'Calote' do Dr. Nanci nas creches de SG está nas mãos do MP

Como O SÃO GONÇALO já mostrou, desde abril o prefeito deve R$ 6 milhões às 33 instituições conveniadas com município

Enviado Direto da Redação


Enfrentando um 'calote' do prefeito José Luiz Nanci, a sorte de 110 crianças atendidas pela Creche Escola Amanhecer, que funciona há 16 anos, no bairro do Capote, em São Gonçalo, e de seus funcionários (professores e pessoal administrativo), que estão trabalhando há seis meses sem receber, está nas mãos do Ministério Público (MP). É que desde do dia 11 de setembro, após decisão do juizado da 4ª Vara Cível de São Gonçalo, o processo 0020435-80.2020.8.19.0004, em que o 'Doutor Nanci' é cobrado para pagar a 'merenda' das criancinhas, está aguardando parecer da promotoria para que o juiz 'bata o martelo'. Pois é, há uma semana, através de emails, O SÃO GONÇALO têm solicitado uma resposta sobre o caso ao Ministério Público (MP). Como não houve nenhum avanço, publicamos a reportagem apurada há uma semana, bem como todas as respostas do MP enviadas à redação durante esse tempo.

Última resposta enviada pelo Ministério Público
Última resposta enviada pelo Ministério Público | Foto: Divulgação


Eram 11h da manhã de quarta-feira, 16 de setembro. Os termômetros marcavam 29ºC no centro de São Gonçalo. No final daquele dia o boletim oficial da Secretaria de Saúde registrou 670 mortes por coronavírus na cidade. Um pouco mais cedo, o prefeito José Luiz Nanci (Cidadania) chegou para iniciar mais um dia de trabalho em seu confortável gabinete, recebendo secretários, vereadores e assessores, sentado à uma grande mesa, num amplo salão, refrigerado por um potente sistema de ar condicionado. Com isso, às visitas é recomendado o uso de agasalhos. Os salários de nenhum dos secretários, em média de R$ 13 mil, foi suspenso, ou teve redução durante o período de pandemia.

Detalhe: o prefeito, o Doutor Nanci, é médico e candidato à reeleição.

A poucos quilômetros dali, naquela mesma manhã, na sede da Creche Escola Amanhecer, que atende 110 crianças de várias comunidades, funcionando há 16 anos num modesto sobrado, na divisa entre os bairros do Colubandê e Capote, na periferia da cidade, uma fila de cerca de 60 pais (mulheres e homens) com seus filhos se formava, aguardando a distribuição de uma cesta básica. A todos era exigido o uso de máscaras.

Pais aguardando a distribuição de uma cesta básica
Pais aguardando a distribuição de uma cesta básica | Foto: Divulgação

 

Detalhe: o prefeito, o Doutor Nanci (citado lá no parágrafo de cima), há seis meses não paga o 'leite das crianças' das 33 creches conveniadas com a Prefeitura. Com isso, as instituições têm conseguido cestas básicas através de doações e parcerias com várias entidades, mas funcionários administrativos e professores vêm trabalhando sem receber salários há seis meses.

"Prefeito, se o senhor tivesse vergonha na cara, pagava o dinheiro das creches. Os professores e funcionários continuam trabalhando. Meus filhos não deixaram de ter educação durante todo esse tempo. Você sabe disso. As crianças têm recebido aulas através das redes sociais e os professores estão hoje aqui, ajudando na distribuição dos alimentos. Tá tudo registrado nos relatórios. Deixa de caô e libera o dinheiro aí", pede Jéssica Andrade Fontes, 28, mãe e tia de alunos da creche.


Famílias cobram posição do prefeito
Famílias cobram posição do prefeito | Foto: Divulgação

 

"Só pago se eles entrarem na Justiça. Se não posso ser preso", afirmou o prefeito, em áudio que circulou pelas redes sociais. Pois é! Sem alternativa, foi o que fizeram os administradores das entidades de educação, respaldados por um contrato assinado com o município, após terem sido habilitados num rigoroso processo seletivo. Até à tarde de ontem, o processo 0020435-80.2020.8.19.0004, impetrado pela Creche Amanhecer, na 4ª Vara Cível de São Gonçalo, aguardava parecer do Ministério Público para ter prosseguimento.

O casal de pedagogos responsáveis pela Creche Amanhecer, Fernando Silveira e Cláudia Araújo, 55, têm conseguido manter o atendimento às crianças, graças ao trabalho voluntário dos professores e funcionários que estão há seis meses sem receber, e aos projetos e doações de entidades parceiras. "Eles têm sido fantásticos nesse trabalho. Mas, assim como a creche, eles também têm famílias, contas, compromissos para cumprirem. Basta o prefeito cumprir o contrato. Não estamos pedindo nada a mais do que está no contrato", afirma Cláudia.


O casal de pedagogos responsáveis pela Creche Amanhecer, Fernando Silveira  e Cláudia Araújo, 55, têm conseguido manter o atendimento às crianças
O casal de pedagogos responsáveis pela Creche Amanhecer, Fernando Silveira e Cláudia Araújo, 55, têm conseguido manter o atendimento às crianças | Foto: Divulgação

 

Como
O SÃO GONÇALO mostrou em reportagem divulgada há duas semanas, o prefeito José Luiz Nanci está fazendo uma 'poupança' desde abril, que já chega a R$ 6 milhões, com recursos do Governo Federal, através do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), que na verdade 'pertencem' a 4 mil crianças matriculadas em 33 creches conveniadas à Prefeitura de São Gonçalo. Esse dinheiro se destina ao pagamento de salários dos professores e manutenção das entidades.

"Veja bem. Como a gente vai pagar uma coisa que não houve um serviço. Se agente pagar o Tribunal de Contas vai nos multar... Posso até ser cassado... Tenho orientado para que vocês entrem na Justiça. O juiz obrigando, a gente a pagar, a gente paga", tentou justificar o 'Doutor Nanci', em áudio divulgado pelo SBT. Como São Gonçalo não tem uma rede de creches municipais, de acordo com números do próprio município, cerca de 20 mil crianças em idade maternal estão sem onde ficar para que suas mães possam trabalhar.


 O SÃO GONÇALO já mostrou na reportagem publicada em julho ( Prefeito José Luiz Nanci é condenado pelo TRF por má gestão de recursos federais para conter epidemias ) que essa não é a primeira vez que o prefeito é acusado de má administração de recursos federais durante pandemias.

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