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Educadoras falam sobre cenário da educação pós pandemia do coronavírus

Implementação de aulas EAD e aumento da evasão escolar são os desafios

relogio min de leitura | Redação
Alunos da Rede Municipal de Ensino de São Gonçalo estão com aulas suspensas desde março
Alunos da Rede Municipal de Ensino de São Gonçalo estão com aulas suspensas desde março -

Por Thalita Queiroz*

O olhar para um futuro pós pandemia, até então incerto, causa estranheza. Afinal, por anos o indivíduo é programado para seguir um padrão, ainda mais quando se pensa em educação. Inicia-se na Educação Infantil, depois passa pelo Ensino Fundamental, se desenvolve no Ensino Médio, até alcançar o Ensino Superior. Mas, e agora? Como será o reflexo disso daqui a alguns anos? A rede de ensino de São Gonçalo estará pronta para encarar os desafios? A evasão será ainda maior do que nos últimos anos?

Para responder esses questionamentos, o jornal O SÃO GONÇALO conversou com duas especialistas na área da educação para entender quais são serão os desafios de professores, alunos e instituições em um cenário pós pandemia. Atualmente no Brasil, são 130 mil escolas de portas fechadas e cerca de 47 milhões de alunos sem aulas presenciais, desde março deste ano. Uma realidade que ninguém se prepara para passar, mas com a chegada do vírus, tudo mudou.

Mestre e doutora em Educação, a professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Zoia Ribeiro, de 57 anos, iniciou sua reflexão sobre educação pós pandemia afirmando que a situação se tratava de uma anormalidade. Zoia separou seu pensamento em três lições para refletir.

“Eu digo que a primeira lição que tiramos disso tudo é que precisamos entender o que estamos vivendo e assim aprender a lidar com a imprevisibilidade, que já é uma grande lição e aula para qualquer um, é uma das questões que não lidamos na nossa formação”, diz Zoia.

Segundo ela, a educação daqui há uns meses levará um “choque de realidade”, que não adiantará tentar seguir, a todo custo, um padrão escolar se o aluno não está imerso em um mesmo contexto. Zoia defende que o estudo vá além de uma perspectiva que o indivíduo tenha que aprender sobre física e matemática, por exemplo, se o que está ao redor dele são pais desempregados e precisando lidar com a perda de pessoas próximas.

Com isso, a mestre e doutora em Educação, chega na segunda lição. “É preciso entender que obrigar professores a continuarem dando aula, é uma hipocrisia. Seguir com conteúdos já programados como se nada tivesse acontecendo? Pelo contrário, o papel do educador é propor reflexões sobre o que está acontecendo agora e o que vai acontecer”, reflete ela que se mostrou contrária às aulas EAD neste período de quarentena.

“O mais importante é que não percamos a nossa humanidade. Ninguém está tranquilo para sentar e estudar temas pré determinados”, diz a professora da UFF. Refletindo sobre a terceira e última lição, Zoia aborda o futuro do professor pós pandemia, levando em conta que a insistência em carregar o ensino à distância seja uma prática que vai contra o ideal da educação.

“Eu não sou completamente contra o EAD, sei que temos que estar prontos para a mudança, para o novo, mas isso vai até um determinado ponto. Educar é uma relação social, o professor precisa estar presente. Você não tem a visão do todo, enquanto em uma relação direta você vê gestos e rostos”, diz.

Zoia se preocupa ainda com a imposição que o professor está sendo submetido para dar aulas a distância e falou sobre possíveis desempregos. “O que pode acontecer no futuro é um professor dar aula para o dobro de alunos por entender que tudo pode ser online, isso pode gerar desemprego. É um ataque a nossa profissão, é grave”, disse ela que refletiu ainda sobre um possível aumento de evasão escolar com as aulas a distância.

Educação pós pandemia: reflexos nas escolas de São Gonçalo

A mestre em Educação, Mirna Soares dá aula há 22 anos na rede pública. Atualmente lecionando no CIEP 414 Tarso de Castro, em Ipiíba, ela explica que o desafio será para a educação como um todo. “Não temos como saber o retorno exato, mas quando houver o retorno das aulas, a escola vai precisar ter uma postura de ter um olhar atento às crianças. Além disso, as políticas públicas não vão poder intervir hierarquicamente, o desafio da educação é que os órgãos que estão acima das escolas deixem as mesmas agirem”, diz ela.

“Quem conhece a comunidade é a escola que está presente ali, no dia a dia. Vai ser preciso dar autonomia para que cada unidade veja qual é o melhor projeto pedagógico a ser seguido”, reflete ela.

A rede municipal de ensino de São Gonçalo seguiu as orientações da Portaria nº 57/2020, que traz orientações que as unidades preparem atividades para os alunos, porém, não é uma obrigação. Fica a critério do professor aderir ou não. Mirna aborda a dificuldade de implementar as atividade a distância, já que São Gonçalo é uma região com grande vulnerabilidade econômica, ou seja, grande parte desses alunos não conseguem acompanhar. “Estamos em um município que as escolas não têm acesso à internet e aos equipamentos tecnológicos necessário”, diz a professora.

Já sobre o aumento de evasão de alunos após a pandemia, Mirna reflete que a evasão já acontece em anos letivos normais, sem dúvidas isso será um desafio. “A escola vai ter que se debruçar sobre isso e chegar em propostas que evitem que isso aconteça”, finaliza ela.

De acordo com o último Censo escolar divulgado, em 2018, São Gonçalo tinha 23.816 alunos matriculados no ensino médio em escolas públicas ou particulares. Destes, 9.534 estavam no 1º ano, 7.839 no 2º ano e 6.443 no 3º ano.

*Estagiária sob supervisão de Thiago Soares

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