Música é vida
Nesta semana, tive a satisfação de ir assistir à apresentação de Bibi Ferreira cantando Frank Sinatra. Ver aquela mulher de 93 anos entrar no palco vestida com um vermelho vivo como sua própria vivacidade e dar um verdadeiro show de voz, ritmo e memória, num inglês impecável foi sensacional. Senti-me plena e com a certeza de que se tem sempre de acreditar no futuro, estar ativa trabalhando e crer em si mesma. Isto me fez pensar nos benefícios da música para o ser humano. A música é uma linguagem universal. Podemos dizer que o primeiro chamado à vida é feito pela música. Inicialmente, pelas batidas dos corações da mãe e do próprio feto. Depois, pelo som da água. Tudo que se ouve na gestação fica no registro de todos, durante toda a vida. Assim, quanto mais cedo se tiver contato com o universo musical, mais cedo desperta-se a sensibilidade da audição, sentido humano que requer uma percepção aguçada devido à quantidade de sons que nos rodeiam.
Som é o deslocamento do ar. Qualquer mudança das partículas do ar produz som. Desde o vento até ruídos de dinâmica leve ou grandiosa. Conta-se que Beethoven, já completamente surdo, ia para um ambiente aberto, olhava o vento, o farfalhar dos galhos e das folhas e ouvia, através do movimento da natureza, a música que estava a compor. Bibi conta que conviveu com a música desde muito pequena. Aprender música quando criança desperta cognições que ajudam o desenvolvimento de muitas áreas do cérebro. É sabido, cientificamente, que a música facilita o conhecimento lógico e está ligada à matemática. O tempo todo que estudamos música, estamos fazendo contas. A distância das notas, a soma delas, a quantidade dentro do compasso são alguns dos exercícios que esta arte nos proporciona.
Outros setores que podem ser beneficiados com o estudo da música são a Física, quando se trata de unidades de medida, a Literatura, quando se aprende a recitar versos e, com certeza, também está ligada à química do corpo humano pelas sensações que a música traz, remetendo a lembranças, a alegrias, a tristezas, à dança. O filósofo grego Platão acreditava que a educação através da música contribuiria para a formação de um indivíduo bom. E Bibi Ferreira, aos 93 anos, com o corpo já limitado pela idade, ignora este fato balança o corpo, os braços, as mãos, a expressão facial ao ritmo das canções que interpreta, completamente dona de si e do que acontece a sua volta. É a própria luz centralizada no palco da vida.
A música vitaliza a memória afetiva, acende lembranças e enriquece as emoções, promovendo crescimento e isto, com certeza faz diferença nas relações do ser humano consigo mesmo, com o mundo e com o outro. A música dá enorme sentido de organização, pois ela trabalha, dentre outras coisas, o senso de limites entre o tempo e espaço sonoros, entre o que começa e o que termina, combinando com o momento de executar o instrumento que está sendo tocado ou de soltar a própria voz. E isto Bibi Ferreira, aos 93 anos de idade faz com absoluta perfeição.
Saí do show lembrando de uma linda frase dita por Aldous Huxley, um proeminente escritor inglês: Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música. E depois de ver e ouvir Bibi, aos 93 anos de idade entrar, cheia de luz e vida, naquele palco do Net-Rio, digo que depois do silêncio, o que mais se aproxima para exprimir o inexprimível é Bibi Ferreira, sua voz e sua música.