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Educadoras falam sobre cenário da educação pós pandemia do coronavírus

Implementação de aulas EAD e aumento da evasão escolar são os desafios

relogio min de leitura | Escrito por Redação | 30 de abril de 2020 - 14:54
Alunos da Rede Municipal de Ensino de São Gonçalo estão com aulas suspensas desde março
Alunos da Rede Municipal de Ensino de São Gonçalo estão com aulas suspensas desde março -

Por Thalita Queiroz*

O olhar para um futuro pós pandemia, até então incerto, causa estranheza. Afinal, por anos o indivíduo é programado para seguir um padrão, ainda mais quando se pensa em educação. Inicia-se na Educação Infantil, depois passa pelo Ensino Fundamental, se desenvolve no Ensino Médio, até alcançar o Ensino Superior. Mas, e agora? Como será o reflexo disso daqui a alguns anos? A rede de ensino de São Gonçalo estará pronta para encarar os desafios? A evasão será ainda maior do que nos últimos anos?

Para responder esses questionamentos, o jornal O SÃO GONÇALO conversou com duas especialistas na área da educação para entender quais são serão os desafios de professores, alunos e instituições em um cenário pós pandemia. Atualmente no Brasil, são 130 mil escolas de portas fechadas e cerca de 47 milhões de alunos sem aulas presenciais, desde março deste ano. Uma realidade que ninguém se prepara para passar, mas com a chegada do vírus, tudo mudou.

Mestre e doutora em Educação, a professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Zoia Ribeiro, de 57 anos, iniciou sua reflexão sobre educação pós pandemia afirmando que a situação se tratava de uma anormalidade. Zoia separou seu pensamento em três lições para refletir.

“Eu digo que a primeira lição que tiramos disso tudo é que precisamos entender o que estamos vivendo e assim aprender a lidar com a imprevisibilidade, que já é uma grande lição e aula para qualquer um, é uma das questões que não lidamos na nossa formação”, diz Zoia.

Segundo ela, a educação daqui há uns meses levará um “choque de realidade”, que não adiantará tentar seguir, a todo custo, um padrão escolar se o aluno não está imerso em um mesmo contexto. Zoia defende que o estudo vá além de uma perspectiva que o indivíduo tenha que aprender sobre física e matemática, por exemplo, se o que está ao redor dele são pais desempregados e precisando lidar com a perda de pessoas próximas.

Com isso, a mestre e doutora em Educação, chega na segunda lição. “É preciso entender que obrigar professores a continuarem dando aula, é uma hipocrisia. Seguir com conteúdos já programados como se nada tivesse acontecendo? Pelo contrário, o papel do educador é propor reflexões sobre o que está acontecendo agora e o que vai acontecer”, reflete ela que se mostrou contrária às aulas EAD neste período de quarentena.

“O mais importante é que não percamos a nossa humanidade. Ninguém está tranquilo para sentar e estudar temas pré determinados”, diz a professora da UFF. Refletindo sobre a terceira e última lição, Zoia aborda o futuro do professor pós pandemia, levando em conta que a insistência em carregar o ensino à distância seja uma prática que vai contra o ideal da educação.

“Eu não sou completamente contra o EAD, sei que temos que estar prontos para a mudança, para o novo, mas isso vai até um determinado ponto. Educar é uma relação social, o professor precisa estar presente. Você não tem a visão do todo, enquanto em uma relação direta você vê gestos e rostos”, diz.

Zoia se preocupa ainda com a imposição que o professor está sendo submetido para dar aulas a distância e falou sobre possíveis desempregos. “O que pode acontecer no futuro é um professor dar aula para o dobro de alunos por entender que tudo pode ser online, isso pode gerar desemprego. É um ataque a nossa profissão, é grave”, disse ela que refletiu ainda sobre um possível aumento de evasão escolar com as aulas a distância.

Educação pós pandemia: reflexos nas escolas de São Gonçalo

A mestre em Educação, Mirna Soares dá aula há 22 anos na rede pública. Atualmente lecionando no CIEP 414 Tarso de Castro, em Ipiíba, ela explica que o desafio será para a educação como um todo. “Não temos como saber o retorno exato, mas quando houver o retorno das aulas, a escola vai precisar ter uma postura de ter um olhar atento às crianças. Além disso, as políticas públicas não vão poder intervir hierarquicamente, o desafio da educação é que os órgãos que estão acima das escolas deixem as mesmas agirem”, diz ela.

“Quem conhece a comunidade é a escola que está presente ali, no dia a dia. Vai ser preciso dar autonomia para que cada unidade veja qual é o melhor projeto pedagógico a ser seguido”, reflete ela.

A rede municipal de ensino de São Gonçalo seguiu as orientações da Portaria nº 57/2020, que traz orientações que as unidades preparem atividades para os alunos, porém, não é uma obrigação. Fica a critério do professor aderir ou não. Mirna aborda a dificuldade de implementar as atividade a distância, já que São Gonçalo é uma região com grande vulnerabilidade econômica, ou seja, grande parte desses alunos não conseguem acompanhar. “Estamos em um município que as escolas não têm acesso à internet e aos equipamentos tecnológicos necessário”, diz a professora.

Já sobre o aumento de evasão de alunos após a pandemia, Mirna reflete que a evasão já acontece em anos letivos normais, sem dúvidas isso será um desafio. “A escola vai ter que se debruçar sobre isso e chegar em propostas que evitem que isso aconteça”, finaliza ela.

De acordo com o último Censo escolar divulgado, em 2018, São Gonçalo tinha 23.816 alunos matriculados no ensino médio em escolas públicas ou particulares. Destes, 9.534 estavam no 1º ano, 7.839 no 2º ano e 6.443 no 3º ano.

*Estagiária sob supervisão de Thiago Soares

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