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Ser negro é ser suspeito? Mais uma família acusa a polícia de prender jovem sem provas em Niterói

Everton e Jefferson contam que foram acusados de crimes que não cometeram

relogio min de leitura | Redação 21 de outubro de 2020 - 09:00
Familiares e amigos buscam justiça por homem negro detido
Familiares e amigos buscam justiça por homem negro detido -

Por Ana Carolina Moraes*

Sofrimento. Tristeza. Incerteza. Injustiça. Essas são as palavras que movem a vida de Everton de Azevedo Barcelos, de 32 anos, que está preso, mas, segundo ele e sua família, injustamente e com acusações sem fundamentos. Everton está detido desde o dia 24 de abril de 2019 e seu caso envolve diversas reformulações por parte da Justiça. O morador da Ponta D' areia, bairro de Niterói, já conseguiu testemunhas que provam sua inocência e espera, com isso, por um fim no pesadelo que vive atrás das grades.

Everton está detido desde abril de 2019
Everton está detido desde abril de 2019 |  Foto: Arquivo pessoal
 

Tudo começou em 2017, quando o irmão de Everton, Jefferson De Azevedo Barcellos, de 30 anos, foi assaltado na Engenhoca. Jefferson lembra que estava a pé e foi assaltado por homens que estavam em um carro e vinham da Venda da Cruz cometendo diversos roubos. Ele fez um boletim de ocorrência sobre o roubo logo em seguida. Na ação, os bandidos levaram diversos itens pessoais de Jefferson, como seu celular, fones de ouvido, sua mochila, dentre outros.

"Lembro que fiz o boletim de ocorrência desse caso na 78ª DP (Fonseca). Depois disso, só voltamos a encontrar com policiais no dia 24 de abril de 2019, quando eles foram até o restaurante que eu e meu irmão trabalhávamos. O Everton, no entanto, só trabalhava lá nos fins de semana e eu na semana, por isso, quando os agentes foram até o local, só eu estava, mas eles queriam ver eu e meu irmão, então levei eles até a minha casa na Ponta D' areia, mas meu irmão tinha saído e não o encontramos", contou Jefferson de Azevedo Barcellos, de 30 anos, o irmão de Everton, que também foi acusado de cometer crimes e também foi detido, mas já conseguiu provar sua inocência perante a Justiça e está solto.

Depois de não encontrarem Everton em casa, um primo e uma tia dos irmãos tentaram interceder com os policiais, pelo menos, para saber o que estava acontecendo e o motivo pelo qual os agentes estavam procurando os dois irmãos. "Não diziam para a gente o motivo. Os policiais falaram para o meu primo que meu irmão deveria ir até a delegacia, até a 77ª DP (Icaraí) prestar esclarecimentos. Eles afirmaram ainda que eu só seria solto quando meu irmão chegasse lá", disse Jefferson. 

Na delegacia,  tiraram foto de Jefferson, mediram sua altura e fizeram o seu registro. Everton chegou ao local um pouco depois e fizeram o mesmo com ele. "Quando meu irmão chegou, falaram que havia um mandado de prisão em aberto contra a gente. Eu estava sendo acusado de ser um dos bandidos que me roubou no assalto feito de carro, de 2017. Fiquei em choque! Um dos agentes disse que havia algo estranho com o caso, pois no meu boletim de ocorrência constava que eu era a vítima do caso, mas estava sendo acusado de ser um dos envolvidos. Já para o meu irmão, os agentes disseram que havia um mandado contra ele, mas não havia motivo e ele teria que ficar preso até tudo se esclarecer", disse Jefferson.

Os dois irmãos foram para o presídio de Benfica e depois para Água Santa. Depois de 2 meses, os irmãos conseguiram um advogado, mas algo estranho ocorreu. "Nosso processo sumiu do sistema com 3 meses de detidos, a partir daí, apareceu um outro dizendo que eu e Everton teríamos roubado um casal em Santa Rosa, Niterói. Na ação, disseram que roubamos um Riocard com R$ 20 reais e um celular. O crime teria ocorrido antes da gente ser preso. Mas, nunca fizemos isso, não tínhamos nem antecedentes antes desses casos. Somos trabalhadores! Depois disso, o caso do assalto feito de carro voltou para o sistema da polícia, mas apenas comigo como acusado. Everton agora respondia apenas pelo caso do roubo ao casal, crime que não cometemos", contou Jefferson. 

No reconhecimento dos criminosos, a vítima do assalto não teria conseguido reconhecer plenamente os envolvidos. "A vítima, primeiramente, teria mandando seu namorado me reconhecer (que também foi assaltado). Ela mesma, que disse se lembrar do rosto dos bandidos mesmo estando num local escuro no assalto, nunca apareceu. Chegando na delegacia, esse namorado dela fez o meu reconhecimento por um álbum de fotos, mas no reconhecimento cara a cara, ele apontou para um outro cara negro, alto e forte, muito diferente de mim que sou magro, negro e baixo. Sou totalmente diferente do homem acusado, mas o namorado da vítima disse que se lembrava do meu irmão pelo problema na visão. Ele era o único com problema de visão nos quatro indicados para reconhecimento", contou Jefferson em detalhes sobre o drama que sofreu. 

Esse processo continuou acontecendo até que Jefferson conseguiu provar sua inocência nos dois crimes. No primeiro, ele conseguiu provar que era a vítima e não o acusado por causa de amigos e testemunhas. No segundo, ele conseguiu provar que não roubou ninguém, pois estava trabalhando e o rapaz namorado da vítima não o reconheceu. Com tudo isso, ele foi solto no dia 6 de fevereiro deste ano. Mas, seu irmão continua preso e agora ele busca Justiça. Jefferson quer que seu irmão seja liberto da cadeia, já que não há provas para incriminá-lo, segundo ele. 

Everton e Jefferson sempre se apoiaram desde criança
Everton e Jefferson sempre se apoiaram desde criança |  Foto: Arquivo pessoal
 

"Meu irmão não estava nem em Santa Rosa no dia do assalto. Eu estava em um aniversário e ele tinha trabalhado e depois foi para um bar com um amigo. Estamos usando esse amigo para provar que ele não estava em Santa Rosa no momento do roubo. Eu acho que por um lado é um caso de racismo, mas é muito mais de descaso, de não investigarem direito a situação. Por exemplo, se eles tivessem visto que eu era a vítima e não o acusado no caso do carro, minha foto não estaria no sistema e não tentariam me deter por um roubo que eu não cometi. Por que a minha foto estaria lá no sistema se eu não cometi nada e nunca tive antecedentes?", disse Jefferson que é morador do Morro da Penha, em Ponta D' areia. 

"Todos lá na comunidade que eu moro estão assustados. Eles sabem que nunca fizemos nada e que estamos sendo acusados de crimes que não cometemos. Meu irmão ainda está preso e queremos Justiça! Meu irmão ainda tem uma filha pequena e queremos que ela cresça com o pai", afirmou o homem de 30 anos. Os amigos e familiares de Jefferson buscam levantar a hastag "#QUEJUSTIÇAÉESSA?" para dar visibilidade ao caso nas redes sociais e na internet. No último dia 17, eles fizeram uma manifestação para falar e expor o caso de Everton e planejam novos atos do tipo no futuro. 

Em nota, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro informou que o primeiro processo, do roubo feito usando carro, não houve movimentação recente. Já no segundo caso, consta que Everton está em situação de conclusão ao juiz, ou seja, ainda não há uma decisão proferida. Já seu irmão Jefferson se encontra em liberdade desde o dia 6 de fevereiro de 2020. 

*Estagiária sob supervisão de Marcela Freitas 

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