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Coronavírus: Ex-ministro de Saúde critica gestão no atual Ministério

No entanto, Temporão elogiou o trabalho realizado por Mandetta no início da crise

relogio min de leitura | Redação 18 de maio de 2020 - 22:50
José Gomes Temporão é médico sanitarista e foi ministro da Saúde entre os anos de 2007 e 2011 durante o governo Lula
José Gomes Temporão é médico sanitarista e foi ministro da Saúde entre os anos de 2007 e 2011 durante o governo Lula -

Por Rennan Rebello

O médico sanitarista luso-brasileiro e ex-Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, concedeu entrevista, ao vivo, no início da noite de hoje (18), na página oficial do vereador de Niterói, Leonardo Giordano (PCdoB), no Facebook. O ex-titular da pasta entre os anos de 2007 e 2011, durante o governo Lula (PT), respondeu as perguntas enviadas pela reportagem de O SÃO GONÇALO.

OSG - Ministro, o senhor poderia fazer uma análise da gestão de crise do coronavírus feita pelos ex-ministros Luiz Henrique Mandetta, do MDB, e demitido, em abril, pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e Nelson Teich (que pediu demissão na semana passada)?   

Temporão - O ministro Mandetta vinha fazendo um bom trabalho do ponto de vista, digamos assim, da visão, da estratégia e da abordagem. O Brasil começou o distanciamento no início da março e isso foi muito importante. Na verdade, a gente conseguiu sim, achatar a curva. Ou seja, reduzir a velocidade de disseminação do vírus. Só para dar um exemplo concreto para que as pessoas entenderem no início de março, a velocidade de disseminação do vírus era de cada pessoa contaminada transmitir a doença, em média para três outras pessoas. Hoje, a média Brasil é de 1.3 mas isso varia muito. Então, quando você reduz isso e se aproxima de 1,  mas o ideal é ser abaixo de 1, é ser negativo; você reduz a capacidade a velocidade de disseminação: menos gente contaminada, menos doentes e internações e o sistema de saúde consegue se segurar. Mas como garante esta redução? Com o distanciamento social acima de 60% e 70%. Hoje não estamos conseguindo isso, a gente tem 40% e 50%. O que o ministro (Mandetta) estava fazendo era a prática da boa ciência. E quando muda, e entra  o novo ministro (Teich), ele não conseguiu fazer nada; ele dizia que estava preparando uma nova proposta, diferente, mas não deu tempo, por que não deu tempo? Porque o presidente estava insistindo para que se adotasse a hidrocloriquina como panacéia e ele se recusou. Ele não disse isso mas  toda análise é feita indica que ele não se sentiu confortável como médico e ele respeita a ciência, imagino. 

OSG - O que o senhor pensa do ministro interino general Pazuello e da médica oncologista e imunologista Nise Yamaguchi que está cotada para assumir o cargo no Ministério da Saúde. Yamaguchi é defensora da cloroquina e crítica estudos contrários a esta medicação além de ser favorável do relaxamento do isolamento social. O que pensas sobre isso? E o que o senhora faria caso ainda estivesse no Ministério da Saúde? 

Temporão -  O Ministério está sendo conduzido por uma pessoa (Pazuello) que não entende nada de saúde, que não é da saúde e nunca trabalhou na saúde pública. Eu não tenho nenhum comentário a fazer, eu acho muito ruim. Nem na ditadura militar o Ministério teve tantos militares, que estão substituindo profissionais de carreira e este é um problema mais grave ainda. O Ministério está sendo ocupado por pessoas que não entendem absolutamente nada de saúde pública. Eu conheço a doutora Nise Yamaguchi e ela é uma médica muito respeitada, em São Paulo, e como médica tem uma abordagem de priorizar a humanização do atendimento que é muito interessante. Mas surpreendentemente, ela que é oncologista, se transformou em uma especialista em infectologista e está defendendo uma posição que não tem embasamento científico. Sobre o que faria, é difícil eu colocar um turbante e falar que estou vendo o futuro para saber o que iria acontecer. Mas eu diria que dois pré-requisitos são fundamentais para algo novo e interessante acontecer.  O novo ministro, seja quem for, deve chamar estados, municípios e a sociedade e propor um grande acordo, uma grande discussão para definir que rumo devemos tomar para enfrentar esta situação. Segundo, que chamasse a ciência, os cientistas, pesquisadores, infectologistas, epidemiologistas, sanitarista para ajudar o governo neste esforço. Fora deste contexto, não vejo como qualquer um que sente ali (na cadeira de ministro) possa ter algum sucesso.

Assista a entrevista completa com o ex-ministro no vídeo abaixo:

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