Reflexão sobre a cegueira
Nesta semana, tive a oportunidade de assistir a uma palestra de um cego que estava junto ao seu cão guia, falando daquele companheiro fiel que era seu despertador, a certeza de por onde caminhava, a luz de seus olhos. Ele explicava sobre a importância do cego ter um cão guia, dizendo como sua vida mudou depois que pôde ter um. Já sai de casa com mais segurança, passeia e vai para o trabalho com mais independência. Dóceis, estes animais são fieis escudeiros das pessoas com deficiência visual, os olhos dos que não podem ver. Aprendi, na palestra, que ter um cão guia é um privilégio para poucos. O custo do empreendimento é altíssimo e não há nenhuma ajuda efetiva para que os cegos possam ter um cão que lhes sirva de olhos e proteção. Algumas histórias de amor entre estes cães e seus donos são contadas no livro Amor de Guia, da jornalista Natália Alcântara. O texto fala de sonhos, esperanças, superação, vitórias e conquistas e sua publicação se deu com a ajuda do financiamento coletivo da plataforma Bookstart.
A história tem mostrado que o conceito sobre a deficiência foi mudando através dos tempos, devido a crenças e valores de cada cultura. Nas sociedades primitivas, acreditava-se que as pessoas cegas eram possuídas por espírito maligno e, por isso, se tornavam objeto de temor religioso, sendo banidas da sociedade ou mortas. Na Idade Média, face ao fortalecimento do cristianismo, o desprezo ao deficiente foi trocado pela ideia de que todos os homens foram criados por Deus. Assim, a prática do extermínio deu lugar à caridade e os cegos passaram a ser acolhidos em asilos, conventos ou igrejas. Dos séculos XV ao XVIII, na Idade Moderna, a discriminação aos deficientes visuais enfraqueceu diante dos avanços da ciência e do poder do médico. A partir daí, já sob um novo olhar, a inclusão do cego na sociedade foi concretizada.
A questão da acessibilidade, então, vai ganhando terreno e passa a ser efetivada pela Lei Federal nº 10.098, de 2000. O objetivo da Lei, que é a promoção do acesso de pessoas com deficiência e mobilidade reduzida a locais públicos, estabelece normas e critérios para que elas tenham o direito de ir e vir com total segurança, mediante eliminação de “barreiras e obstáculos”. Mas a realidade não condiz com a determinação legal. Muito se fala e pouco se faz. Muitas vezes, o cego que vem com o seu cão guia, que por Lei tem o direito de estar junto ao dono em qualquer espaço público, se vê impedido de entrar em muitos estabelecimentos comerciais ou mesmo em transportes. Há intensas discussões sobre o fato de as pessoas com deficiência poderem usufruir de seus direitos mas, os representantes da população, ao negligenciarem a Lei, negam-lhes as reais condições de liberdade e autonomia.
Ao ver as dificuldade dos cegos de terem um cão guia para lhes ajudar ou de se depararem, nas ruas, com obstáculos que dificultam o seu livre trânsito, lembro do romance do escritor José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira. Na narrativa um motorista parado no sinal de trânsito descobre-se, repentinamente, cego. Surge, a partir daí, o primeiro caso de uma séria doença - a “treva branca” - que logo se dissemina de forma irrefreável. Resguardados em quarentena, os doentes são reduzidos à essência humana e iniciam uma verdadeira viagem às trevas. Esta cegueira, metáfora da cegueira do mundo atual, representa uma imagem dos tempos sombrios deste novo milênio, em que se alastram a banalização da violência e da indiferença ao humano.
O surto desta “treva branca” remete à cegueira moral que acomete governos que vivem do interesse próprio, insensível às necessidades do outro. São cegos que vendo, não veem e nem querem ver. Esta cegueira moral que assola os governantes no mundo de hoje, dificulta a recuperação da lucidez e o resgate do afeto.
A professora Marlene Salgado de Oliveira é mestre em Educação pela UFF, doutoranda em Educação pela UNED (Espanha) e mebro de diversas organizações nacionais e internacionais.
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