‘Masterchefs’ de plantão
Impulsionados pelos programas de TV, niteroienses e gonçalenses se ‘aventuram’ na cozinha

Marcela saiu do hobby e está construindo uma carreira de ‘personal cooking’. Christian inventa pratos para agradar família e amigos
Foto: Julio DinizPor Cyntia Fonseca
“Bem-vindos à cozinha ‘Masterchef’”, diz a apresentadora do talent show que vem alcançando altos índices de audiência na televisão brasileira a cada edição. A moda dos programas de culinária, adaptados de versões internacionais, tem trazido não somente novos desafios para os participantes, mas também influenciado os telespectadores “chefs de plantão”.
Publicitário há 20 anos e professor universitário, Christian Bernard, de 41 anos, vê no ato de cozinhar uma paixão. Adaptar receitas, inventar pratos, testar sabores. A vontade de aperfeiçoar as habilidades na cozinha foi tanta que ele resolveu fazer, há dois anos, um curso expresso no Instituto Gastronômico das Américas (IGA), em Niterói.
“Sempre gostei de comer bem, comer sempre foi uma paixão. Volta e meia fazia um prato ou outro em casa. Os amigos gostavam e pediam, então resolvi fazer esse cursinho que me ajuda hoje a cozinhar melhor”, contou Christian, enquanto preparava um saboroso “rolo de filé mignon”.
Dividido entre o trabalho na agência publicitária em Niterói e as aulas numa faculdade no Rio, Christian encara a gastronomia como uma terapia, um momento de relaxar em meio à rotina estressante.
“Tem dias que chego em casa dez ou onze da noite (sic) e vou pra cozinha. Quando termino, às vezes chamo minha filha Rafaela pra experimentar, porque eu sei que ela embarca nas minhas ‘loucuras’. Considero ela como minha fã número 1”, revela o publicitário, pai de duas meninas, de 14 e 4 anos, e morador de Niterói.
Entre os pratos mais inusitados, ele cita o “arroz com morango”.”Eu tinha feito alguma sobremesa com morango pra minha filha menor e ela não gostou. Daí fiquei com pena de jogar aquilo fora e resolvi reaproveitar. Misturei arroz, acrescentei melancia e um filé de peixe na manteiga de alecrim. Ficou uma delícia”, completou Christian, que também cultiva sua própria horta de temperos em casa.
A niteroiense Marcela Quaresma, 33, igualmente apaixonada por gastronomia, resolveu fazer do hobby uma carreira. Após trabalhar no ramo de Turismo e Hotelaria por mais de 10 anos, ela se viu cansada da instabilidade das muitas viagens nacionais e internacionais a trabalho.
“Sentia que faltava alguma coisa. Me perguntei: o que estou fazendo pra mim e pro próximo?”, contou.
Depois de várias pesquisas e projetos com pequenas empresas e muitos testes com as mais variadas combinações de alimentos, há sete meses ela se descobriu em um nicho ainda pouco conhecido no Brasil: o “personal cooking”, uma espécie de chef particular.
“Desde o início pensei em trabalhar com alimentos naturais, sempre fez muito sentido pra mim. Daí fui fazendo contato, as pessoas foram me procurando, muitas com restrições na dieta como glúten, lactose. Então vi nisso uma oportunidade de unir o que eu adoro fazer com uma forma de ganhar dinheiro”, resumiu.
Como personal cooking, Marcela trabalha em sistema de diária, com receitas personalizadas, procurando sempre atender as especificações do cliente de forma criativa.
“Faço desde bolos veganos a ‘escondidinho do mato’, por exemplo”, contou a especialista em referência a um prato vegetariano. Ela atenda, em média, duas clientes por semana, a um custo de R$250 cada.
Talento x grana extra - Criatividade e talento na cozinha também estão intrínsecos na rotina da estudante gonçalense Lilia Araújo, 17. Apesar de não ter a pretensão de fazer da gastronomia uma profissão no futuro, suas aventuras no fogão têm rendido elogios da família e, principalmente, dos colegas da Escola Estadual Walter Orlandine, no Paraíso, onde cursa o segundo ano do ensino médio.
“Aprendi a receita de umas massas de italiano e empadão e resolvi levar para vender na escola. Agora não fico um dia sem cozinhar”, revela a estudante, que faz adaptação de receitas em versões doces e salgadas. Ela costuma vender de 15 a 20 salgados por dia, a um custo de R$3 cada.

Setor em expansão
Apesar da crise, o setor gastronômico tem apresentado desempenho melhor do que a média da economia brasileira, segundo uma pesquisa divulgada esse mês pelo IBGE. Neste estudo, a Receita Nominal do setor ‘Serviços de Alojamento e Alimentação’ apresentou crescimento de 4,6% nos últimos 12 meses, bem acima dos 3,3% dos setor de Serviços.
Para o analista econômico Everton Carneiro, da RC Consultores, a tendência dos programas de culinária, de certa forma, colaboram para o crescimento desse mercado.
“Tudo o que incentiva as pessoas a investir mais no setor de alimentação colabora para esse crescimento. Os consumidores vão ficando mais exigentes, querem experimentar novos pratos, novos lugares. Tudo isso faz o mercado crescer, principalmente para quem consegue antecipar e atender essas novas exigências”, explica o especialista.
Além disso, preparar refeiçoes “gourmet” em casa pode sair mais barato. “A mão-de-obra é um dos principais custos do setor de serviços, e com alimentação não é diferente. Quando preparamos refeições em casa, deixamos de pagar esse valor. Na verdade, trocamos esse valor pago pelo nosso tempo e esforço”, completa Everton Carneiro.