Instagram Facebook Twitter Whatsapp
Dólar R$ 5,0665 | Euro R$ 5,8376
Search

Religião na política se discute? Políticos gonçalenses lutam pelo combate à intolerância religiosa

Cinco candidatos a vereador em São Gonçalo compartilharam suas experiências dentro da política

relogio min de leitura | Redação 06 de outubro de 2020 - 16:38
Respeito na política - Eleições 2020
Respeito na política - Eleições 2020 -

Por Thalita Queiroz*

“Axé, pra quem é de axé, amém, pra quem é de amém, saravá, pra quem é de saravá, salaam aleikum pra quem é de salaam aleikum e que a força esteja com você pra quem é da força.” Essa é uma das tradicionais frases que costumam estampar cartazes na Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa que acontece há 12 anos na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, mas que neste ano não foi possível acontecer por causa da pandemia.

Faltando pouco mais de um mês para as Eleições 2020, debates como esse levantado pela Caminhada voltam a se tornar essenciais diante das discussões acaloradas entre políticos que erguem bandeiras religiosas e políticos que não concordam com a presença deste tipo de ideologia dentro dos gabinetes. Com isso, chega um momento que política e religião se entrelaçam em um emaranhado de opiniões diversas e chegam a conclusão que: política e religião não se discutem, mas religião na política sim.

Políticos protestantes, católicos, umbandistas, espíritas, macumbeiros, islamista, entre outras religiões, estão se candidatando a algum cargo nas Eleições deste ano. Na maioria dos casos, cada um que levanta uma dessas bandeiras dentro da política são descriminalizados, por vezes de formas mais agressivas quando se utiliza a identificação na frente do primeiro nome.

O jornal O São Gonçalo conversou com cinco políticos de São Gonçalo, candidatos ao cargo de vereador nas Eleições 2020, para debaterem como suas escolhas religiosas, ou a falta dela, podem afetar sua imagem política.

Andrea Machado moradora do bairro Alcântara
Andrea Machado moradora do bairro Alcântara |  Foto: Divulgação
 

Andrea Machado, 50 anos, é conhecida por muitos em São Gonçalo como uma católica fervorosa, que atua ativamente em eventos religiosos e tem sua base firmada no cristianismo. Por esse histórico, Andrea tem relatos suficientes de momentos constrangedores que passou dentro da área política. A gonçalense, moradora do Alcântara, respira política desde 2008 quando tentou pela primeira vez se candidatar a vereadora.

Sem votos suficiente para ser eleita, ela seguiu sua vida servindo nos projetos sociais da igreja como voluntária. Além disso, ela resolveu se especializar enquanto profissional e se formou em Direito, passando a atuar em cargos importantes dentro da Prefeitura de São Gonçalo.

Contudo, mesmo buscando estudo e mantendo sua vida religiosa, de forma separada, a discriminação por sua fé passou a ser algo recorrente. “Certa vez colocaram uma foto que eu tenho com um quadro de Jesus Misericordioso no Facebook e falaram que eu não poderia assumir a pasta na Prefeitura por eu expor a minha religiosidade. Como se ser uma mulher cristã fosse impactar no meu trabalho com as mulheres”, relembra Andrea.

E a discriminação não é somente por parte da área política, mas começa de dentro da própria igreja. “É difícil a sociedade saber diferenciar nossa fé cristã de nossa cidadania. Quando entrei na Política fui discriminada por alguns irmãos; falaram que esse não era um bom caminho. E quando fui convidada para assumir a pasta de Subsecretária de Políticas Públicas para Mulheres de São Gonçalo, também fui discriminada por defender a vida e a família, como se isso determinasse minha competência e os meus estudos na área”, diz ela.

Mesmo diante desse tipo de situação, ela enxerga que está no caminho certo. “Isso tem sido tóxico para nossa sociedade e nossa democracia. Muitos julgamentos, atribuições ideológicas, fanatismo, ceticismo e isso tudo acaba nos levando a uma “guerra” sem fim, apenas pessoas apresentando problemas sem “arregaçar as mangas” para buscar uma solução. Eu sou do diálogo. Estou disposta a ouvir, falar, aprender ainda mais e buscar as soluções”, diz a católica Andrea.

Ìyá Marta D'Yemonjá moradora do bairro de Almerinda
Ìyá Marta D'Yemonjá moradora do bairro de Almerinda |  Foto: Divulgação
 

Para a candidata a vereadora Ìyá Marta D'Yemonjá, do bairro Almerinda, há uma lembrança de discriminação muito presente em sua memória. Há 28 anos na política de São Gonçalo, e seguidora da ideologia do candomblé, Marta conta que certa vez estava em uma caminhada no mandato da ex-prefeita Aparecida Panisset, quando as pessoas de Àṣẹ́, uma referência à força mágica que sustenta os terreiros de candomblé, se manifestaram pedindo igualdade social e apoio contra a Intolerância Religiosa. “A ex-prefeita deu as costas como resposta ao nosso pedido”, lembra ela.

Além deste momento que a marcou, existe um outro ‘costume’ que a incomoda bastante dentro da política. “Quando se faz algum ato pela religião, como entrega de moções, os Vereadores todos são convidados, mas não comparecem”, relata a candidata que leva em seu título o nome usado dentro do candomblé.

Assim como Andrea, a vereadora não permite que a intolerância religiosa, muitas vezes misturada com política, a faça desistir da sua luta. “Há resistência em falas de pessoas nos espaços públicos, de pessoas até da religião que tentaram me convencer a mudar meu nome de campanha, mas a luta é uma só, se o povo de Àṣẹ́ não se unir, deixar as diferenças pessoais de lado, nunca poderemos ter o poder de defender essas religiões que foram o alicerce da cultura brasileira, então sim, sou de Àṣẹ́ e digo que sou”, enfatiza Ìyá Marta D'Yemonjá.

Wagner Macumba morador do bairro de Boa Vista
Wagner Macumba morador do bairro de Boa Vista |  Foto: Divulgação
 

Também de uma religião Afro-brasileira, a umbanda, o candidato Wagner Luiz Abreu, 34 anos, do bairro de Boa Vista, carrega consigo a religião já no nome. Conhecido como Wagner Macumba, o preconceito para ele começa dentro do próprio partido e se espalha no meio político. É por esse motivo que ele optou por se candidatar, focado em mudar essa realidade.

“Muitos nos julgam incapazes de nos organizarmos politicamente e elegermos representantes legítimos do nosso segmento. A todo momento ouço que o povo de Axé não é unido, e justamente por discordar disso, que lanço a minha candidatura em defesa do nosso povo”, relata Waguinho Macumba.

Fazendo parte dos mais de quatro mil candidatos que registraram o título de Pastor no nome de candidatura, o Pastor Sebastião, do bairro de Porto Novo, também de São Gonçalo, encontrou menos resistência neste meio político. Talvez isso se deva ao alto número de protestantes que estão unidos nesta Eleição, somando o total de 51%, segundo o levantamento realizado pelo G1 com base nos registros de candidaturas apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ao todo, são 4.426 candidatos registrados como ‘pastor’ ou ‘pastora’.

Pastor Sebastião morador do bairro de Porto Novo
Pastor Sebastião morador do bairro de Porto Novo |  Foto: Divulgação
 

Mesmo com uma grande parte ao seu lado e com apenas quatro anos de vivência política, o Pastor reconhece que existe sim essa descriminação. “Existe uma discriminação dentro e fora das igrejas por não conhecerem que tudo está em torno da política, saúde, educação e o bem estar de todos”, diz ele.

Marcelo Almeida, morador do bairro de Santa Isabel
Marcelo Almeida, morador do bairro de Santa Isabel |  Foto: Divulgação
 

Mas há ainda quem olhe para a presença de lideranças religiosas e liste motivos para ser contra a presença de todos eles na bancada, mantendo o respeito e usando a seu favor argumentos baseados em estudos. Este é o caso de Marcelo Almeida, de 37 anos, morador de Santa Isabel e também candidato a vereador nas Eleições 2020.

“Sou enfaticamente contrário a quem usa a religião como palanque político no sentido de favorecer os seus iguais ou defender os interesses da sua religião em detrimento de outras. Os dogmas de uma religião devem ser cumpridos por quem a professa, mas tem alguns conservadores que acreditam que devam transformar seus dogmas em leis e silenciar os que pensam diferente por professar outra fé. Isso é inaceitável! Seja em questão de gênero, aborto, ou o que for”, explica Marcelo.

Para ele, o entendimento de uma sociedade é plural e o parlamentar está ali para representar a todos os cidadãos, não apenas os que concordam com sua visão de mundo. “Por isso não creio que bandeiras religiosas devam ser levantadas dentro de um parlamento ou pelo poder executivo”, enfatiza ele.

Marcelo se aprofunda ainda mais no debate ao citar que os que mais compreendem o seu posicionamento político são os não cristãos. Ao ser questionado sobre sua religião, Marcelo confessa que é um defensor da Libertação dentro da igreja católica mas que o seu posicionamento dentro da política o afeta. “Dizem que eu sou herege, que deveria ser excomungado, enfim. Mas o que faço é tentar mostrar que o diálogo é sempre o caminho a se seguir. Não defenderei os dogmas do catolicismo em um possível mandato. Não posso colocar a fé que escolhi seguir como lei para quem professa outra religião. Pelo contrário, se outro parlamentar fizer isso, vou combater”, finaliza Marcelo.

E depois de todo o debate, com cada político de seguimento religioso enfatizar seu ponto de vista, ou contraponto, uma palavra foi repetida por todos: respeito. Cinco visões de mundo que no fim estão lutando para que haja respeito, mesmo quando cada um está lutando por uma causa diferente da outra.

*Estagiária sob supervisão de Thiago Soares

Matérias Relacionadas