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Após funcionários do Extra serem indiciados por caso de racismo, vítima afirma que não consegue esquecer o fato: "fico preocupado"

Jovem foi vítima de racismo quando entrou no mercado para comprar ingredientes para fazer bolo

relogio min de leitura | Escrito por Ana Carolina Moraes | 03 de dezembro de 2020 - 08:50
O jovem sofre com os traumas do ocorrido até hoje
O jovem sofre com os traumas do ocorrido até hoje -

"Fico preocupado, pois tenho medo de que se os ver na rua, sei que vou ter uma crise de ansiedade, e não sei se eles vão querer fazer algo contra mim", disse Bernardo Marins, um jovem negro de 20 anos, que foi vítima de racismo em agosto deste ano. O ator e estudante de gastronomia foi perseguido por um segurança no hipermercado Extra do Alcântara e alegou ter sido vítima de racismo por parte também do gerente do estabelecimento, que o destratou. No final do último mês, tanto o gerente quanto o segurança foram indiciados por racismo pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (DECRADI).

Bernardo relata que ficou sabendo do caso através da mídia e espera que a Justiça prevaleça. "Fico feliz por a Justiça estar sendo feita. Eu nunca desejei o mal de ninguém, mas se a pessoa errou de forma criminal, ela tem que cumprir a pena que lhe for dada. E espero que eles não saíam impunes dessa. Com eles pagando pelo crime que cometeram contra mim, vão desencorajar outros racistas", contou o jovem que trabalha na venda de bolos.

O caso de Bernardo ocorreu em agosto deste ano, quando ele foi comprar ingredientes para fazer um bolo no seu aniversário de 20 anos. Bernardo conta que assim que entrou no estabelecimento, um segurança começou a segui-lo, em seguida, o vigilante parou no corredor que ele estava e começou a passar o rádio pedindo para verem nas câmeras se Bernardo tinha colocado alguma coisa dentro de sua bolsa. O guarda ainda afirmou que Bernardo, um rapaz negro, tinha roubado alguma coisa e colocado em seu bolso. Bernardo postou um relato emocionado do caso nas redes sociais. Na publicação, ele conta que seu bolso estava cheio de moedas e que, depois da acusação do segurança, pediu para falar com o gerente do local, já que se sentiu humilhado. O gerente afirmou que aquilo não era racismo e que o segurança estava fazendo seu trabalho normal de andar pelo mercado. Tudo o que Bernardo pegou, ele pagou, mas ainda assim ele foi chamado de "ladrãozinho" pelo mesmo segurança quando deixou o estabelecimento.

Na época do ocorrido, Bernardo chegou a afirmar para o jornal O SÃO GONÇALO que aquele teria sido o "pior aniversário de sua vida". Mas, parece que o sentimento de tristeza e angústia segue o jovem até os dias de hoje. "Minha vida depois do ocorrido nunca mais foi a mesma. Venho fazendo acompanhamento psicológico e penso no fato diariamente, inclusive, tenho pesadelos. Isso vai me perseguir por muito tempo", disse o confeiteiro.

Bernardo, no entanto, já afirmou que isso nunca vai fazer com que ele se cale e, pelo contrário, ele vai expor todo e qualquer racismo que testemunhar ou for vítima. "Vou lutar pelos meus direitos até o fim", contou o jovem de 20 anos.

Na época do ocorrido, o Extra afastou os funcionários envolvidos e informou que esse tipo de atitude não faz parte da orientação do estabelecimento para seus empregados. Confira a nota completa do estabelecimento:

"A rede informa que, tão logo tomou conhecimento sobre o ocorrido, no dia 19 de agosto, acionou imediatamente a loja de Alcântara, iniciando assim um processo interno de apuração. A empresa conseguiu contato com o cliente Bernardo no último dia 20 para se desculpar pela situação vivenciada por ele na loja e incluí-lo no processo de averiguação dos fatos. Até que este processo seja concluído, a rede optou pelo afastamento temporário do funcionário citado pelo cliente. O Extra não orienta os funcionário para qualquer tipo de atitude discriminatório ou desrespeitosa, inclusive condena a mesma em seu Código de Ética e na política de diversidade e direitos humanos da rede. A empresa disponibiliza um canal para recebimento e apuração de denúncias que infrinjam o Código de Ética da Companhia e também participa da Coalização Empresarial pela Equidade Racial e de Gênero, que estimula a implementação de políticas e práticas empresariais no campo da diversidade. Desde 2017 tem uma agenda formativa sobre o tema. Em 2018 implantou um grupo interno de Afinidade de Equidade Racial, formado por colaboradores(as) negros(as) e não negros(as) comprometidos em construir com a empresa um ambiente de trabalho cada vez mais inclusivo e de promoção da equidade racial. Qualquer denúncia contrária a orientação e às políticas da cia sobre este tema, é rigorosamente apurada e, se comprovada a veracidade, são tomadas todas as providências necessárias."

Confira outros casos de racismo que causaram indignação em São Gonçalo. 

*Estagiária sob supervisão de Marcela Freitas 

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