A criança e a música
No domingo passado, falei sobre a música, num artigo intitulado Música é vida. Naquele momento, o que me impulsionou a falar sobre o assunto foi o resultado de uma vida plena, inteira, cheia de vigor de uma mulher que viveu, desde criança, envolta pela música e que hoje, aos 93 anos, ainda a pratica de forma magistral: Bibi Ferreira. Hoje, quero falar de um lugar situado no outro extremo da vida: a infância. É certo que a música é algo indispensável na vida de qualquer um e de qualquer idade. Mas estudos têm mostrado a sua importância no desenvolvimento da criança desde o nascimento.
O eminente pesquisador americano, Edwin Gordon, professor de educação musical da Universidade da Carolina do Sul, através de extensas investigações, deu grande contribuição para o estudo das aptidões musicais das crianças. Pesquisou sobre o desenvolvimento musical de recém-nascidos e de crianças em idade escolar e afirma que é já no nascimento que o ser humano revela o seu maior potencial para a música e que, exatamente por isso, este momento não pode ser desperdiçado. A inteligência musical se desenvolve na criança e se manifesta através da habilidade de apreciar, compor ou reproduzir uma peça musical. A criança que recebe estímulos através da música tem a facilidade de descriminar sons, de perceber temas musicais, de demonstrar sensibilidade para ritmos e timbre.
Embora o incentivo da família e a iniciação da música na infância sejam positivos, não são a única maneira que se tem na formação musical. Contribuem e muito para isto a escola, os amigos e os meios de comunicação. É certo que talento e conhecimento caminham juntos, que um depende do outro, mas, quanto maior o conhecimento, mais se desenvolve o talento e, quanto maior o talento, mais fácil se torna o conhecimento. O que se sabe também é que, para além deste caráter informal, encontra-se a importância desta arte no desenvolvimento neurológico, pois a música é um estímulo muito forte para ativar os circuitos cerebrais. Ela tem, portanto, uma função bastante ativa na Educação Infantil, não só pelo seu caráter lúdico, mas pelo estímulo à aprendizagem e, consequentemente, à ampliação das competências cognitivas básicas.
No andamento do ritmo da vida mora, latente, o ritmo da música que há dentro de cada um, agindo ativamente na área da afetividade humana. É a memória musical que oferece as melhores lembranças de ternura, aconchego e delicadeza, sentimentos dos quais nossa sociedade está bastante desprovida. A música é um canal de fortalecimento do indivíduo. Ela amplia o exercício da escuta, atitude que traz imensos benefícios à criança, pois imprime nela a generosidade, no momento em que ela sai de si e aplaude o resultado do outro. Em países cuja educação da criança pequena se situa num lugar de real importância, como o Japão e os países nórdicos, a música tem destaque especial nos currículos escolares. Os educadores, nestes países, são também tratados com especial atenção, tendo um tempo considerável dedicado à sua formação musical.
Aqui no Brasil isto não acontece. O espaço destinado à música no currículo de formação de professores é nulo ou quase nenhum. Faz-se necessário investir na formação estética - especialmente a musical - de nossos professores se desejarmos melhores resultados na educação básica. O bom é que há aqueles que, independente do governo, se preocupam com as crianças carentes e, no sentido de ajudá-las a encaminhar-se na vida, criam associações que difundem e promovem o ensino da música, tirando-as da rua e dando-lhes um maior significado na vida.