É melhor ser alegre do que triste
Quando alguém, aos 14 anos, começa a fazer suas primeiras composições e a se apresentar em festas de amigos, é porque a vida vai dando um destino às suas palavras e elas podem divagar pelo mundo, um dia. Para quem achava que o exímio poeta de quem falo iria apenas escrever livros em verso e prosa, enganou-se. Ele era tão poeta que se tornou, em sua magnitude, um ‘poetinha’. Pertencendo a uma família de músicos e cantores, já trazia do berço a veia que o enveredou para as canções que se eternizaram com o tempo. Sua sensibilidade para o popular só engrandeceu sua obra.
Há um folclore que diz serem poemas literários e “poesia e canções”, coisas distintas. Se isto procede, com o que não concordo, ele os unia com fluência, como se seus versos já estivessem musicados em sua mente. As atitudes do ‘negro’ Vinicius com sua malandragem incomparável renderam, ao longo de sua vida, histórias bem humoradas, irônicas, românticas. Explica ele: “Quando eu digo que sou o branco mais preto do Brasil, digo a verdade. A minha comunicação com a raça negra é imensa. Sinto atração por ela, a todo momento descubro sua vitalidade. A contribuição do negro à cultura brasileira é importantíssima. Só a contribuição rítmica que eles trouxeram, a magia do mundo negro, já me liga a eles definitivamente." Em 55, Vinicius monta uma peça com o título “Orfeu da Conceição”, cuja trilha sonora é criada pelo, então,jovem pianista de nome Tom Jobim, parceiro de sua vida profissional e pessoal. Seus devaneios rabiscavam versos que se alternavam da linguagem simples a temas sensuais, sociais, religiosos, amorosos e, por vezes, humorísticos.
O então ‘advogado’, Vinicius de Moraes, ingressou na carreira diplomática depois de trabalhar como crítico e censor de cinema. Após desistir de carreiras promissoras foi à bossa nova que ele se dedicou, iniciando seu trajeto como músico com shows em boates, casas noturnas e universidades, ao lado do inseparável Toquinho. Vinicius tinha suas manias e, uma delas era a banheira: seu canto preferido onde, sentado nela, além de cantarolar, lia livros e escrevia versos. O “poetinha” elegeu o inusitado local para refletir e se inspirar. Na banheira, Vinicius também dava entrevistas e fazia suas refeições, ao lado do eterno copo de uísque, seu “cachorro engarrafado", como ele dizia. Outra mania do poeta eram as torneiras. Elas tinham que estar inclinadas, sempre na mesma direção, para que, segundo consta, estivessem em simultâneo equilíbrio de fluxo: o da água quente, que o acalmava, e o de água fria, que o mantinha aceso. O ‘escritório alternativo’ se tornava completo com uma mesa improvisada: uma tábua apoiada nas bordas da banheira.
No dia de ontem, 09 de julho, do ano de 1980, o último suspiro do poetinha se deu justamente em sua banheira. Na madrugada, Vinicius de Moraes, talvez cantando; Cai a noite sobre o nosso amor / e agora só restou do amor / uma palavra: Adeus/ Aí vontade de ficar / mas tendo que ir embora", falece após sentir-se mal, enquanto compunha a trilha do programa infantil “Arca de Noé”. Então, “tanto fez o moço, que foi para a panela”. Alegando cansaço, dirige-se ao seu canto predileto para tomar um banho e não volta mais.
No dia anterior, ao ser perguntado se estava com medo da morte ele respondeu: “Não, meu filho. Eu não estou com medo da morte. Estou é com saudades da vida”. E nós, com saudade dele: da sua presença, do seu humor, da sua graça, do seu jeito moleque de ser, da sua alegria. Afinal, Vinícius viveu a vida como a pregou: com Amor Demais! Com um “amor que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. Tendo a “Garota de Ipanema” como sua “Primeira Namorada” a levá-lo, pela “Estrada Branca” que, na sua Insensatez, fez de Você e Eu; a “Coisa Mais Linda”: o “Samba da Bênção”. Afinal, “Chega de Saudade” e vamos, “com o olhar esquecido, no encontro de céu e mar, passar a “tarde em Itapoã; pois, como nos ensinou o “poetinha” que ainda vive bem vivo dentro de nós...
É melhor ser alegre que ser triste...