Adélia Prado e a presença de Deus
Hoje, 13 de dezembro, no ano de 1936, nasce, na cidade de Divinópolis, Minas Gerais, uma estrela poética chamada Adélia Prado. Foi professora por muitos anos. Um dia, enviou seus poemas para apreciação do crítico literário Affonso Romano de Sant’Anna que, por sua vez, os enviou a Carlos Drummond de Andrade. O poeta mineiro sugere a publicação de seus poemas, julgados, por ele, fenomenais. Surge assim, para deleite dos leitores, o seu primeiro livro: “Bagagem”. A partir daí, a escritora mineira vai colocando em sua bagagem literária uma série de outros livros - cerca de doze - e vai se destacando por eternizar em seus versos a simplicidade da vida no interior, a figura feminina e Deus. A fé e a espiritualidade impregnam a sua poesia.
A religião, portanto, é uma temática importante em sua obra. A expressão dos sentimentos através da linguagem artística é, sem dúvida, uma maneira pela qual o homem se organiza socialmente e expressa suas crenças. Não há sociedade em cujas manifestações artísticas não se apoie, como elemento indispensável à sua sobrevivência, já que tais manifestações traduzem impulsos e necessidades de comunicação e de integração. A arte, portanto, é tão necessária ao homem quanto a fé. O filósofo Nietzsche dizia que: “Temos a arte para não morrer da verdade” e Leonardo da Vinci que: “A arte diz o indizível, exprime o inexprimível, traduz o intraduzível”.
Ao ler os poemas de Adélia Prado, Drummond escreveu: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo. Fogo de Deus em Divinópolis”. Um de seus livros tem como título, Miserere, palavra que vem do latim, Miserere Nobis, e quer dizer “Tende piedade de nós”, expressão pertencente à liturgia católica. O livro todo é transpassado pela reflexão sobre a fragilidade da vida e pelo sentimento de um desencontro entre o corpo e o espírito. Deus é personagem principal em sua obra. Ele, a sua fé católica, a reza, o labor cristão. Diz ela: “Tenho confissão de fé católica. Minha experiência de fé carrega e inclui esta marca. Qual a importância da religião? Dá sentido à minha vida, costura minha experiência, me dá horizonte”.
Como religiosa que é, mesmo quando parece sentir a ausência de Deus, o faz através do sagrado que, ao mesmo tempo que transcende este mundo, se manifesta nele. Isto se comprova no poema “Paixão”: De vez em quando Deus me tira a poesia. / Olho a pedra, vejo a pedra mesmo. A sua poética se dá por uma volta ao cristianismo originário e primitivo, quando a cisão entre corpo e espírito ainda não se tinha concretizado. A criação literária, para ela, é mistério, mas mistério como sinônimo de fé. Sua poesia alcança Deus através do sensível, pois o divino é real e a poesia é revelação deste real. Cada livro de Adélia Prado é um evento a se festejar. São como fragmentos de seu diálogo com Deus. Segundo ela, o transe poético é o experimento de uma realidade anterior a você. Ela te observa e te ama. Isto é sagrado. É de Deus. É seu próprio olhar pondo nas coisas uma claridade inefável. Tentar dizê-la é o labor do poeta. Ferrenha admiradora de Jesus diz que Ele é inesgotável mistério e maravilha. Sua encarnação, morte e ressurreição são o sustento, a alegria, razão e o sentido de tudo.
Nesse tempo de hoje, em que nosso espírito está se preparando para festejar a renovação pelo nascimento do Filho de Deus, nada melhor que nos deliciar com as palavras fervorosas de Adélia Prado sobre fé, mistério e sagrado. Que nós consigamos nos sentir como a poetisa, quando ela diz que sua esperança vem da graça de ser cristã e que Deus mora nela como sua melhor casa. Parabéns Adélia, pelo seu aniversário.