Sobre crianças e águias
Educar é uma tarefa realmente trabalhosa. Nada do que é preciso oferecer a uma criança, no sentido de ela ter autonomia e vir a ser uma pessoa capaz de enfrentar as possíveis dificuldades da vida, pode ser deixado para “amanhã”. O tempo que leva para se adquirir atitudes éticas que se internalizem no indivíduo e que o insiram no social parece que pode esperar, mas não pode.
Ajudar uma criança a constituir-se ética demanda um trabalho que se faz de grão em grão, num tempo longo, desde pequena, ensinando-lhe os mínimos gestos de delicadeza e honestidade, com exemplos diários. Afinal, como diz o pensador alemão Albert Schweitzer, dar exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros. É a única. E o fortalecimento da criança como pessoa independente, tendo experiências do que pode e do que não pode - e quando não pode, não pode mesmo, - aprendendo, principalmente, a noção de respeito, valor básico que se dissemina por todos os outros, só se faz através de vivências e alegrias e de frustrações.
Vida é construção. O mundo está aí, grande, imprevisto e imprevisível, mas aberto para se conquistar um espaço nele. No entanto, a conquista deste espaço só se faz com muito trabalho, com ética e honestidade e não aos trancos e barrancos. Viver bem é para os insistentes e ser insistente requer uma educação consistente, um aprendizado em longo prazo. Estamos vivendo uma época em que se tem a ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito ou de obrigação. Em que boa parte dos pais vive a angústia de ter que dar tudo que os filhos desejam para que sejam felizes, para protegê-los de frustrações. Para certos pais, frustrar os filhos significa fracassar.
Mas é possível uma vida sem frustrações? Se não querem que os filhos se frustrem porque são pequenos – frustrações do tamanho deles – como fortificá-los, para vivê-las quando crescerem? É imprescindível as crianças irem, ao longo do tempo, compreendendo dois pontos essenciais do processo educativo: a frustração e o esforço.
Parece que um bom caminho para se refletir sobre o assunto é olhar com mais atenção a natureza e tentar aprender com ela. Sabe como a águia ensina o filhote a voar? Quando uma águia vai ter filhotes, ela vai até o pico mais alto de uma montanha e constrói o seu ninho. A mãe águia monta o seu ninho com gravetos e depois o forra com penas e folhas para que as pontas dos gravetos não machuquem os filhotes. Quando eles nascem, a mãe águia traz, todos os dias, o alimento para que cresçam saudáveis. Enquanto os filhotes vão crescendo, a mãe, pouco a pouco, vai tirando todas as penas do ninho, deixando apenas os gravetos. Por que a mãe águia faz isto? Por pura maldade? Para que os pequenos pássaros se machuquem com os gravetos? Não. Ela faz isto para que aquele ninho não seja mais um lugar de conforto para eles. A mãe águia, então, empurra gentilmente seus filhotes para a beirada do ninho. Seu coração maternal se acelera com as emoções conflitantes: ao mesmo tempo em que ela sente a resistência dos filhotes aos seus persistentes cutucões, ela pensa: - “Por que a emoção de voar tem que começar com o medo de cair?”.
Mas, como manda a tradição da espécie, o ninho foi construído bem no alto de um pico rochoso, nas fendas protetoras de um dos lados da rocha. Apesar do medo, a águia sabia que aquele era o momento. Sua missão maternal estava prestes a se completar. Restava ainda uma tarefa final: o empurrão. A águia enche-se, então, da coragem que vem de sua sabedoria interior. Sabe que enquanto os filhotes não descobrirem suas asas, não haverá propósito para a sua vida. Sabe que enquanto eles não aprenderem a voar, não compreenderão o privilégio de nascer águia. Assim, o empurrão é o maior presente que ela pode oferecer a eles. É o seu supremo ato de amor. Então, empurrando um a um, ela os precipita para o abismo... e eles voam livres após descobrirem as asas.
Assim devem fazer aqueles que têm crianças para educar. Irem, aos poucos dando, aos pequenos, pequenos empurrões que os tirem da zona de conforto para ajudá-los a crescer. É impossível haver crescimento emocional sem frustração, assim como é impossível crescer bem, na vida, sem equilíbrio emocional. Que tal praticar o supremo ato de amor, oferecendo às crianças, a oportunidade de construírem suas próprias asas? Somente vivências, não só de felicidade, como de frustrações, transformarão as crianças em verdadeiras águias a alçar voo pelo mundo, conquistando nele, o seu espaço.