Um ato de fé
Vivemos, nesta semana, o dia de Nossa Senhora das Graças. Sempre que se fala de religião, seja ela qual for, se apresenta, diante de nós, uma questão vaga e cientificamente não comprovada: o ato de fé. Afinal, o que é a fé? Se formos ao livro de Hebreus, na Bíblia, vamos achar a seguinte afirmativa: Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam. Logo a fé vem a ser aquilo que se coloca entre a dúvida e a certeza.
Não é certeza, na medida em que o fato ainda não se fez concreto e, ao mesmo tempo, não é dúvida porque, quando se tem fé, acredita-se que o que ainda não aconteceu, vai acontecer. A fé, portanto, é a prova interior da existência daquilo que não se vê. É a crença numa energia interna e, na maioria das vezes, divina na qual, o pensado impossível, possa tornar-se possível.
Como falou o Papa Francisco, as crenças religiosas são fonte de iluminação, sabedoria e solidariedade, que enriquecem as sociedades em que vivemos. Formar o crescimento espiritual das comunidades implica ensinar-lhes valores de bem, de respeito ao outro, de acatamento à diversidade, de paz. Assim se constitui a religiosidade e ela se torna o eixo sobre o qual as atitudes de humanidade vão-se edificar em cada indivíduo.
Comecei falando sobre fé e sobre a comemoração do dia de Nossa Senhora das Graças, no dia 27 de novembro. Esta comemoração, para os católicos, é de suma importância. Neste dia, no ano de 1830, por meio de Santa Catarina Labouré, humilde freira da Congregação das Filhas de Caridade e segundo seu relato, Nossa Senhora das Graças lhe apareceu em Paris, em meio a raios de luz. A Virgem teria surgido sobre um globo, pisando uma serpente e segurando, nas mãos, um globo menor, oferecendo-o a Deus, num gesto de súplica para o mundo. Em seguida, em torno da Nossa Senhora apareceu uma moldura ovalada, no alto da qual estava escrito: Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós, palavras com que devemos rezar ao nos dirigirmos à Virgem.
Crer ou não neste acontecimento é um ato de fé. Afinal, foi Cristo quem disse que caminhamos pela fé e não pela visão. No entanto, aceitar ou não a virgindade da mãe de Cristo é um dogma que o cristão segue ou não, de acordo com os princípios da religião que abraça.
Sem dúvida, aceitar tal diversidade faz parte dos preceitos religiosos e humanos de liberdade de credo. Mas todos os cristãos, com certeza, procuram seguir os ensinamentos do filho do Deus a quem se devotam. Um Deus único, uma mãe e um pai da Terra, dando à luz um Filho divino, que, sob os auspícios do Pai, veio ensinar igualdade, justiça, honestidade, humildade, fraternidade, respeito, dignidade humana.
O Papa Francisco assinalou, em seu discurso no Quênia, que num mundo cada vez mais interdependente, há a necessidade de compreensão inter-religiosa. Disse: Penso aqui na importância da nossa convicção comum, segundo a qual, o Deus a quem procuramos servir é um Deus de paz. O seu Nome Santo não deve jamais ser usado para justificar o ódio e a violência. E acrescentamos: tenha Ele o nome que tiver. Cremos que este é o caminho da fé, da paz e da irmandade entre os homens: a aceitação das diferenças, a união entre os povos, o respeito ao outro e à vida. E nós, católicos, continuamos louvando à Virgem, - Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós -, rezando por um mundo de paz.
A professora Marlene Salgado de Oliveira é mestre em Educação pela UFF, doutoranda em Educação pela UNED (Espanha) e membro de diversas organizações nacionais e internacionais.