Família acusa hospital em Niterói de negligência médica: "Enterrei minha filha, perdi meu anjinho"

A criança morreu no dia 8 de setembro, às 21h21

Enviado Direto da Redação
O pesadelo da família de Myrella começou a ocorrer após o aniversário de um ano da menina

O pesadelo da família de Myrella começou a ocorrer após o aniversário de um ano da menina

Foto: Arquivo pessoal

Por Ana Carolina Moraes*

"Enterrei minha filha, perdi meu anjinho, ela tinha acabado de completar um ano. Foram muitas coisas ruins que aconteceram ali dentro e sei que houve descaso. Não indico o Getulinho ou o Mário Monteiro para nenhuma mãe. Falaram que minha filha não ia enxergar mais, nem andar. Os dedinhos dela estava machucados. Apareciam marcas no corpo da minha filha. Até que ela morreu. Quando uma mãe chora, todas as outras choram também", esse foi o relato emocionado de Scarlatt Oliveira Pralon, de 28 anos, mãe de Myrella Oliveira Ferreira, que faleceu no último dia 8, com apenas um ano de idade. Há quase três semanas, a pequena Juliana Anastácio, morreu após ser vítima de uma queimadura causada por suposta negligência médica no Getulinho. Hoje, a história  se repete com outra família. 

Como relatado por Scarlatt, mãe da pequena Myrella, a menina veio à óbito após os médicos receitarem diversos remédios para a criança, apontando diversos diagnósticos, mesmo não realizando muitos exames.  Até que a criança faleceu em uma episódio traumatizante após ser internada no hospital. Myrella completou seu primeiro aninho no dia 31 de julho. 

Tudo começou quando Myrella começou a ficar com muita febre e chorar com dor na barriga. A mãe da criança, Scarlatt, levou a neném para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Mário Monteiro, localizada em Piratininga, no dia 4 de agosto. No local, realizaram um raio-x nela e viram que o pulmão dela estava limpo. "Eles afirmaram que poderia ser uma crise de bronquite, poderia ser. Recomendaram um remédio para nebulização e passaram um antibiótico para ela, mas a minha filha não melhorou", comentou Scarlatt.

A filha de Scarlatt estava com dores na barriga e febre quando foi ao médico pela primeira vez
A filha de Scarlatt estava com dores na barriga e febre quando foi ao médico pela primeira vez | Foto: Arquivo pessoal

Foi aí que a família de Myrella levou ela novamente para o Mário Monteiro no dia 8 de agosto e lá, uma outra médica afirmou que deveria ser infecção urinária. "A médica disse que faria um exame de urina nela. Foram colocar um saquinho para colher a urina dela e vazou, isso ocorreu umas três vezes. Depois disso, a médica disse que não precisava mais fazer o exame e que com certeza seria infecção urinária. Receitaram um outro antibiótico. Mesmo assim, ela continuou com febre, até que no dia 10 levei ela ao Getulinho e fizeram exame de sangue e de urina. A médica continuou sem saber o que ela tinha e continuou passando antibiótico, agora com uma dose mais forte", contou a mãe que tem mais 4 filhos, todos de Nova Iguaçu, mas estavam em Niterói na casa da sogra de Scarlatt comemorando o primeiro aninho de Myrella, que era para ser uma lembrança boa em família.

Desesperada, a família de Myrella recorreu então a uma clínica particular localizada no Largo da Batalha e levou os exames feitos no Getulinho. Na clínica, continuaram receitando o antibiótico para a neném. Até que, no dia 13 de agosto, Scarlatt recorreu novamente ao Mário Monteiro e a médica que atendeu disse que a criança não tinha infecção urinária. "A médica disse que o exame anterior diz que não há infecção urinária e que antibiótico que estavam dando era muito pesado para dar para as crianças. Ela disse então que ela estava com estomatite e falou para começar a dar outra remédio para ela. Mas, não melhorou e voltei novamente ao Mário Monteiro no dia 17 de agosto, a partir daí, o meu desespero começou", afirmou ela. 

A criança tinha acabado de completar um ano de idade
A criança tinha acabado de completar um ano de idade | Foto: Arquivo pessoal

A partir deste dia 17 de agosto, Myrella nunca mais voltou para casa. "Ela chegou no Mário Monteiro com 37.7 de febre. A médica, então, passou uma injeção para a minha filha tomar. Ela afirmou que o medicamento era leve. Na mesma hora que injetaram, o olho da minha filha virou. Ela apagou no meu colo e a médica pediu para internar ela", disse a mãe de Myrella.

Depois de muito batalhar, a mãe da criança conseguiu fazer com que ela fosse transferida para o Getulinho. Lá, ela recebeu uma notícia que a alarmou. "O médico começou a fazer terror psicológico e ficava falando que minha filha não iria mais andar, nem enxergar e nem nada. Não fizeram exame nela, só entupiram a minha filha de antibiótico", disse Scarlatt que vende doces para sustentar sua família junto com o pai de seus filhos.

A criança ficou internada até o dia 8 de setembro no local, quando veio a óbito. Desde o dia 17 de agosto, a mãe de Myrella relata que sua filha tomava inúmeros remédios, que eram trocados a cada sete dias, e não havia nenhuma comprovação do que ela tinha. 

"Uma vez falaram que era meningite, depois fizeram uma tomografia e não deu nada. Aí falaram que ela tinha tuberculose no cérebro. Depois de dias fizeram uma segunda tomografia e deu uma lesão no cérebro dela. Eles falaram depois que o cérebro dela estava tomado, mas nunca me davam certeza do que ela tinha. Era remédio atrás de remédio. Além disso, o oxímetro de dedo da menina queimou os dedinhos dela", contou a mãe desesperada ao lembrar do ocorrido.

O oxímetro de dedo da menina não era trocado, segundo a mãe, e queimou o dedo da criança
O oxímetro de dedo da menina não era trocado, segundo a mãe, e queimou o dedo da criança | Foto: Arquivo pessoal

 Até que no dia 8 de setembro, às 21h21, Myrella faleceu. "Fizeram um eletro nela e falaram que ela estava com suspeita de morte cerebral. Aí, fizeram uma exame nela, no qual ela deveria ficar 10 minutos sem o respirador, mas a pressão da minha filha estava baixa. Quando retiraram o respirador, a própria médica que ordenou o processo xingou e disse que a pressão da Myrella ficou baixa. Minha filha ficou roxa e, mesmo assim, a médica queria esperar os 10 minutos para colocar o respirador novamente nela. Minha filha morreu, foi horrível. Eu passei muito mal", contou a mãe aos prantos. 

Até o momento, Scarlatt ainda não fez um boletim de ocorrência do caso, pois aguarda o prontuário médico de sua filha. No entanto, ela já está reunindo provas do que ocorreu. A dor de perder sua filha com apenas um ano de vida foi arrebatadora para ela. "Eles deram tantos medicamentos para ela, que eu nem sei. Foi muito ruim. Passei muito mal", disse ela relembrando o momento no qual sua filha faleceu.

Myrella foi enterrada por seus familiares no último sábado (12), no Cemitério de Itaipu.

Em nota, a Prefeitura Municipal de Niterói informou que "a Secretaria Municipal de Saúde de Niterói (SMS) lamenta o ocorrido e informa que está prestando a assistência necessária para a família. A Secretaria esclarece que o atendimento à paciente, moradora de Nova Iguaçu, seguiu todos protocolos determinados pelo Ministério da Saúde tanto na Unidade de Urgência Mário Monteiro (UMAM) quanto no Hospital Getúlio Vargas Filho (Getulinho).

De acordo com a direção da UMAM, a paciente Myrella Oliveira Ferreira, foi atendida no dia 04/08 na Unidade, onde recebeu atendimento do pediatra de plantão e realizou exames complementares como Raio X e exame de sangue. Não havia nenhuma alteração na paciente. Ao retornar para emergência no dia 08/08, Myrella realizou novos exames que indicaram possível infecção urinária. Foi receitado antibiótico e solicitado retorno.

No dia 10/08, a paciente foi atendida no Getulinho. Foram realizados novos exames como raio X, sangue e urina. Como a paciente já estava em uso de antibiótico, a medicação foi mantida.

No dia 13/08, a equipe médica da UMAM reavaliou a criança e substituiu o medicamento, solicitando novo retorno dentro de 48 horas.

É importante esclarecer que em todos os momentos a paciente apresentou bom estado geral, sem febre e sem indicação de internação. A criança retornou apenas no dia 17/08, desta vez apresentando febre e sonolência.

No mesmo dia, Myrella foi transferida para o Getulinho, com quadro neurológico, suspeito de meningite, onde recebeu os cuidados necessários, realizou tomografia por três vezes, ressonância, raio x e outros exames como hemograma e urina. Além do atendimento pela equipe de plantão, a paciente foi avaliada por um médico neurocirurgião.

A evolução do caso ocorreu com agravamento do estado de saúde e a paciente veio a óbito no dia 11/09 pela manhã. O hospital Getulinho já realizou diversas conversas com a família. Um médico indicado pelos parentes da paciente conversou com a equipe médica do hospital na quarta-feira passada. O Hospital está à disposição da família.

A direção do Getulinho entregou o prontuário nesta terça-feira (15). É importante esclarecer que há um prazo legal de 30 dias para entrega do documento, pois a unidade de saúde precisa anexar todos os boletins de atendimento e exames realizados. De toda forma, o Getulinho agilizou este processo para disponibilizar para família o quanto antes."

*Estagiária sob supervisão de Marcela Freitas

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