O poder de um 'click'
Hoje se comemora o Dia Mundial da Internet. A data foi criada para se promover uma reflexão sobre as potencialidades e desafios das novas tecnologias na vida dos cidadãos e sua influência na sociedade em geral. Foi a Organização das Nações Unidas - a ONU - que, em 2006, escolheu o dia 17 de maio para se pensar na importância desta comunicação, que transformou, de forma radical, o convívio entre as pessoas. Mas, em verdade, a primeira revolução que se deu na comunicação, ou seja, o primeiro “click” que o homem acionou no seu computador mental foi a linguagem: uma forma que ele idealizou para entrar em contato mais significativo com seus semelhantes. A linguagem, então, tem papel fundamental não só porque possibilitou a comunicação entre os indivíduos, mas por constituir o pensamento humano. Tempos depois, outra revolução: a invenção da escrita, que fez com que o conhecimento ultrapassasse a fronteira do tempo e que a mensagem fosse decodificada sem a existência do falante.
Dando um salto no tempo, nos finais dos anos 60, teve origem este outro tipo de comunicação que revolucionou o mundo: a Internet. Desde que ela se popularizou, há vinte anos, o mundo é outro. As distâncias foram anuladas e, no mesmo instante, os acontecimentos do outro lado do mundo entraram em nossa casa. Com certeza a Internet chegou para facilitar a vida das pessoas e muitos são os seus benefícios. Só para lembrar um deles, nesta semana, cinco médicos brasileiros foram ao Nepal cuidar das vítimas do terremoto e contaram: “Nós queríamos ir, mas não tínhamos condições. Falei pela Internet com uma amiga da Holanda. Ela se comunicou com outras pessoas e, dois dias depois me respondeu, perguntando onde depositar o dinheiro que arrecadou - cinco mil euros - para que nós pudéssemos ir ajudar os feridos do terremoto.”
Mas não podemos esquecer que a Internet é uma faca de dois gumes. Há o seu lado negro. Aliás, não da Internet, mas das pessoas que a usam. São vírus, invasões de privacidade, enganos feitos pelos usuários de mau caráter e o próprio vício do uso. É aí que temos de tomar cuidado. O próprio Steve Jobs, que revolucionou seis indústrias - as de computadores pessoais, de filmes de animação, de música, de telefones, de tablets e de publicações digitais - não permitia que seus filhos usassem dispositivos tecnológicos com a frequência que quisessem. Em sua casa, todas as noites, fazia questão de jantar na grande mesa da cozinha, discutir livros, histórias e uma variedade de coisas. Ninguém nunca usou um iPad ou computador ali. Também Chris Anderson, presidente executivo da 3D Robotics, uma fabricante de drones, instituiu prazos e controle familiar em todos os dispositivos da casa. Disse ele: “Meus filhos acusam a mim e à minha esposa de sermos fascistas e excessivamente preocupados com a tecnologia e eles dizem que nenhum de seus amigos possui as mesmas regras.”.
Isto é para se refletir. Por que duas pessoas que se debruçaram sobre o aperfeiçoamento da tecnologia, têm, com seus filhos, o cuidado de os inserir num mundo de livros, pensamentos próprios, discussões de ideias, tudo face a face? Só depois disto, o computador e a Internet? È certo que a Internet é mágica. Uma verdadeira explosão de janelas comunicantes, abertas para um mundo incomensurável: o mundo virtual. Mas é certo, também que há que se ter cuidado com este mundo. Não é só um paraíso. É um mundo cheio de mistérios, por onde transitam fadas e bruxas. É uma floresta de sonhos na qual as entradas, tanto do céu quanto do inferno, estão abertas, esperando somente um “click”.
A professora Marlene Salgado de Oliveira é mestre em Educação pela UFF, doutoranda em Educação pela UNED (Espanha) e membro de diversas organizações nacionais e internacionais.
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