Corpus Christi: Um fim de semana sagrado
Segundo Platão, filósofo da Grécia Antiga, quem elimina a religião, elimina a todo e qualquer fundamento da sociedade humana. Para ele, a ideia do Bem era sustentada pela religião e a ciência era uma forma de explicação de algo já existente. A religião é, portanto, o primeiro sentido de comunidade que surge graças à experiência comum com os outros, gerando as relações humanas de solidariedade, cuidado e paz.
Caso o sentido de comunidade seja destruído e com ele, a fé, a sociedade se fragiliza como um castelo de areia, sem a possibilidade de se defender do mar implacável. Embora a religião tenha sido, durante os últimos anos, palco de descrença, chamada inclusive de ópio das massas, sob esta teia aparente subjaz com energia algo bem mais importante: a espiritualidade do homem. A relação do ser humano com o inefável e sua convicção em poderes que lhe são transcendentes é o sinal da crença de que há algo maior do que ele próprio, que ele respeita e reverencia. Neste final de semana, vivemos o Corpus Christi. Este marco sagrado é a celebração do Santíssimo Sacramento da Eucaristia, fonte e centro de toda a vida cristã, momento em que o próprio Cristo se faz presente como alimento e remédio de nossa alma. Na Idade Média, era costume celebrar a missa com as costas voltadas para o povo. Isto criou certo mistério em torno da Ceia Eucarística. Todos queriam saber o que acontecia no altar, entre o padre e a hóstia. Para evitar interpretações de ordem sobrenatural da liturgia, a Igreja passou a elevar as partículas consagradas de frente para os fiéis, de forma que eles a pudessem olhar.
Mas foram as visões da priora da Abadia de Cornillon, Santa Juliana, que deram início à valorização da exposição do Santíssimo Sacramento e, em consequência, à Festa de Corpus Christi. Nas visões da freira, o próprio Cristo lhe pedia a festa. Ela via um disco lunar com uma grande mancha negra no centro. A lacuna foi entendida como a ausência de uma celebração do sacramento da Eucaristia.
Esta festividade, acarinhada com a confecção de tapetes de rua, admirável manifestação de arte popular, foi trazida para cá pelos portugueses da Ilha dos Açores. Simbolicamente, o tapete constitui um espaço mágico, cujas bordas representam os elementos terrestres que se erguem em defesa do campo, habitado pela esfera do universo divino.
No Brasil, a tradição de se fazer os tapetes de ruas acontece em inúmeras cidades, inclusive na nossa São Gonçalo, cuja festa teve início em 1995 e hoje, os tapetes de Corpus Christi, por sua beleza e esplendor, foram elevados à categoria de patrimônio cultural imaterial do município.
Com cerca de dois mil metros de extensão, é com orgulho que o gonçalense confecciona o maior tapete artístico de sal com motivos sacros de toda a América Latina. Essas obras de arte, feitas de serragem, borra de café, farinha, casca de ovos, areia, folhas, flores, entre outros materiais, é uma expressão de afago do povo com a Santíssima Eucaristia.
O ostensório, que guarda o Corpo de Cristo na hóstia, é levado pelo sacerdote em procissão sobre os tapetes, seguido pelos fiéis. É uma representação de que Jesus anda por ali e é recebido com carinho pelos caminhos da cidade. É o único dia em que o Santíssimo Sacramento sai às ruas.
É pela Eucaristia e, especialmente pelo Pão, alimento que fortifica a alma, que tomamos parte da vida divina, unindo-nos a Jesus e, por Ele, ao Pai, no amor do Espírito Santo. Todo este sentimento e esta prática se sustentam num ato de fé, na convicção da existência de fatos que não podemos ver. A fé verdadeira, portanto, é fundamentada na confiança em Deus, em Sua palavra e em Sua transubstanciação no ato da consagração. Isto é Corpus Christi.