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O Homem Descartável

relogio min de leitura | Redação 09 de agosto de 2015 - 20:35

Há dias, na vida da gente, em que resolvemos arrumar coisas escondidas pelos cantos da casa ou textos guardados há anos por terem sido importantes para nós, devido ao seu conteúdo. No final da semana passada, vivi um destes momentos e me deparei com um texto de Dom Lucas Pereira Neves, Cardeal Arcebispo de Salvador, falecido em Roma, em 2002. O texto em questão foi publicado pelo já extinto Jornal do Brasil, em 05 de junho de 1991, ou seja, há 24 anos e tem, por título, O homem descartável. Dom Lucas, em seu escrito, reflete sobre os símbolos que cada cultura molda em cada época, lembrando as catedrais góticas e as bandeiras dos cruzados, na Idade Média; as caravelas do descobrimento no século XVI; as máquinas da Revolução Industrial no século XVIII; e define, como símbolo do século XX, o descartável e, em especial, o homem descartável.

Sabemos que o descartável é algo fabricado em série, todos iguais e se um sai diferente dos demais é considerado defeituoso. Não precisa ser belo, mas é necessário que seja útil. Não se guarda, usa-se e joga-se fora, após servir-se dele. Sua vida útil é breve e passageira, já que é feito de matéria barata. E, com certeza, ninguém guarda com cuidado extremo um descartável e nem tem um descartável de estimação. Diz ele, então, que os homens, como os descartáveis, estão sendo produzidos em série pela massificação da educação produzida tanto pelo Estado como pela família e pela escola.

O homem, no século XX, então, não estaria sendo visto pela sua essência e sim pela sua produção,atendendo à lógica dos bens de consumo, lógica que determina que quem não produz é tido como inútil. E completa: “O mais grave na dinâmica que gera o homem descartável é a tendência de rebaixar o valor intrínseco deste homem e de tudo que lhe diz respeito. [...] Desprezo do corpo e do sentido profundo da corporeidade; desprezo da vida humana; desprezo da dignidade natural e inalienável, não outorgada por quem quer que seja, mas concedida por Deus; desprezo dos grandes valores do homem como a liberdade, a solidariedade, a verdade, a consciência. Quando o ser humano é considerado matéria vil ou ordinária, quando não recebe alto grau de estima, não está longe de descartá-lo como inútil e estorvante.”

Releio o texto e sinto-me diante de algo escrito ontem, à medida que podemos considerar também, o homem descartável como símbolo do século XXI. Dom Lucas era um visionário? Não. Apenas um observador profundo das mazelas da política e da sociedade do século XX, cujas características em nada mudaram, neste nosso século, aliás, só pioraram. A violência, a falta de importância pela vida humana só se aprofundou nestes 24 anos. Passou de mal a pior. Hoje, estamos absolutamente desprotegidos. Não há um dia em que se busque um veículo de comunicação, seja ele jornal, rádio ou televisão, que a maioria das notícias não seja de assassinatos, tiroteios entre policiais e bandidos, esfaqueamento de pessoas que voltam de seu trabalho, invasão de domicílios, sequestros e menores infratores. Há muitos anos atrás, as notícias eram dadas desta forma: - Bandidos fugiram da polícia... Ontem, ouvi, no jornal da manhã, uma notícia dada assim: - Policiais fogem dos bandidos...

Estamos, portanto, impedidos de usufruir com tranquilidade a nossa liberdade, quase sem o democrático direito de ir e vir, como prevê a nossa Constituição, mas ainda com a esperança de que este cenário, um dia, venha a mudar.

A professora Marlene Salgado de Oliveira é mestre em Educação pela UFF, doutoranda em Educação pela UNED (Espanha) e mebro de diversas organizações nacionais e internacionais.

recadodaprofessora@jornalsg.com.br

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