ARTIGO 310: SÃO PEDRO BONACHÃO
Num breve e belo poema, “Irene no Céu”, para falar na pureza e candura da
personagem “Irene” e na pureza e bondade de São Pedro, o poeta Manuel Bandeira verseja,
com toda delicadeza, assim: Irene preta / Irene boa / Irene sempre de bom humor!/
Imagino Irene entrando no céu: / - Licença, meu branco! / E São Pedro bonachão: / -
Entra, Irene! Você não precisa pedir licença. Depois de caracterizar Irene como uma
pessoa especial, o poeta põe, nos lábios de São Pedro, uma resposta acolhedora, sem
cerimônia, demonstrando toda sua intimidade com aquela pessoa simples, de alma cândida,
deixando-a à vontade para fazer sua entrada no céu. São Pedro é caracterizado, também,
sem cerimônia como “bonachão” pelo poeta.
São Pedro é considerado o primeiro papa da Igreja Católica, protetor dos pescadores
e das viúvas. É o último santo da trilogia que abençoa o mês de junho com a bandeira da
fé, das procissões, dos fogos, dos xadrezes e estampados, das comidas, das fogueiras, das
quadrilhas. As festas em homenagem a São Pedro, realizadas no 29 de junho, fecham,
junto com o santo porteiro, as portas dos festejos juninos. Todos os anos, em muitas
cidades à beira mar ou à beira rio espalhadas pelo mundo cristão, os pescadores aprontam
os barcos, enfeitam os mastros das embarcações e saem mar ou rio a fora para festejar o
apóstolo mais humano de Jesus. O apóstolo "bonachão", segundo o poeta e "pescador de
homens", segundo Cristo.
Há um dado curioso sobre já ter sido São Pedro o Padroeiro do Brasil. Conta a
história que após a Independência do Brasil, Dom Pedro I achou que o “novo país”
precisava ter um santo padroeiro, oficialmente autorizado pelo papa, embora ele próprio já
tivesse feito a consagração do Brasil à Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida do Norte,
na sua vinda de São Paulo para o Rio, logo após o 7 de setembro. Dom Pedro I, então,
solicitou ao papa que São Pedro de Alcântara fosse consagrado o Padroeiro do Brasil. E
assim foi feito. Instituída a Proclamação da República, aos poucos, foi sendo proclamado o
esquecimento deste fato, possivelmente porque o nome do santo lembrava o dos
imperadores, demonstrando, de certa forma, uma relação positiva entre o império e a
religião o que, politicamente, não seria proveitoso para o novo regime implantado.
Apesar disto, o nome de São Pedro de Alcântara como Padroeiro do Brasil continuou
lembrado por muitos anos nos missais mais tradicionais, conforme consta no índice do
missal “Adoremus”, do Manual de Orações e Exercícios Piedosos. A oração do santo,
intitulada Oração a São Pedro de Alcântara Padroeiro do Brasil, inicia assim: Ó grande
amante da Cruz e servo fiel do divino Crucificado, São Pedro de Alcântara; à vossa
poderosa proteção foi confiada a nossa querida Pátria brasileira com todos os seus
habitantes. E mais adiante diz: De modo particular, vos recomendamos, excelso Padroeiro
do Brasil, aqueles que nos foram dados por guias e mestres [...].
O fato é que, padroeiro ou não, São Pedro é exaltado, aqui, com fé ardorosa. Foi
reverenciado na quarta-feira passada em folguedos nos mares, nos rios e nas terras deste
nosso rincão religioso, alegre e festeiro. Após o cortejo, que arrasta multidões pelas ruas
seguindo o andor, a imagem é levada ao cais, colocada a bordo de barcos, quando é dada a
partida das procissões que navegam entre as águas e os céus, iluminadas pelas bênçãos do
santo que é símbolo da unidade da Igreja e da autoridade de Cristo aqui na terra.
Que São Pedro nos proteja!