Pré-candidato ao Senado, Molon diz que prioridade é derrotar bolsonarismo
"Não acredito que quem seja contra Bolsonaro vá votar para reeleger Romário senador", afirmou Molon ao OSG

Eleito como terceiro deputado federal mais votado do Rio de Janeiro em 2018, Alessandro Molon (PSB) esteve em São Gonçalo, cidade onde obteve mais de 9 mil votos, para cumprir agenda e divulgar sua pré-candidatura ao Senado, e se reuniu com lideranças políticas, sociais e religiosas no Palácio do Comércio, na Associação Comercial de São Gonçalo, no Centro.
Líder da oposição ao governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) na Câmara dos Deputados, Molon é um dos parlamentares que possuem protagonismo na casa. Em 2020, esteve na lista dos 20 melhores deputados da Câmara do Prêmio Congresso em Foco, que reúne júri especializado e voto popular. Além disso, no mesmo ano, foi considerado o melhor na categoria “Clima e Sustentabilidade”. Já em 2021, Molon também foi premiado pelo Congresso Em Foco como segundo melhor deputado da Câmara e o melhor na categoria “Defesa da Educação”.
Em entrevista exclusiva ao jornal O SÃO GONÇALO, o deputado e pré-candidato ao Senado pelo PSB falou sobre sua atuação no Congresso Nacional, os desafios da eleição de 2022 e as alianças políticas que estão sendo costuradas.
O SÃO GONÇALO - Como o senhor avalia o trabalho desenvolvido como líder da oposição ao governo Bolsonaro nos últimos anos?
Alessandro Molon - Acho que foi um trabalho muito importante de resistência aos retrocessos promovidos pelo governo Bolsonaro no que diz respeito ao direito dos trabalhadores. É um governo que retirou direitos, aumentou o desemprego, impediu o crescimento do país e dificultou o acesso à vacina. Foram muitos os ataques, sobretudo no campo social. São Gonçalo, assim como várias outras cidades, sente o reflexo dessa informalidade e da falta de oportunidades. Na Câmara, muitas vezes conseguimos impedir retrocessos, mas em outros casos conseguimos pelo menos reduzir os danos. Isso ocorre porque hoje, infelizmente, não somos maioria na oposição.
OSG - Em seus pronunciamentos, o senhor tem destacado que um dos seus objetivos para 2022 é continuar combatendo o bolsonarismo. Em 2018, o presidente Bolsonaro teve maioria dos votos em São Gonçalo nos dois turnos. Em 2020, o candidato apoiado por ele no segundo turno para a prefeitura, Capitão Nelson (PL) foi eleito. Esses cenários, principalmente o último, demonstram que o presidente ainda tem uma força política na cidade. Na sua visão, como é possível furar essa bolha?
Molon - Acho que os gonçalenses já se deram conta da gravidade da situação que Bolsonaro promoveu no país. Aquele apoio maciço que ele tinha na cidade e no estado do Rio, em 2018 e em 2020 [através da eleição para prefeito], não se repetirá na eleição de 2022. Acredito que os brasileiros sentem falta do respeito aos seus direitos trabalhistas, à oportunidade de emprego, a uma vida digna e ao alimento na mesa. Hoje, está muito caro se alimentar. A carne sumiu da mesa dos brasileiros, os ovos ficaram caros e até o arroz e feijão estão difíceis de comprar. Na eleição deste ano, o que estará em jogo é se a gente quer continuar no mapa da fome ou se queremos tirar o Brasil do mapa da fome. [A eleição] é sobre se o salário mínimo vai voltar a crescer acima da inflação ou se será insuficiente para comprar comida. É esse o debate que faremos. Tenho certeza que os gonçalenses, assim como o restante dos brasileiros, querem manifestar o seu desejo de mudar o rumo do Brasil.
Antes mesmo de ser feita a próxima pergunta, Molon indicou o que provavelmente será a tônica de sua campanha: o interesse em polarizar a disputa pela vaga ao Senado com Romário (PL), atual senador do Rio de Janeiro, que disputará a reeleição. Em outras ocasiões, o ex-jogador da seleção, eleito em 2014 pela Rede, já declarou apoio à reeleição do presidente Jair Bolsonaro.
“O candidato à reeleição do Senado, Romário, é bolsonarista. Eu não acredito que quem seja contra Bolsonaro irá votar em Romário. Hoje, os três senadores do Rio de Janeiro são do partido do presidente da República! Acredito que o Rio de Janeiro vai querer mudar a sua representação no Senado. O nosso estado já se orgulhou da sua bancada quando teve Darcy Ribeiro, Arthur da Távola e outros grandes senadores. Temos todas as condições de vencer a disputa contra Romário e fazer o Rio de Janeiro voltar a se orgulhar da sua representação no Senado", disse.
Em seguida, Molon fez críticas à atuação de Romário no Senado e disse que considera o mandato do adversário “extremamente apagado”.
“Eu fico me perguntando se alguém do Rio de Janeiro se lembra de alguma coisa que Romário tenha feito como senador. Eu, sinceramente, faço um grande esforço e não consigo me lembrar. Foi um mandato extremamente apagado, que não realizou nada para o Rio de Janeiro. Está na hora de mudar isso", comentou.
OSG - O seu partido, o PSB, tem negociado o apoio do ex-presidente Lula, do PT, à pré-candidatura de Marcelo Freixo ao governo do Rio. Caso essa aliança aconteça, corre nos bastidores que a vaga ao Senado ficaria para um petista, neste caso, André Ceciliano, presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alej). Como ficaria a sua pré-candidatura caso esse cenário se concretize?
Molon - O PSB aprovou em seu congresso duas pré-candidaturas a cargos majoritários: a do deputado Marcelo Freixo ao governo do estado e a minha para o Senado. Como presidente estadual do partido, estou incubido de procurar os partidos, apresentando nossas pré-candidaturas e procurando apoio para elas. Não há nenhuma decisão tomada no sentido de divisão da nossa pré-candidatura ao Senado. Isso não foi negociado e nós vamos apresentar e lutar para que os partidos democráticos entendam que precisamos ganhar essa vaga no Senado para o campo democrático. É preciso derrotar Bolsonaro e Romário, que estão juntos. Essa não é uma disputa fácil e por isso é preciso apostar na candidatura mais viável. Modestamente, acredito que a minha pré-candidatura está mais bem posicionada nas pesquisas para alcançar esse objetivo.
OSG - O secretário de Fazenda do Rio, Pedro Paulo, que é braço direito do prefeito Eduardo Paes (PSD), disse que o PSD “estenderia um tapete vermelho” para recebê-lo no partido e apoiar sua candidatura ao Senado. Considerando o cenário da pergunta anterior, caso uma possível chapa entre PT e PSB opte por um candidatura petista ao Senado, há alguma possibilidade de você trocar de partido para manter sua pré-candidatura?
Molon - Eu fiquei honrado com as palavras do prefeito Eduardo Paes, que publicamente demonstrou simpatia pela minha candidatura, assim como pelas palavras do secretário Pedro Paulo. Isso demonstra capacidade de ampliação da nossa candidatura, que ultrapassa o campo que está no meu partido e consegue agregar apoios ao centro do espectro político. Mas, na conversa que tive com o prefeito Eduardo Paes, em momento nenhum isso foi cogitado [a troca de partido para o PSD]. Eu sou pré-candidato ao senado pelo PSB e defendo, quero e estou determinado a ser candidato pelo meu partido. É pelo PSB que serei candidato ao Senado. Não cogito trocar de partido.
OSG - Também na última semana, o prefeito Eduardo Paes costurou um acordo entre o pré-candidato a governador do PSD, Felipe Santa Cruz, e o pré-candidato a governador do PDT, Rodrigo Neves. As duas siglas têm nomes de relevância tanto no cenário estadual quanto nacional. Paes tem buscado também apoio do ex-presidente Lula para uma possível aliança no Rio. Por outro lado, o pré-candidato do seu partido, Marcelo Freixo, tem recebido críticas. Rodrigo Neves apontou em recente entrevista que Freixo tem uma dificuldade de formar alianças. Como você vê a movimentação dos adversários e o isolamento de Freixo na formação de apoios?
Molon - Esses debates pré-eleitorais são naturais. É natural que cada pré-candidatura apresente as suas forças e questione a viabilidade das outras. Essas conversas estão em curso e tem muita água pra passar por baixo dessa ponte. Tenho certeza que ainda haverá muito diálogo dentro do campo democrático com o intuito de cumprir a mais ampla aliança para derrotar o bolsonarismo. Tenho esperança de que até julho, mês das convenções, tenhamos uma ampla aliança com capacidade política para ajudar o Rio de Janeiro avançar. Não acho que exista isolamento porque as conversas estão em curso, os partidos estão conversando.
OSG - O estado do Rio tem enfrentado problemas graves na área de segurança pública nos últimos anos com o fortalecimento do tráfico de drogas e o crescimento da milícia. Na sua visão, como um senador poderia atuar para apoiar o combate à criminalidade?
Molon - O que já se mostrou que funciona no Brasil são duas coisas combinadas: prevenção focalizada e repressão qualificada. Prevenção focalizada significa saber onde está o adolescente que está sendo seduzido para entrar no mundo do crime. A partir disso, oferecer projetos sociais, oportunidades de emprego e renda, acesso à cultura, esporte, arte e lazer, para disputar o futuro desses jovens, evitando que eles entrem para o caminho que às vezes pode ser sem volta. Repressão qualificada é a polícia investigativa, que trabalha com dados, e não a polícia que simplesmente entra na comunidade sem investigação, troca tiros com criminosos, tira a vida de inocentes no caminho e não prende os criminosos que deveria prender. Essa estratégia já se mostrou inútil. O que funciona é repressão qualificada, com polícia investigativa e cirúrgica, atuando justamente para desbaratar quadrilhas. No senado, é possível angariar recursos e trazer projetos de emprego e renda, cultura, esporte e lazer para os jovens. É nisso que acredito e é o que já funcionou em outros estados do Brasil.
*Estagiário sob supervisão de Thiago Soares