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Pentecostes e a Festa do Divino

relogio min de leitura | Redação 14 de maio de 2016 - 20:15
Hoje comemora-se Pentecostes e o Divino Espírito Santo. Segundo a Bíblia, neste dia, estando reunidos num só lugar, Maria e os Apóstolos de Cristo, veio do céu, de repente, um estrondo, como um vento impetuoso, soltando línguas de fogo que se separaram e pousaram sobre as cabeça de cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e, a partir daí, cada palavra que pronunciavam, saía de suas bocas, ao mesmo tempo, em todas as línguas, conforme o Espírito Santo lhes ensinara. Desta forma, poderiam espalhar livremente a palavra de Deus, sendo compreendidos por todo o mundo. Assim nascem os festejos religiosos, assim professa, cada um, a sua fé.
Uma das manifestações religiosas mais tradicionais aqui no Brasil é a Festa do Divino. Esta celebração, como a fazemos, teve sua origem em terras portuguesas. Conta-se que por volta de 1320, D. Isabel de Aragão, rainha de Portugal, prometeu ao Espírito Santo peregrinar pelo mundo, arrecadando donativos para os pobres. Como adorno, levaria uma cópia da coroa que teria, no alto, uma pomba branca, símbolo do Divino Espírito Santo. A razão da promessa era o desejo de que seu esposo, o rei D. Dinis, fizesse as pazes com seu filho legítimo, D. Afonso, herdeiro do trono, já que o rei queria passar a coroa para seu filho bastardo, Afonso Sanches. A interferência da rainha e sua súplica ao Espírito Santo teria evitado um conflito armado. A devoção do Divino achou solo fértil em terras portuguesas e espalhou-se por outros rincões colonizados, como o Brasil.
Em sua origem, a festa se distinguia pela afirmação do Império do Divino, com palanques, onde se armava o trono do Imperador: uma criança ou adulto escolhido para presidir a comemoração. Este Imperador por um dia gozava de poderes de rei. Tinha, inclusive, o direito de ordenar a libertação de presos comuns em certas localidades do Brasil e de Portugal. Antecedia a festa, a Folia do Divino, grupo de cantadores que ia nas casas pedir auxílio para os festejos. Levavam, com eles, a Bandeira do Divino que era recebida com grande devoção onde quer que chegasse. No século 19, a Festa do Divino era tão popular e tinha tal importância que o título de Imperador do Brasil, escolhido em 1822 por José Bonifácio, se deu porque o povo estava mais acostumado com a palavra imperador do que com a palavra rei.
A Festa do Divino vive até hoje em vários estados brasileiros e um deles é o nosso. A cidade de Paraty é o berço desta festa, elevada a Patrimônio Cultural Brasileiro em 2013, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A Folia do Divino foi suprimida, mas a celebração se mantém fiel em seus princípios básicos. No sábado pela manhã, carne é distribuída aos pobres, pelos festeiros, como Dona Isabel fazia há mais de 700 anos. Ao meio dia, comida e bebida são distribuídas à população. À noite, na Matriz, um adolescente da comunidade é coroado Imperador do Divino. Ele assiste à missa com seus vassalos e ao sair da igreja, recebe homenagens com apresentação de danças e dos bonecos folclóricos de Paraty: o Boi, o Cavalinho, o Peneirinha e a Miota, originária do Minho, Portugal. Na cadeia antiga, o Imperador, simbolicamente, liberta um preso.
Tudo isto acrescido da procissão das Bandeiras, com batida de pandeiro, viola e canto folclórico. A celebração inspirou Ivan Lins a compor Bandeira do Divino, cuja letra vem eivada da devoção que invade o espírito de quem conhece a história e os meandros da festa. Diz ele: Os devotos do Divino / vão abrir sua morada / pra bandeira do menino / ser bem vinda ser louvada / Deus nos salve este devoto / pela esmola em vosso nome / dando água a quem tem sede / dando pão a quem tem fome. Quem já foi à Festa do Divino em Paraty sabe que é imperdível. A cidade fica realmente impregnada do sagrado.

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