O Homem Descartável 2
Na semana passada, inspirada por um antigo texto de Dom Lucas Pereira Neves, escrito em 1991, dizendo que o símbolo do século XX era o homem descartável, refleti sobre a extensão desta simbologia no século XXI. O texto antigo reflete, não somente o presente, mas também um futuro, talvez, bem próximo. É o que dizem as discussões acontecidas na Conferência Internacional Conjunta de Inteligência Artificial em Buenos Aires, com os maiores cérebros da área, onde cientistas como Stephen Hawking e filósofos como Noam Chomsky advertiram para o perigo de se usar a inteligência artificial sem o cuidado necessário, para que o feitiço não vire contra o feiticeiro, ou seja, máquinas autônomas contra os homens. E o que é inteligência artificial e quem é Steven Hawking?
Inteligência Artificial é um ramo da ciência da computação que se propõe a elaborar dispositivos que simulem a capacidade humana de raciocinar, perceber, tomar decisões e resolver problemas, ou seja, a capacidade da máquina de ser inteligente e ter vontade própria. Steven Hawking é um dos maiores cientistas do mundo. Ele sofre de uma doença degenerativa que o impede de andar, falar – mas não de pensar - e que, para se comunicar, usa os avanços da tecnologia que envolvem uma forma básica de inteligência artificial. Embora ele só possa expor seus conhecimentos com o uso desta tecnologia, adverte que “O desenvolvimento da inteligência artificial total poderia significar o fim da raça humana”.
Hawking está usando, para se comunicar, um artefato tecnológico que “aprende” a maneira como ele pensa e a expõe em uma voz metálica, mas sábia. Segundo ele, as formas primitivas de inteligência artificial desenvolvidas até hoje têm sido muito úteis para a humanidade, mas seu temor é de que, a partir daí, se criem máquinas que sejam equivalentes ou superiores aos humanos. Para esclarecer sua inquietação, explica que tais máquinas avançariam por conta própria, num ritmo crescente e “Os humanos, limitados pela evolução biológica lenta, não conseguiriam competir e seriam desbancados.”
Enquanto refletimos, na semana passada, sobre o total descaso pela vida humana, pela educação, pelas mazelas sociais, pelas nossas crianças que poderiam ser formadas para construir um mundo melhor para elas, deparamo-nos com este sério problema, do qual pouco entendemos, mas os rápidos avanços tecnológicos comprovam sua veracidade. A inteligência artificial é uma tecnologia que, segundo os entendidos, vem se aperfeiçoando e está prestes a sair dos laboratórios de pesquisa para o mercado. A probabilidade é tanta que mais de 700 cientistas e especialistas em inteligência artificial e outras tecnologias assinaram uma carta aberta contra o desenvolvimento de robôs militares autônomos, que prescindam da intervenção humana para seu funcionamento. O físico Stephen Hawking, o cofundador da Apple Steve Wozniak, e o do PayPal, Elon Musk, estão entre os que assinaram o texto, que foi apresentado em Buenos Aires. A preocupação se dá pelo fato de que nada impede que, um dia, estas máquinas inteligentes e com vontade própria saiam do controle dos humanos. Tais máquinas, embora possam tomar decisões, não têm qualquer noção de moral.
Estamos numa encruzilhada. Diante dos fora da lei que, em série e sem nenhuma noção de moral, desprezam qualquer sinal de humanidade e amedrontam os cidadãos de bem que ainda acreditam que é possível viver num mundo de paz; e, daqui a uma ou duas décadas, diante de máquinas que, também sem nenhuma noção de moralidade, podem vir a destruir a raça humana, como explica Steven Hawking. Será que o exterminador do futuro já está chegando? Afinal, o homem foi, está e será descartável por ação de quem?
A professora Marlene Salgado de Oliveira é mestre em Educação pela UFF, doutoranda em Educação pela UNED (Espanha) e mebro de diversas organizações nacionais e internacionais.
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