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Hospital Colônia ‘agoniza’ em meio a crise e falta de apoio

relogio min de leitura | Redação 03 de novembro de 2016 - 10:14
A situação na unidade é de abandono, segundo pacientes
A situação na unidade é de abandono, segundo pacientes -

Há 61 anos, o diagnóstico de hanseníase – doença conhecida popularmente como lepra – foi recebido como uma sentença. O menino Alvinho Gonçalves, hoje com 76 anos, era um adolescente de 15 anos quando soube que seria internado em uma colônia fechada, em Itaboraí. Do Hospital Estadual Tavares de Macedo, ele não poderia sair para nada, por causa da política de internação compulsória daquela época.

“Nós éramos cinco, em Cantagalo (município da região serrana), meu irmão já tinha tido os caroços [da doença]. Aí, depois de um tempo, apareceu em mim. Ele foi até lá e me buscou. Os vizinhos já queriam colocar fogo na casa com o pessoal dentro”, lamentou. Por 40 anos, a internação de pacientes com hanseníase era compulsória, para evitar o contágio e foi feita em colônias que cresceram em torno dos hospitais de referência – dos quais ainda restam 33 pelo país. Desde a década de 1980 com tratamento feito em casa, a doença não é transmissível. Em 2007, o governo brasileiro estipulou uma indenização a ser paga a pessoas que passaram pelo confinamento. Quase 12,5 mil pessoas entraram com o pedido e cerca de 9 mil foram atendidas.

As colônias de pacientes cresceram, cercadas por muros de onde ninguém pode sair para nada. Com o tempo, se tornaram verdadeiras cidades dentro das cidades, com vilas de casas, comércio, templos religiosos, quadras de esporte, cemitério e até cadeia com “policiais” da comunidade. Sem ter para onde voltar, mesmo com o fim da internação ex-internos se estabeleceram no local. Hoje, a antiga colônia do Tavares de Macedo tornou-se um bairro onde vivem 9 mil pessoas em 950 mil metros quadrados, sendo 160 ex-internos, em casas de vilas, pavilhões e alguns na enfermaria – caso dos que sofreram amputações por tratamentos equivocados do passado. No entanto, apesar de o Tavares de Macedo – hoje um hospital-geral – ser referência na doença, a situação da unidade é de abandono, segundo os ex-internos, pacientes e funcionários.

Interno usa aposentadoria para fazer ‘estoque’ em casa e trocar curativos

“Está cada vez pior. Antes tinha curativo – gaze, atadura, esparadrapo – [no hospital] e agora não tem mais nada”, contou Alvinho Gonçalves, que acabou montando um pequeno estoque, em casa, com a aposentadoria, para trocar os curativos diariamente. “Até para marcar uma consulta está difícil”, diz ele, que acaba recorrendo aos vizinhos em casos de emergência. No ambulatório e no prédio central do hospital, a farmácia e a sala de curativos estão vazias. Faltam desde fraldas geriátricas a medicamentos para a própria hanseníase, como a talidomida* e óleo mineral para a pele, que fica ressecada. Também faltam remédios para doenças crônicas, como diabetes, comum nos idosos. Biópsias não são feitas há dois meses por falta de contrato com laboratórios. “Aqui é assim: gente vai com a receita e volta sem remédio, porque não tem mais”, contou Neidmar Costa da Silva, de 60, ex-interna, paciente e moradora da época da ex-colônia.

Assaltos também preocupam - Além da falta de insumos, o próprio atendimento está prejudicado com cortes na equipe. Atendentes para marcar consultas e para o serviço administrativo, terceirizadas, estão há um mês sem salários, trabalhando como voluntárias, para não prejudicar os idosos ex-internos. “A gente sabe que, além da dificuldade para conseguir atendimento na rede pública, só tem hospital em outro município, e um paciente desse [ex-interno] quando é atendido fora daqui, ainda pode sofrer com o preconceito, esses idosos têm sequelas (úlceras, amputações, dedos tortos)”, explicou uma das funcionárias, sob a condição do anonimato. Com a crise no hospital, as doações que chegam não têm sido suficientes. “Tem gente aqui que precisa fazer curativo até o joelho. Faz três vezes ao dia”, disse a gestora, Sônia Regina de Freitas, de 49 anos.

Sobra dedicação e faltam recursos

Segundo os pacientes e funcionários, apesar da dedicação dos médicos e servidores, o Tavares de Macedo sofre com a falta de recursos. O dinheiro, que já era insuficiente, ficou reduzido com a crise financeira, relacionada à queda dos preços do petróleo no Rio. O problema também está relacionado à sobrecarga no atendimento em Itaboraí. O município, que também passa por uma crise, fechou o principal hospital S cidade, o João Batista Cáffaro, por falta de dinheiro para pagar os médicos.

O vice-coordenador do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), Artur Custódio afirma que a situação do Tavares de Macedo é de abandono e denuncia o que chama de “jogo de empurra”. “O governo do Rio tenta repassar ao município atribuições que devem ser compartilhadas. Em nota, a Secretaria de Saúde respondeu que o Tavares de Macedo “vem reunindo todos os esforços para garantir a assistência aos pacientes”, e que não há “desassistência”. 

Reportagem: Agência Brasil

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