Carequinha, o bom menino!
No dia 18 de julho de 1915, há cem anos, nascia, revestido de uma aura mágica e aquecido pelas lonas do circo, George Savalla Gomes, o Carequinha. Conta ele que sua mãe, a trapezista Elisa Savalla, enquanto caminhava no arame, equilibrando-o ainda em seu ventre, começou a sentir as contrações do parto, olhando, do alto, o picadeiro do circo. Às pressas, foi levada para o seu aconchego diário - uma das barracas que serviam de camarim. Lá, com a alegria do dever cumprido até o último instante e a emoção do momento mais sublime para uma mulher, deu à luz ao futuro riso das crianças e dos adultos: o palhaço Carequinha.
Aos cinco anos, aquela criança predestinada à alegria, deu início à sua carreira como Carequinha, em Carangola, Minas Gerais. Aos doze, já era o palhaço oficial do Circo Ocidental, que pertencia a seu padrasto. Nascido em Rio Bonito, foi na cidade de São Gonçalo que viveu durante décadas e aqui veio a falecer. Como não podia deixar de ser, a cidade que foi seu lar durante tanto tempo, montou, em julho, na Casa das Artes, em tributo ao seu centenário, o Salão Carequinha, com exposição de fotos e fatos de sua vida. Este evento deu início à série de homenagens que se organizou em sua honra - o maior palhaço do Brasil.
A palavra palhaço veio do italiano - paglia - que significa palha e que, antigamente, era o principal material usado para revestimento de colchões. Passou a usar-se o nome de palhaço porque a primitiva roupa deste personagem era feita do mesmo pano e revestimento dos colchões: era um tecido grosso, listrado, afofada nas partes mais relevantes do corpo com palha, tornando, quem a vestia, um colchão andante. O revestimento de palha era providencial, já que protegia o palhaço nas constantes quedas que aconteciam durante suas piruetas e cambalhotas. Aliás, as cambalhotas do Carequinha eram mesmo especiais. Eram a marca registrada de suas estripulias. Ele as realizava quase em câmara lenta, com o chapéu na mão, equilibrando com maestria o corpo, girando-o com enorme perfeição e, ao mesmo tempo, com incrível irreverência.
Lírico, inocente, angelical, sinônimo de alegria e diversão, Carequinha conquistou adultos e crianças do Brasil e do mundo. Ele não interpretava o palhaço, ele era o próprio palhaço, expondo seu maravilhoso ridículo com certa ingenuidade e com energias próprias, moldadas ao seu corpo e à sua alma. Embora vinculado ao circo, Carequinha atuou em espetáculos abertos, em teatros, em programas de televisão, em aniversários, em shows, inclusive, para presidentes, como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Vestido de um jeito jocoso, com uma gola que engolia quase todo o rosto toda vez que subia o seu ombro, com traje multicolorido e a singular maquilagem sabia, como ninguém, fazer mímicas, abusar de sua expressão corporal pulsante, cantar, dançar, enfim um artista completo: singular e plural. Fazer o público rir não é fácil. Há que se ter um quê especial, um carisma peculiar, um toque mágico. Por isto, o palhaço pula, rebola, é irreverente, chistoso, gozador.
Carequinha, embora seguindo os traços característicos do personagem, inovou o conceito de palhaço no circo mundial. São suas estas palavras: “Antes de mim, o palhaço levava farinha na cara, era bobo, só apanhava. Eu fiz o palhaço herói, modifiquei o estilo. A intenção era fazer do palhaço um ídolo e não um mártir”. E foi isto que ele fez e, por isso, recebeu, na Itália, em 1994, a Medalha de Ouro de Palhaço Moderno do Mundo. Parabéns, Carequinha, pela felicidade que você proporcionou a muitas pessoas por este mundão de Deus. São Gonçalo se orgulha muito de você, “Bom Menino”, ainda vivo nos nossos corações.Você é ontem, hoje, amanhã e sempre.
A professora Marlene Salgado de Oliveira é mestre em Educação pela UFF, doutoranda em Educação pela UNED (Espanha) e mebro de diversas organizações nacionais e internacionais.
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