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Juntos depois de 26 anos

relogio min de leitura | Redação 26 de setembro de 2015 - 20:58

Separadas sem a autorização de Sheila Cristina, ela, em Itaboraí, e a filha Paloma, que hoje mora na Espanha, conversaram pela primeira vez essa semana pela internet. O outro filho Diego, que mora na Itália, também já falou com a mãe biológica

Foto: Luiz Nicolella

Por Elena Wesley

“Nunca desisti de acreditar que iríamos nos reencontrar. Sabia que um dia tudo daria certo”, desabafa a cozinheira Sheila Cristina Rodrigues Corrêa, de 47 anos. Por 24 anos, a lembrança dos filhos Paloma e Diego proporcionou tristeza e saudade, até que, na última terça-feira, as lágrimas se tornaram demonstração de alegria. Após investigações de Paloma com o apoio de O SÃO GONÇALO, Sheila foi localizada em Itaboraí e, desde então, mãe e filhos não se desgrudam das redes sociais e já planejam um encontro no Brasil.

Ao longo de quatro meses de pesquisas na internet, a corretora de imóveis de 30 anos tentou não perder a esperança na meta de encontrar a mãe biológica. Adotada por uma família italiana junto com o irmão quando tinham 4 e 2 anos de idade, respectivamente, Paloma esbarrou na escassez de dados e nas informações incorretas.

“Soube da minha verdadeira nacionalidade aos 11 anos, mas perguntar sobre minha mãe biológica sempre trazia desconforto aos meus pais adotivos, que me negavam o acesso aos documentos do processo. Segundo a versão oficial, minha mãe havia morrido, mas meu coração me dizia que ela estava viva e que eu precisava encontrá-la”, declarou Paloma.

Apesar do auxílio de autoridades e cidadãos comovidos com a história, a reportagem publicada em OSG em julho não surtiu o efeito. Isso porque o nome noticiado - Michele - não era verídico.

“O pouco que sabia vinha do meu contato com a freira italiana que intermediou a adoção, com que eu me comuniquei algumas vezes pelo telefone. Convenci minha mãe adotiva a enviar os documentos pelo correio e, a partir daí, descobri que ‘Michele’ na verdade era ‘Sheila’”, contou.

Retomados o contato com OSG, amigos e as pesquisas na internet, Paloma reuniu mais dados e um endereço no bairro Apolo II, em Itaboraí, ainda sem sucesso. Novas pesquisas junto a órgãos públicos apontaram fotografias e um novo endereço, em Manilha, onde, desta vez, vizinhos e comerciantes lembravam de Sheila, que teria se mudado há cinco anos. Mais uma vez “batendo na trave”, Paloma publicou a foto da mãe nas redes sociais, até que uma pessoa próxima a Sheila viu e a informou.

“Uma amiga me ligou e eu não tive reação. Pensei que fosse um trote, pois apenas minha irmã conhecia esta história. Não dá para descrever a emoção de falar com minha filha e meu filho após tanto tempo”, comemora Sheila.

À espera de uma oportunidade de abraçar a mãe e o irmão de 13 anos, Paloma e Diego planejam uma visita ao Brasil para agosto do próximo ano.

”Ganhamos mãe, irmão, tia e prima, uma família carinhosa que nos acolheu com muito amor. A partir de agora vamos fazer parte da vida um do outro e nada mais vai nos separar”, assegurou Paloma.

Sheila guarda, com todo o carinho, as fotos de Paloma e Diego, quando foram separados dela
Sheila guarda, com todo o carinho, as fotos de Paloma e Diego, quando foram separados dela (Fotos: Reprodução)

Sheila teria sido enganada por freira

Lembrar da perda de contato com os filhos ainda mareja os olhos de Sheila. Paloma nasceu quando a cozinheira tinha 17 anos, mas apesar das dificuldades, Sheila ajudava a mãe a sustentar os filhos e os outros três irmãos mais novos. Tudo mudou quando a mãe de Sheila morreu, e a família perdeu a casa em Inhaúma, Zona Norte do Rio.

“Minha irmã foi acolhida por uma amiga da minha mãe de condição tão humilde quanto a nossa, ela não poderia me receber também. Sem poder contar com familiares, saímos com a roupa do corpo à procura de ajuda. Eu não tinha a quem recorrer”, lamenta.

Sheila chegou a um Patronato das Irmãs de Santana, em Pilares, um bairro próximo, onde foi assediada a entregar os filhos a um casal italiano de bom poder aquisitivo.

“A adoção nunca foi premeditada. Meu desejo era ter um local onde as crianças pudessem ficar e estudar, enquanto eu buscava um trabalho. Mas a falta de instrução, a imaturidade me impediram de dizer ‘não’. A freira, que me batizou de Michele, dizia que eles teriam uma vida melhor na Europa”, lembra.

Segundo Sheila, o processo foi concluído em apenas três dias, sob as condições de que os nomes das crianças permaneceriam os mesmos e que ambos os lados manteriam contato com fotos, cartas e telefonema. O acordo, no entanto, não foi cumprido.

“Durante mais de um ano eu trabalhei com crianças numa filial da irmandade no Ceará, à espera de notícias. Todos os dias pensava que eles poderiam estar ali comigo. Até que decidi voltar ao Rio e buscar contato por conta própria”, conta.

À medida que se informava mais a respeito do processo, Sheila se sentia mais distante dos filhos. Sem cópias dos documentos de adoção, os meios legais não ofereciam alternativas. Nem mesmo na internet, mais recentemente, a cozinheira obteve sucesso, já que os nomes de Paloma e Diego haviam sido modificados na Itália.

Diante do improvável, Sheila celebra a determinação da filha e aguarda ansiosa pelo reencontro da família.

“Além de ter meus filhos de volta, ganhei mais três netinhos. Ainda é difícil acreditar no que aconteceu nestes últimos dias”, ressalta.

‘Cumpri a função social do jornalismo’

O jornalismo nos permite encontrar histórias todos os dias, simples ou complexas, até surgir aquela que vai marcar sua vida. Não seria exagero afirmar o quanto a determinação da Paloma me envolveu neste desafio. Apesar das dificuldades com o idioma, encontramos um espanhol “embolado” que nos permitia a comunicação.

A cada endereço, me sentia mais perto e ao mesmo tempo mais distante de um final feliz. Sabia que a Sheila estava ali e que a encontraríamos a qualquer momento, mas também havia o receio de esgotarem as alternativas. Ao ouvi-la dizer, ao telefone, que era quem eu procurava, me atrevi a compartilhar parte da emoção desta família. E ver o sorriso de mãe e filha num encontro virtual apenas reforçou o que julgava ser meu papel social: contar histórias.

Elena Wesley - repórter

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