O Monteiro Lobato dos grandes e dos pequenos
Na semana passada, refleti aqui sobre a necessidade de se ter uma quantidade muito maior de livros em braille para crianças cegas, a fim de que elas tivessem a oportunidade de vivenciar a beleza e o prazer da leitura em si. Falei sobre a importância da relação que se estabelece entre o leitor e o texto literário, cuja linguagem por ser arte vai articulando, dentro daquele que lê, um mundo de sensações inusitadas. O ato de ler acontece pela imersão do sujeito, seja ele criança ou não, numa relação intersubjetiva, amorosa e apaixonada com o texto. Ao mascarar a realidade, o escritor criativo, ao mesmo tempo em que a faz distante, por trazer à tona de seu discurso fatos não comprováveis, aproxima-a do leitor e cola-se nele, exatamente por sua característica especial: a fantasia.
Hoje, quero retomar o assunto para exaltar o notável escritor que, para além do legado literário que nos deixou, lutou pelo nosso chão, pela nossa independência em determinados aspectos sociais, culturais e econômicos. Falo daquele que foi o precursor da literatura infantil no Brasil: Monteiro Lobato. Mas não foi somente às crianças que Lobato emprestou sua voz e suas convicções. No livro “Escândalo do Petróleo”, dentre outros, mostra todo seu nacionalismo, posicionando-se totalmente favorável à exploração do petróleo apenas por empresas brasileiras. Em “Urupês”, o escritor dá vida à famosa personagem representada pelo caboclo brasileiro, o Jeca Tatu, um caboclo nada idealizado, simbolizando toda a miséria e atraso econômico do país e o descaso do governo em relação ao Brasil rural. Sem nenhum tipo de educação e cultura, seu Jeca Tatu se mostra ingênuo e repleto de crendices. É visto pelas pessoas como alcoólatra e preguiçoso. No entanto, como esclarece Lobato, “Jeca Tatu não é assim, ele está assim.”, pois ele é vítima do descaso do governo. Parece que esta relação governo/povo é histórica e crônica aqui neste nosso rincão. “Urupês” trouxe para nosso país uma série de inovações cuja importância atinge os tempos atuais. Traz em seus textos, a riqueza da fala brasileira da zona rural, com seus coloquialismos orais, o que era inconcebível à boa literatura da época.
Outra façanha deste homem excepcional foi a sua influência na indústria e no mercado cultural no Brasil. Até a Primeira Guerra Mundial, grande parte dos livros brasileiros era impresso na Europa, principalmente na França. Monteiro Lobato mudou isto ao imprimir, por conta própria, o livro “Urupês” nas oficinas do jornal Estado de São Paulo. Em 1918, o escritor passou a publicar, além de suas obras, livros de diversos outros autores, na sua Revista do Brasil. Depois, a editora Revista do Brasil passaria a se chamar Cia Gráfico-Editora Monteiro Lobato. O colapso desta a faz ressurgir como Companhia Editora Nacional que é, atualmente, a maior do Brasil e uma das maiores da América Latina. Diante disto, pode-se dizer que Monteiro Lobato lançou a indústria nacional do livro através da publicação de “Urupês”. Depois de algumas obras dedicadas aos adultos, voltou-se ao público infantil de uma forma original e inovadora. Entregou-se a este público com paixão. Diz ele textualmente: “Assim como é cedo que se torce o pepino, também é trabalhando a criança que se consegue uma boa safra de adultos”; “A mim me salvaram as crianças. De tanto escrever para elas, simplifiquei-me.”; e “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar.”
Amanhã, 18 de abril, dia do nascimento de Monteiro Lobato, se comemora o Dia Nacional do Livro Infantil, data escolhida para fazer uma justa homenagem a este notável escritor que, como poucos, dedicou-se à literatura infantil no Brasil, numa época em que criança praticamente não tinha voz nem vez.