Guerra e Paz
Revendo, em rápidas pinceladas, a história, percebe-se que a dicotomia guerra e paz sempre acompanhou a humanidade, num eterno jogo de poder. Os gregos, para explicar a Guerra de Tróia, acontecida entre 1300 e 1200 a.C e que durou cerca de 10 anos, coloca, nos ombros dos deuses, a responsabilidade do conflito. Tudo começa na festa de casamento de um humano, Peleu, com Tétis, uma deusa. Para o banquete de núpcias, todos os deuses do Olimpo foram convidados, menos Éris, a deusa da Discórdia. Sua vingança foi entrar na festa e jogar, no centro do salão, uma maçã de ouro com a inscrição: “Para a mais bela”. As três deusas - Hera, Atená e Afrodite - quiseram ficar com o fruto dourado. Fica instalada a discórdia. Zeus, para não se envolver, manda as três irem pedir a Páris que servisse de árbitro. Surgem à frente do príncipe e lhe pedem a decisão sobre quem ficaria com o fruto. Hera oferece-lhe conquistas militares; Atená, sabedoria e Afrodite promete-lhe a mais bela mulher do mundo. Afrodite vence a contenda e outra contenda se instala: a guerra. Isto porque a mais bela mulher, Helena, era casada com Menelau, rei dos aqueus, e foi raptada por Páris e levada para Tróia.
A partir daí, o tema Guerra e Paz foi sendo explorado em todos os níveis e áreas, fosse nos mitos, na literatura, na escultura ou na pintura. Quando em 1952, Cândido Portinari recebeu a incumbência de criar um mural para ser presenteado à Organização das Nações Unidas pelo governo brasileiro, seguiu as palavras bíblicas - a boca fala daquilo que o coração está cheio. E com as mãos, as tintas e o coração pintou a obra prima Guerra e Paz, exposta, para júbilo do povo brasileiro, no coração do mundo - a sede da ONU, em Nova York. Nesta semana, no dia 08 de setembro, o mural Guerra e Paz, que, por conta de uma reforma no prédio da ONU veio para o Brasil para restauro, foi reinaugurado, voltando ao seu lugar de honra. Guerra e Paz é uma extraordinária declaração de amor à humanidade, feita por Cândido Portinari.
A mensagem pintada por ele se faz cada vez mais premente, neste mundo adoecido, que anda a passos rápidos por uma trilha suicida. Segundo Portinari, não há na natureza “algo que grite mais alto ao coração do que as guerras, as tragédias provocadas pelas injustiças, pela desigualdade e pela fome”. O tema dos painéis é provocativo e mais provocativo, ainda, é a forma que o pintor lhes deu. No painel da guerra, há uma mistura de formas com animais e pessoas mostrando a dor, o sofrimento, o desespero, o medo. Portinari não especifica nenhuma guerra, não identifica nenhuma arma, mas apresenta uma cavalgada apocalíptica, com seu cortejo de conquista, fome e morte, desencadeando horror e animalidade. Não traz cores de fogo ou sangue, nem o preto, nem o amarelo. É o azul a cor dominante. O painel “Paz” se adorna de cores mais leves e uma riqueza de brincadeiras infantis, de trabalho, de mistura de diferentes povos e o sentimento de solidariedade toma conta do painel. Não transmite a ideia de paz: ele é a própria paz.
Hoje, vendo as imagens de desespero e o desamparo dos refugiados das guerras que assolam este mundo enlouquecido, compreendemos, em maior profundidade, o tema escolhido por Portinari em 1957. Seja entre os deuses ou entre os homens, é sempre preciso que se chegue às raias do conflito para que se lute por um mínimo de paz. Lembro-me bem que o retorno dos painéis ao Brasil para restauro propiciou uma exposição livre dos mesmos. Minha memória me leva ao palco do Teatro Municipal do Rio, onde a pintura foi exposta e me revejo, emocionada, apreciando a beleza desta obra prima.
Antes de voltar para o seu lugar de origem, os painéis Guerra e Paz foram expostos no Memorial da América Latina, em São Paulo; no Grand Palais, em Paris; no Memorial da Paz de Hiroshima, no Japão; em Oslo, na Noruega e no Museu de Arte Moderna de Nova York. É o coração brasileiro de Portinari exibindo, pelo mundo, aquilo que mais o homem teme - a Guerra - e clamando por aquilo que mais o homem deseja - a Paz.
A professora Marlene Salgado de Oliveira é mestre em Educação pela UFF, doutoranda em Educação pela UNED (Espanha) e mebro de diversas organizações nacionais e internacionais.
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