Artigo 353: Fitas, laços, sanfonas e babados
Na semana passada, falei aqui sobre as festas juninas como uma questão de fé,
pois o seu nascimento se deu para agradecer os antigos deuses pagãos pelas boas
colheitas e, historicamente, o homem, mantendo a festa até hoje, manteve a fé. Tendo
seus preceitos religiosos se transformado da crença de deuses pagãos ao cristianismo, o
povo continuou a homenagear “os deuses”, agora santos católicos. Sem dúvida, depois
do Carnaval, as festas de junho são as maiores representantes da cultura popular do
Brasil. Uma rápida olhada nos pátios, onde o povo se reúne, principalmente no nordeste,
para festejar São João, Santo Antônio e São Pedro, já nos dá a dimensão desta realidade.
Campina Grande, cidade do agreste da Paraíba, orgulha-se de ter a maior e
melhor festa de São João do mundo. Só para ter uma ideia, os festejos duram um mês
inteiro. No dia 12 de junho, véspera de Santo Antônio, acontece o tradicional
Casamento Coletivo, na Pirâmide do Parque do Povo. A Prefeitura custeia os trâmites
cartoriais, o aluguel do vestido de noiva, os buquês, o terno do noivo, a maquiagem, e o
penteado das noivas. Neste ano, o prefeito investiu pesado na festa! Montou o palco
principal em formato de 360º e acoplou a ele quatro passarelas que saem em direção ao
centro do público. A acessibilidade também teve a sua vez: rampas em todas as entradas
para as pessoas com deficiência e, no palco principal, um camarote exclusivo para
cadeirantes, foram pontos altos da organização. Que beleza! Quanta sensibilidade!
E o que dizer da locomotiva forrozeira, conhecida também como o "Trem do
Forró"! É um verdadeiro trem da alegria. Num conjunto de sete vagões sem os assentos,
os pares ficam livres para dançar à vontade. Cada composição da locomotiva abriga um
animado trio de forró pé-de- serra e os dançarinos têm a liberdade de transitar de um
vagão para o outro. Imagine que, a cada viagem, o "Trem do Forró" pode levar até mil
forrozeiros que dançam sem parar, enquanto o comboio, lentamente, vai dançando pelos
trilhos. A farra é tanta que cada trecho de ida e volta tem 20 quilômetros e o percurso é
feito em extensas duas horas e meia. A estrutura do trem é sensacional: tem venda de
bebidas, atendimento médico e até café da manhã.
Se de um lado, há a festança de Campina Grande na Paraíba, do outro está
Caruaru que tem a melhor festa de São João de Pernambuco. Nas duas, cantores, grupos
musicais, famosas quadrilhas, comidas típicas e arrasta-pé pela madrugada a dentro
fazem o tempero apimentado das festividades. É uma briga salutar e quem vence é a
animação, a vivacidade, o colorido da vida. A cultura local é prioridade, pois grande
parte dos artistas que se apresenta nos palcos, pertence à região. Outra atração
primorosa são as quadrilhas. Quadrilheiros de vários estados do Nordeste vêm para
estas cidades se apresentar e se esmeram nas coreografias. As sanfonas espalham sons
harmônicos pelo ar. As fantasias estilizadas, vaporosas e coloridas formam um visual
fantástico. Vastos babados, fitas, xadrezes e laços enfeitam as dançarinas. Os
cavalheiros, por sua vez, trazem, em suas vestimentas, resquícios da indumentária
elegante da corte, de onde veio a dança, combinando as cores com os trajes das damas.
Enquanto os grupos organizados se exibem, os jurados avaliam o figurino, a
entrada no arraial, a animação, o desempenho, o repertório, o marcador, o cenário, a
maquiagem e a saída da quadrilha. É um evento sem precedentes e os componentes do
grupo dão o sangue para serem campeões do ano! E quando tudo isto acontece ao som
da música de Luiz Gonzaga, com sua sanfona, zabumba e triângulo, aí então é que a
coisas ferve. Afinal, nas festas juninas, como diz o poeta, São João na terra é fogueira/
São João no céu é balão / Dança a quadrilha na poeira / Isso é que é São João / Toda a
alegria / Toda a energia / Toda a poesia no meu coração.