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A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS

relogio min de leitura | Redação 05 de junho de 2016 - 11:00

É noite. O fogo crepita na fogueira e, em volta dela, homens, mulheres e crianças estão sentados, ouvindo as narrativas que saem soltas, como se tivessem sido escritas com a pena da alma e resgatam, do baú da linguagem, palavras que riem, choram, gritam, sussurram, saltitam, espreguiçam-se, dormem, acordam: é a voz do contador de história que soa ao vento e repousa no coração dos ouvintes que, em silêncio, bebem o que conta o contador. As palavras, na voz do artista, têm cor, textura, cheiro, sabor, melodia.

Durante séculos, homens sentaram-se ao redor de fogueiras para contar e ouvir histórias. Nas antigas sociedades primitivas, a atividade de contar histórias não possuía uma finalidade somente artística. Tinha, também, a função de ensinar os conhecimentos acumulados pelas gerações passadas. Os que contavam histórias, conservavam e transmitiam as crenças, os mitos, os costumes e valores a serem preservados pela comunidade. Este tipo de atividade sustentou sem pergaminhos a cultura popular, fazendo isto tão somente pela memória viva. Ouvir histórias abre caminhos para se entrar em contato com o imenso mundo de conflitos, dificuldades e impasses que vêm estampados na vida dos personagens dos contos contados, muitas vezes, semelhantes aos dos ouvintes. É certo que o homem conta sua história todos os dias, desde que acorda até a hora de dormir. Somos contadores de história por excelência. Estamos sempre dizendo algo assim: - Sabe o que aconteceu ontem? Que bem pode ser lido como: “Era uma vez...”. E contamos com a linguagem que conhecemos, com o olhar que temos sobre as coisas. Os rumores das histórias são vozes alinhavadas a outras vozes - verdadeiros textos de vida. Por isso, ela funda o espírito de aventura, toma conta do ouvinte, mexe com suas emoções e se realiza como um convite à viagem.

A contação de histórias é um momento mágico que envolve a todos num instante de beleza e de fantasia. Quem conta e quem ouve criam, entre si, uma atmosfera de cumplicidade que os transporta à época dos antigos contadores ao redor da fogueira. Hoje, a plateia e os contadores não se reúnem mais em volta do fogo. O espaço propício para esta atividade coletiva são as escolas. Os professores é que devem apropriar-se desta arte e trabalhar no sentido de formar os leitores do futuro, exercitando, neles, a capacidade de ter múltiplas visões da realidade.

Isto me remete à historia de dois pedreiros que foram convocados para trabalhar numa mesma obra. O serviço era cortar pedras em blocos para a construção de uma grande catedral. Uma pessoa que ia passando pelo local, ao vê-los trabalhar, parou e perguntou o que estavam fazendo. O primeiro respondeu: - Estou cortando pedras em blocos. O segundo disse: - Estou construindo uma catedral. Os dois faziam o mesmo trabalho, no entanto, o olhar para o que faziam era distinto. Para um, o trabalho consistia apenas em assentar pedras, porque não via nada além do que acontecia no momento presente. Já o segundo sentia-se fazendo parte de uma grande obra, porque tinha a capacidade de imaginar, antecipadamente, a arquitetura completa e considerava que o seu trabalho era parte de algo muito maior do que apenas cortar pedras.

Isto é que acontece quando os professores apropriam-se da arte de contar histórias. Não só ajudam a formar os leitores do futuro, como desenvolvem nos alunos a capacidade de verem a realidade através de múltiplas lentes, lendo-a em diversas camadas de significado. Contar e ouvir histórias é isto: usar as pedras que ambos têm nas mãos para construir uma catedral.

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