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As sobras da República

relogio min de leitura | Redação 14 de novembro de 2015 - 18:38

Hoje, historicamente, é - ou deveria ser - uma data importante para o nosso país: dia da Proclamação da República, acontecida em 15 de novembro de 1889, na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império. O processo de instauração da República no Brasil foi precedido de várias crises institucionais pelas quais passou o reinado de Dom Pedro II, que mantinha uma forma de governo que não mais correspondia às mudanças sociais da época. Era preciso implantar-se uma nova forma de governo que fizesse o país progredir e avançar nas questões políticas, econômicas e sociais. Um dos desagrados pautou-se na interferência de D. Pedro II nos assuntos religiosos, causando descontentamento à Igreja Católica. Outro ponto crítico era o desagrado do Exército brasileiro, cujos integrantes não aprovavam a corrupção existente na corte, atitude que feria a ética e que os políticos brasileiros herdaram e a praticam até hoje.

Isto me faz lembrar o Mito da Caverna, contido no livro “A República”, de Platão, escrita cerca de 380 anos antes de Cristo e que traz reflexões sobre temas políticos e sociais nos diálogos regidos por Sócrates. Numa das partes de sua conversa, o filósofo demonstra a maneira pela qual se realiza nosso estado da instrução à ignorância. Diz ele: “Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoço acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles; pesadas correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construída um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas”. Esse era o mundo destes homens: contemplar uma réstia de luz que refletia sombras no fundo da parede. Certo dia, um dos habitantes resolve voltar-se para o lado de fora da caverna. Aos poucos vislumbra outro mundo com cores e imagens diferentes que via antes. Volta, então, à caverna para narrar sua maravilhosa experiência fora dela. Mas eles não acreditam no homem, revoltam-se e o matam: resultado da luta entre a luz da instrução e as trevas da ignorância.

É na caverna que se encontra o ambiente onde se instala a escravidão, a ingenuidade, a falta de senso crítico sobre o que se vê ou o que se ouve. As correntes são as responsáveis por colocar os moradores dela atrelados ao senso comum, frente a uma visão limitada da realidade, pensando ser verdade o que é falso. Assim, presos na caverna é que nos queria D. Pedro II e continuou querendo boa parte do políticos que promoveram a República e que a conclamam até hoje. Claro que se os habitantes da caverna recebessem a educação que os fizesse pensar, teriam desatadas as correntes e ávidos, seriam banhados o sol que ilumina a instrução, deixando a ignorância à sombra.

A Alegoria da Caverna, narrada por Platão, desde muito antes de Cristo, atravessou séculos e ecoa, até hoje, na verdadeira essência corrupta do poder e na pervertida realidade da política. Ainda diz ele em “A República”: “... que os sapateiros se tornem medíocres e se desacreditem, que se façam passar por aquilo que não são, nada acarreta de terrível para a cidade. Contudo, quando os guardiães das leis da cidade são guardiães apenas na aparência, vês que a arruínam de alto a baixo, enquanto, por outro lado, são os únicos a ter o poder de administrá-la bem e torná-la feliz. Só para relembrar, todas estas coisas foram pensadas há cerca de 24 mil anos!

A professora Marlene Salgado de Oliveira é mestre em Educação pela UFF, doutoranda em Educação pela UNED (Espanha) e membro de diversas organizações nacionais e internacionais.

recadodaprofessora@jornalsg.com.br

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