O amor está no ar.
Amanhã se comemora o dia de se respirar amor, pois o amor estará no ar: é Dia dos Namorados. No entanto, parece-me que dizer que o amor estará ou está no ar fere a questão do tempo. De verdade, o amor sempre esteve no ar. Desde o início da vida, somos amor. A História e a Literatura estão cheias de exemplos de amores avassaladores, impetuosos, serenos, esperançosos, religiosos e outros tantos. No livro “Paixões”, Rosa Monteiro escreve sobre casais famosos que atuaram, de certa forma, sobre a sociedade, graças às artimanhas de cupido.
Um deles foi a rainha Vitória e o príncipe Albert. Um casal real que mudou os costumes e a cultura de seu país e do exterior, no tempo em que a Inglaterra viveu a conservadora e desbravadora era vitoriana. Mas a prova de que Vitória não era nada conservadora foi o fato de ela ter pedido Albert em casamento, algo ousado para a época, mesmo sendo ela uma rainha. Albert, que também a amava, cedeu imediatamente ao pedido. A rainha era tão perdidamente apaixonada pelo marido que após sua morte - ela viveu por mais 40 anos - dormiu todas as noites com a foto do príncipe sobre o travesseiro. Uma união por amor na corte numa época em que os casamentos eram feitos por interesse político.
Nossa história também fala do grande amor do famoso casal Giuseppe Garibaldi e Anita. Giuseppe, perseguido na Itália por questões políticas, fugiu para o Brasil e juntou-se ao governo farroupilha no Rio Grande do Sul. Lá, encontrou Ana Maria, moça humilde, casada com um sapateiro. Ficaram tão apaixonados um pelo outro que ela largou o marido e fugiu com o romântico guerreiro Giuseppe. A partir daí, passou a lutar ao lado do amante, sendo suas batalhas travadas sempre em nome da liberdade e da justiça. É assim que Giuseppe Garibaldi fala dela em sua biografia: “Era a mãe de meus filhos, a companheira da minha vida nas boas e más horas, a mulher cuja coragem tantas vezes desejei que fosse minha”.
A Literatura, enquanto manifestação artística, é uma das formas mais belas de expressão da essência humana e sua escritura está impregnada de grandes amores. A primeira história que me vem à mente é a do sentimento que mobilizou o ódio dos deuses e dos humanos: o amor de Páris por Helena. Desafiando tudo e todos, o príncipe Páris, hóspede de honra no castelo do rei Menelau, apaixona-se por Helena, esposa do rei. Ele rapta a amada e foge com ela para seu castelo em Tróia. Esta ofensa acende a fúria do rei. Para se vingar e lavar sua honra, Menelau convoca a maior armada já vista para tirar Helena das mãos de Páris, provocando uma das guerras mais espantosas da história da Literatura: a Guerra de Tróia, causada por um amor intempestivo e avassalador.
Enquanto na Ilíada Homero fala da traição de Helena, na Odisseia ele narra a difícil e tumultuosa volta de Ulisses da guerra de Tróia - que durou 20 anos - e sobre um grande amor marcado pela fidelidade: o de Penélope, sua esposa. Como Ulisses estava ausente do reino por muitos anos, muitos guerreiros, julgando-o morto, queriam a mão de sua esposa para assumir o poder. Na longa ausência do marido, por lei, Penélope deveria escolher um dos pretendentes. Para se livrar da lei e do assédio dos homens, ela declarou estar tecendo um tapete. Prometeu, no entanto, que quando terminasse o trabalho escolheria um dos candidatos ao trono. Para continuar fiel a Ulisses até a sua volta, enfrentou por tempos infindáveis todas as animosidades e usou de um sábio subterfúgio: tecia o tapete durante o dia e à noite desmanchava quase tudo que fizera. Assim, manteve-se fiel a Ulisses até a sua volta.
Poderia dar mais de centenas de exemplos de grandes amores na História, na Literatura e na vida de cada um de nós. Mas, o que importa é saber que uma relação amorosa, para ser feliz, requer clareza, confiança e liberdade. Como diz o poeta Mário Quintana, amor é isso. Não prende, não aperta, não sufoca. Porque quando vira nó, já deixou de ser laço. Feliz Dia dos Namorados.