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À sombra das cerejeiras

relogio min de leitura | Redação 12 de abril de 2015 - 01:11

Quando vi na televisão a matéria sobre a primavera no Japão, senti uma ponta de saudade e um muito de inveja boa, ou “branca” como se costuma dizer, de um povo tão fino, educado, gentil. Há alguns anos tive a oportunidade de realizar um trabalho neste país. Fui feliz, com certeza, pois é sempre bom conhecer culturas e paisagens diferentes. E por mais que eu soubesse que eles tratavam muito bem seus visitantes, não poderia imaginar que eu teria um tratamento tão especial. Inicialmente pensei que o tratamento vip que eu estava recebendo dizia respeito ao fato de eu ser reitora de uma Universidade.

No entanto, quando entrei no Conselho, no espaço em que os profissionais da educação se encontravam, percebi que o tratamento se devia sim, ao fato de eu só ser professora, pois todos os professores ali, indistintamente, estavam sendo tratados com uma deferência especial, porque eram profissionais de uma das mais importantes carreiras do país; porque eram os profissionais que formavam todos aqueles que precisam ter conhecimentos sólidos para construir um povo que se respeite; porque eram os profissionais que promoviam e valorizavam, em seus discípulos, o ato de pensar; porque não há nenhuma carreira cujos atuantes, do mais simples ao mais elevado cargo, não tenham passado pelas mãos de professores; porque, para eles, a educação é a base que sustenta o caráter, a dignidade, o respeito, o saber, o pensar de um país. Não há, lá, um discurso sobre a educação que fique só na fala e caia no vazio. Eles falam, acreditam no que falam e agem segundo suas crenças.

Quando vi as belíssimas cerejeiras numa florada de tempo tão pequeno - por duas semanas - percebi que as duas semanas servem apenas para mostrar, em tempo real, a beleza de uma primavera que não pertence somente à natureza, mas que estende suas raízes para a primavera da alma do povo japonês. A delicadeza das cerejeiras faz parte do espírito deste povo, tão delicado como elas. A primavera chega, estas árvores florescem e o povo floresce com elas, nesta época a que chamam de sakura. Então, famílias e amigos praticam o que chamam de hanami; reúnem-se à sombra das cerejeiras para contemplar sua beleza enquanto, juntos e espalhados pela relva, comem e bebem. Satisfazem o corpo e o espírito, proporcionando um dos maiores espetáculos da natureza natural e humana deste pequeno imenso arquipélago.

Diz-se que sakura é uma adaptação do nome da princesa Konohana Sakuya Hime.

Conta a lenda que esta princesa teria caído do céu, nas proximidades do Monte Fuji e teria se transformado, então, nesta bela flor. Outra vertente da origem do nome sakura se liga à cultura do arroz, já que kura significa depósito onde se guardava o arroz, alimento básico dos japoneses, considerado uma dádiva divina. Seja pela princesa que caiu do céu ou pelo lugar onde se guardava o elemento que sustenta o povo, ambos são considerados dádivas divinas: seja vindo do céu ou nascendo da terra. Assim, as crenças se unem e se complementam, formando um todo: o centro firme e delicado do povo japonês. Um povo a que podemos chamar de verdadeiramente educado.

Bem que quando lá fui e fui tratada como fui, senti-me mesmo uma pessoa especial. Minha autoestima elevou-se e tive pena de viver num país em que os profissionais da educação e em especial, os professores, são tão desrespeitados e desvalorizados. Quem sabe um dia!...

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