo dos deuses que lhes mostravam o mapa da vida. O hábito de observar o céu, então, nasce com a humanidade. Fenômenos celestes ligados à estação do ano foram logo percebidos pelo homem, que começa a desenvolver suas atividades agrícolas de acordo com eles. Estudando a natureza, aprenderam que as chuvas, as cheias, as flores, os frutos, o frio, o calor e o próprio aspecto do céu, tudo se repetia com muita regularidade. Assim, no passado, medir corretamente esta repetição significava prever o futuro, prever as épocas de chuva, de plantio, de colheita.
O fato de os primitivos associarem a conduta do céu aos deuses fez com que os movimentos da Lua e dos planetas fossem vistos como indicadores do destino do homem que, inclusive, se orientava espiritualmente através de sua relação com eles. Na pré-história, os primitivos já registravam suas vivências em pedras, cavernas, esculturas, rochas e, muitos dos registros, foram fontes importantes para se constatar notações astronômicas datando de 50 mil anos. Eram constantes suas conversas com o céu a ponto de, em muitas culturas antigas, os homens se chamarem de filhos do Sol. O céu com seus planetas, estrelas, raios, ventos e trovões ditava seus passos aqui na Terra. Até hoje, embora de forma diferente, se faz isto. A ciência evoluiu e atualmente sabemos como e quando estes eventos acontecem, e, muitas vezes, o que fazer diante deles.
Por isso, hoje à noite é dia de conversar com o céu. Hoje é dia de olhar para a Lua. Se tivermos sorte, um eclipse lunar poderá ser visto a olho nu em todo o Brasil, a partir das 21h12, segundo informações dos astrônomos. Também, no dia de hoje, junto a este fenômeno, a Lua, na fase cheia, vai estar no perigeu, momento em que sua órbita fica mais próxima à Terra. É quando, exatamente pela proximidade, ela parece bem maior do que o normal. É a chamada Super Lua. Portanto, se as condições climáticas forem favoráveis, veremos algo especial no céu: o eclipse total de uma Super-Lua de sangue.
Um eclipse lunar acontece quando o Sol, a Terra e a Lua ficam alinhados no espaço, com a Terra posicionada entre o Sol e a Lua. A sombra que a Terra projeta no espaço encobre totalmente a Lua. Primeiro, a Lua entra na parte mais clara da sombra da Terra e fica na penumbra. Depois, ela entra na região mais escura da sombra da Terra: é o eclipse parcial, quando a Lua parece estar mordida. Depois vem o eclipse total, momento em que a Lua fica completamente encoberta, mas não fica toda escura. Fica com uma cor avermelhada, por isso, chamada Lua de sangue. Seja com ou sem o eclipse, a Lua sempre teve seus efeitos mágicos sobre os olhares e os corações das pessoas. Cantada em verso e prosa, parece que a Lua age, sobre nós, com a mesma força que age sobre a natureza, deixando-nos entregues às nossas emoções.
Luiz Gonzaga encanta ao cantar: Se a lua nasce por detrás da verde mata/ Mais parece um sol de prata prateando a solidão/ E a gente pega na viola que ponteia/ E a canção e a lua cheia a nos nascer do coração. Enfim, se o tempo colaborar, o céu dará um espetáculo digno de ser visto e que só vai confirmar a poética pergunta de Mario Quintana: Que haverá com a Lua que sempre que a gente a olha é com o súbito espanto da primeira vez? Vamos olhar para o céu e sentir o súbito espanto da primeira vez.
A professora Marlene Salgado de Oliveira é mestre em Educação pela UFF, doutoranda em Educação pela UNED (Espanha) e mebro de diversas organizações nacionais e internacionais.
recadodaprofessora@jornalsg.com.br