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Sem aulas há um mês, alunos e professores da rede pública pedem pelo adiamento do Enem

Estudantes iniciaram o movimento #AdiaEnem

relogio min de leitura | Redação 20 de abril de 2020 - 17:10
Julia Coutinho, estudante do IFRJ, aderiu a campanha #AdiaEnem
Julia Coutinho, estudante do IFRJ, aderiu a campanha #AdiaEnem -

Por Thalita Queiroz*

O impasse em relação ao adiamento ou não do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2020 segue em uma grande briga judicial. De um lado há o posicionamento, irredutível, do Ministro da Educação, Abraham Weintraub, em manter a prova mesmo diante de um cenário de desigualdade social advinda da suspensão das aulas para estudantes de todo o país. Do outro lado, a Justiça Federal segue firme no pedido de alteração das datas do Enem, que estão previstas para acontecer nos dias 1 e 8 de novembro.

Porém, no meio desta batalha, há um terceiro lado que pede para ser ouvido e está fazendo barulho nas redes sociais. Alunos da rede pública de ensino, em sua maioria estudantes que estão no último ano do Ensino Médio, pedem pelo adiamento da prova para 2021. Com o apoio de professores da rede estadual e federal, eles iniciaram o movimento #AdiaEnem.

O objetivo deste movimento é contestar o posicionamento do Ministério da Educação (MEC), afirmando que há um grande grupo de alunos que estarão despreparados para encarar a prova e em desvantagem, já que alunos de escolas privadas seguem com cronogramas de aulas à distância e alunos mais vulneráveis economicamente não conseguem acompanhar o ritmo de estudo em casa, tanto pela realidade social quanto por não possuírem equipamentos de qualidade.

O estudante André Barros, de 17 anos, estuda no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), do campus de São Gonçalo, e disse não concordar com a permanência do Enem para este ano.

“Lá na escola os professores não aderiram às aulas a distância por entender que nem todo mundo teria condições de acompanhar. Hoje a gente está sem base nenhuma para encarar a prova, todo o calendário se mantém suspenso”, lamenta ele, que vê o posicionamento de Weintraub como mais um incentivo ao desequilíbrio das escolas públicas e privadas.

André, com o apoio do grêmio estudantil da IFRJ e outras 23 instituições de ensino, iniciou a campanha #AdiaEnem, em que alunos e professores publicam fotos e compartilham mensagens pedindo uma nova data para o exame. O jovem diz que nesse momento, por mais que o último ano da escola seja decisivo para o seu futuro, é preciso pensar em salvar vidas.

“Nós jovens não estamos no grupo de risco mas somos transmissores do vírus, precisamos cuidar das pessoas que amamos primeiro. A prova pode ser adiada para um momento melhor e em que todos estejam preparados”, diz ele, que quer ingressar na faculdade para cursar serviço social.

O professor da rede pública de ensino, Anderson Rocha, de 41 anos, leciona Química no IFRJ do campus de São Gonçalo. Ao lado dos estudantes, ele também apoia o adiamento do Enem.

“Considero inconstitucional manter a data por entender que nem todos os candidatos terão seu direito à educação assegurados pelas estratégias de aulas remotas. Adiar é a única opção na minha avaliação”, diz ele.

Há 18 anos exercendo o papel de professor, ele enxerga o movimento como uma ação potente: “Perceber o comprometimento e a mobilização desses jovens é razão de sobra para permanecer acreditando no poder transformador da educação e renovar minhas esperanças num futuro menos desolador”, conta ele.

Ao contrário da rede federal de ensino, algumas escolas da rede estadual estão tentando aplicar atividades remotas em casa. A estudante Lais Modesto, de 17 anos, cursa o terceiro ano no Colégio Universitário Geraldo Reis (Coluni), e acredita que a melhor opção seria o adiamento do exame. “Alguns professores mandam matéria online mas chegou um momento que desanimou, não dá uma esperança, eu não consigo estudar sozinha em casa”, confessa a jovem.

Lais chegou a dizer que se sente desmotivada ao ver que tem muita gente com vulnerabilidade econômica que não tem condições de receber material online e que no final não vai conseguir dar o seu melhor no Enem. “Lá na escola os professores também estão nos apoiando e são contra as aulas a distância”, finaliza ela.

Maria do Nascimento, diretora do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (Sepe) de São Gonçalo, explicou que esse ano está sendo atípico e não tem como ser contrária ao adiamento. “Sabemos da importância do Enem para a juventude, mas é um momento de extremo cuidado, nós não somos favoráveis que não se adie por motivos fúteis ou algo que seja negociável. Mas entendemos a importância de todos mantermos o isolamento social”, disse ela.

No último domingo (19), Abraham Weintraub, em suas redes sociais, acusou a União Nacional dos Estudantes (UNE) de estar a frente de um ‘boicote’ ao exame. “Cancelar o ENEM será mais um tijolo na muralha do autoritarismo em construção. Sem expectativas, 5 milhões de jovens perdem o ano, sem emprego, faculdade e presos em casa. Ganham UNE e monopolistas (que criarão a grande empresa privada para substituir as federais). VAI TER ENEM!”, enfatizou ele.

Com o pedido da Justiça Federal em adiar o Enem por conta da pandemia do coronavírus, o MEC já anunciou que irá recorrer à determinação e não pretende adiar as datas.

Entramos em contato com a Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro para saber qual o posicionamento diante deste cenário conturbado. Até o fechamento desta reportagem, não houve resposta.

*Estagiária sob supervisão de Cyntia Fonseca

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