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A rotina nos domínios da dor

Comissão da Verdade de São Gonçalo colhe depoimentos de operários navais presos na ditadura

relogio min de leitura | Redação 23 de abril de 2015 - 16:44

Cliveraldo: Comissão impedirá esquecimento dos fatos

Foto: Sandro Nascimento

Por Elena Wesley

Ativa há quase um ano, a Comissão de Verdade de São Gonçalo segue em atividade, na expectativa de esclarecer crimes cometidos contra moradores ou no território gonçalense durante a ditadura militar. A próxima reunião do grupo deve ocorrer no dia 8 de maio a fim de definir novos depoimentos, os quais servirão de base para o relatório final, que deve ser concluído e publicado em novembro.

“É um processo de resgate de memória, para impedir que a história seja esquecida ou que se repita. Para isso, estamos organizando parcerias junto a turmas de Direito e História, além de visitas a escolas”, afirmou Cliveraldo Nunes, membro representante da Associação dos Aposentados e Pensionistas de Niterói e São Gonçalo.

O encontro referente ao mês de abril, realizado no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil do município (OAB-SG), recebeu duas figuras importantes da resistência gonçalense, conhecida devido à ação dos sindicatos. Os marinheiros José Guimarães e Ivan Duarte emocionaram a plateia ao relatar as arbitrariedades aos quais foram submetidos.

De acordo com os depoentes, muitos funcionários da Guarda Costeira e da empresa Lloyd Brasileiro sofreram represálias do regime, por conta da participação junto a partidos de oposição. Prisões e torturas se tornaram rotineiras para ambos e, mesmo perto dos 90 anos de idade, os operários navais ainda lembram das humilhações.

“A privação de água era muito comum. Em situações extremas, era comum que os presos umedecessem os dedos com água da descarga para aliviar os lábios ressecados de tanta sede”, contou José Guimarães. O ex-preso político contou ainda que até mesmo as necessidades fisiológicas eram fiscalizadas por guardas, porém identificou como pior tipo de tortura a simulação de fuzilamento. “É uma questão psicológica. Por diversas vezes pensei que aquela seria a última vez”, lembrou Guimarães.

Ivan e José passaram por diversos locais utilizados como prisão, inclusive a Polinter e a Ilha das Flores, ambas em Neves.

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