Sessão na Câmara Municipal de Niterói termina com ofensas e discussões entre Benny Brioly (PSOL) e Douglas Gomes (PTC)

Benny e Douglas falaram com o OSG

Escrito por Ana Carolina Moraes 18/11/2021 10:07, atualizado em 18/11/2021 10:59
O caso ocorreu na última quarta-feira (17)
O caso ocorreu na última quarta-feira (17) . Foto: Divulgação

Terminou em tumulto, a sessão da Câmara de Vereadores de Niterói desta quarta-feira (17), durante votação do projeto de lei da vereadora Benny Brioly (PSOL), que propõe cota de 2% para pessoas transexuais em concursos públicos. Mesmo com a votação agendada para ontem, o processo não ocorreu conforme o esperado. Ao invés do debate amigável e da votação, o que se viu foi quebra de decoro e ofensas, com direito até a voz de prisão. 

O vereador Douglas Gomes (PTC) se mostrou contra o projeto apresentado por Benny. O PL em questão também é assinado e defendido por outros vereadores, como Walkiria Nictheroy (PC do B), Verônica Lima (PT), o Professor Túlio (PSOL) e Paulo Eduardo Gomes (PSOL). Discordando da justificativa para o projeto, Douglas afirmou, em suas falas, que era mentira que o Brasil é o país que mais mata travestis no mundo. 

No início da discussão, Benny apresentava o projeto e falava seus argumentos para que ele fosse aprovado. Ela afirmou que representava as travestis pretas na Casa e fez menção às inúmeras mortes que travestis contabilizam todos os anos. Durante a fala da vereadora, foi possível ouvir diversos gritos de apoiadores dela como "uh uh é travesti", mostrando como a vereadora é um símbolo para essas pessoas, e, ao mesmo tempo, foi possível ouvir vaias e palavras como "mentira" diante das coisas que ela falava, o que não desmotivou Benny, que se mostrou bem decidida com o seu PL. 

Em um determinado momento, Benny falou que foi eleita para enfrentar o fascismo e o bolsonarismo. Ela ainda afirmou que foi a mulher mais votada de Niterói e cutucou: "é pra dizer que eu não tive pouquíssimos e contados votos de coeficiente como teve fascista que tá aqui nessa casa". Logo depois, Douglas a interrompe e indagou: "Quem é o fascista que ela tá falando? Tem coragem de falar quem é o fascista?”. Logo, Benny rebateu: “Fique quieto que eu estou falando”. 

Foi a partir daí que as pessoas da galeria que estavam na Casa começaram a se exaltar e defender os vereadores que apoiam. Douglas, então, tomou a palavra e ouviu alguém o chamando de fascista e afirmou que daria voz de prisão para aquela pessoa, caso ela continuasse as ofensas. "Primeiramente, eu vi uma faixa ali 'Fora Bolsonaro' e gostaria de saudar o presidente Jair Messias Bolsonaro. Antes de mais nada presidente (se referindo ao presidente da casa)... Eu fui chamado de fascista de merd*? Fui chamado de fascista de merd*? Repete isso que eu te dou voz de prisão agora. Está me chamando de fascista? Isso é injúria! Isso é injúria!... Artigo 140 do Código Penal... Não podemos admitir que um vereador seja desrespeitado nessa casa, nenhum", disse ele. 

Logo depois, ele começou a descredibilizar o Projeto de Lei de Benny e foi contra os argumentos dela para tal. Ele ainda falou sobre o Projeto de Lei que ele já apresentou na Casa proibindo a criação de banheiros para "todxs na cidade", como dito pelo próprio, se referindo a banheiros Unissex, para homens e mulheres. Ao final da sessão, os ânimos ficarão tão exaltados, que a votação foi adiada para esta quinta-feira (18). 

Sobre o episódio, Douglas Gomes falou para o OSG como se sentiu. "Fui informado que a assessoria da Benny está espalhando mentiras, alegando que a chamei de viadi***", "pira***" e "tra****". Mais uma vez, que a vereadora é mitomaníaca. As sessões são gravadas. Não é a primeira vez que isso acontece. No vídeo, mostra de forma clara, a vereadora me chamando de fascista de merda (se refere ele ao vídeo da Câmara em um determinado momento da discussão entre os dois). O desentendimento foi que fui chamado de fascista de merda por um travesti (que estava na galeria) que acompanhava a sessão. Após eu dar voz de prisão ao agressor, os assessores da vereadora retiraram o mesmo do plenário. E logo após o fato, Benny repete o ataque. Faremos uma denúncia junto ao Conselho de Ética da casa para que as medidas cabíveis sejam tomadas", afirmou ele.

Além disso, Douglas se mostrou contra o PL defendida pela vereadora. "Sobre o PL, ele é totalmente incoerente. O art.3, cita que basta se autodeclarar que poderá receber o benefício de participar dessa reserva de 2%. A autodeclaração, seja qual for o projeto, é um risco. E finalizado dizendo que todos somos iguais perante a lei", afirmou ele. 

Benny também conversou com O SÃO GONÇALO e desmentiu alegações feitas por Douglas Gomes. "Existem lógicas no campo amplo democrático de se dialogar. A gente sabe muito bem que a radicalidade do parlamentar (no caso, Douglas) não permite esse dialógo, principalmente se falando dele. Em nenhum momento, eu disse que essas palavras "viadi***", "pira***" e "tra****" foram proferidas pela boca do Douglas, mas sim por seu setor e essa declaração dele mostra mais uma vez o quanto que a marginalização do corpo da travesti está enraizada sobre as questões e pensamentos dele. O Brasil é o país que mais assassina e mata travestis e transexuais no mundo, no último período, segundo dados novos da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), 40% dos homicídios cometidos no mundo sobre pessoas trans aconteceram no Brasil. E é óbvio que temos autonomia para falar que vivemos um governo fascista, aonde os fascistas espalhados em seus territórios, que estão ocupando esses espaços, como o próprio Douglas, incentivando de fato a LGBTfobia, a transfobia, o racismo. Se você pegar a fala dele no plenário você vê que ele cita o ódio contra a população T (trans e travesti) e isso é muito grave, isso precisa ser combatido, pois quando ele fala isso, ele está colaborando contra o genocídio da população trans. E ele precisa ter responsabilidade, entender que o parlamento é uma ferramenta para a construção da democracia, já que a gente vive a Constituição Brasileira, a jovem democracia brasileira e ele não tem aval, se quer, para cometer tais crimes", disse Benny. 

A vereadora também falou sobre a questão da discussão que ocorrem ontem (17) na Câmara. "Queria ressaltar que houve problemas internos que levaram a votação a acontecer hoje. A gente já tinha uma mobilização e isso traz um desgaste, um cansaço, mas nada que a gente não revertesse com a nossa ampla base para jogar para hoje (18). O primordial nisso nem é a votação ter sido adiada, mas o primordial nisso é um alarde muito grande provocado pelo setor bolsonarista. As agressões, os xingamentos, a hostilização, a falta de respeito, o rompimento da democracia fizeram com que o plenário ontem se tornasse um show de horrores. Eu, uma parlamentar eleita, a mulher mais votada da cidade, ter que ouvir eleitores bolsonaristas me chamando de viadi***, de tra**** e de outros xingamentos é grave, é criminoso e ruim. Ainda estamos pensando em quais medidas tomar sobre isso, mas claro que medidas serão tomadas, principalmente sobre as falas do parlamentar (o Douglas) no plenário de ontem, que são falas criminosas, pois transfobia é crime. Graças à nossa luta e aos movimentos sociais, temos como recorrer à Justiça hoje para que isso seja respaldado e cobrado. Lembrando que imunidade parlamentar não é autorização para que sejam usados do parlamento para crimes. É sobre isso, estamos na luta, nos ancorando coletivamente para vencer as desigualdades e para que seja justa e tenha eficácia a nossa cidadania", finalizou a vereadora. 

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