Projeto Acesso Cultural dá visibilidade à estilistas gonçalenses neste Carnaval
O editorial de moda de fevereiro traz looks de Carnaval inspirados em cada cidade

Por Pâmela Dias*
O Carnaval é a época democrática do ano na qual todos podem criar o próprio estilo e se reinventar em cada dia de folia ao utilizar adereços e adaptar fantasias. Como em inúmeras outras esferas culturais, mais uma vez, o talento e ousadia dos gonçalenses tem dado espaço ao surgimento de grandes nomes da moda, através do projeto Acesso Cultural. Este mês, a iniciativa buscou dar visibilidade e democratizar a produção artística carnavalesca entre os estilistas de São Gonçalo.
Neste período dedicado ao Carnaval, o movimento cultural criou o editorial ‘Oh abre alas que eu quero passar’. O espaço, dedicados a estilistas anônimos especialmente de São Gonçalo, mas também de Niterói e Rio de Janeiro, foi o lugar onde jovens e adultos puderam soltar a criatividade, repaginar looks e criar novas tendências carnavalescas para representar sua cidade. Todas as produções podem ser vistas no Instagram @oacessocultural.
A história do Acesso Cultural se iniciou em 2017, quando Alberto Rodrigues, coordenador e idealizador do projeto, identificou que a cidade de São Gonçalo é uma grande exportadora de música, moda, literatura e dança, mas, contraditoriamente, tem poucas produções artísticas reconhecidas. Atualmente, segundo Alberto, que é gonçalense e morador do bairro Mutuá, o movimento já conta com cerca de 250 criativos, que transitam entre o cinema, a literatura, a dança, a moda, entre outros.
“O cenário de São Gonçalo era muito marginalizado, dos criativos do Rio e Niterói, a maioria da galera era daqui. Independente do ramo, pelo menos 70% da mão de obra criativa era de São Gonçalo. Mas eles não tinham nenhuma referência no cenário de cultura e, então, começamos a fazer o trabalho de desmarginalização da cultura da cidade”, disse Alberto.
Nesta edição de Carnaval, o editorial de moda contou com a participação de cinco estilistas gonçalenses, além de um de Niterói e seis do Rio. Beatriz Ribeiro, de 27 anos, designer de moda e dona da marca Atelier Beatriz Ribeiro, é um dos talentos descobertos pelo Acesso Cultural. A gonçalense, moradora do bairro Sacramento, conta que iniciativas sociais como essa são grandes oportunidades, principalmente para quem vive em periferias e tem pouco acesso à áreas elitizadas como a moda.
“Sempre foi um sonho ter a minha própria marca , mas era um sonho muito distante da minha realidade: negra e moradora de uma comunidade em São Gonçalo. Busquei a faculdade de design de moda, conquista só realizada graças a uma bolsa de estudos de 50%. Mesmo com esse desconto os materiais eram caros, somados à alimentação, passagem. Foi então que comecei a produzir algumas peças de carnaval para amigos e familiares, gerando uma renda extra para custear todos esses gastos. As vendas deram tão certo que continuei produzindo outras peças durante o ano e, sem me dar conta, o Atelier Beatriz Ribeiro estava surgindo”, contou a estilista.
A próxima novidade do projeto Acesso Cultural está prevista para acontecer em abril deste ano. Intitulado ‘Eu design’, o encontro voltado para estilistas e interessados por moda terá como objetivo apresentar ao público as diferentes vertentes da área e trazer toda a grande Rio à solo gonçalense, a fim de prestigiar a arte e os artistas locais.
Criações carnavalescas de São Gonçalo
De acordo com Beatriz, sua inspiração para criar looks vem de todos lugares, desde uma viagem, imagens de revistas e clipes de música, até feedback de clientes ou uma conversa entre amigos. Observando os costumes e tendências de moda dos gonçalenses, a estilista chegou às suas produções finais, que este ano tem características conservadoras e reutilizáveis, e se destacam principalmente na cor neon, tendência da moda primavera-verão.
“Percebi que o público de São Gonçalo acaba sendo mais contido na hora de escolher sua fantasia , procuram peças de certa forma mais conservadoras e que possam ser usadas, talvez, em outras épocas do ano também”, explicou.
Atualmente, as roupas e acessórios produzidos pelo Atelier Beatriz Ribeiro está presente na loja colaborativa Start Trend, no Partage Shopping São Gonçalo, localizado no Centro da cidade, e no Coletivo Mar no Botafogo Praia Shopping, além das vendas online.
Criações carnavalescas de Niterói
Para representar a cidade de Niterói, o projeto Acesso Cultural conta com a parceria do estilista e dono da marca GA’H (Gabriel Alves para Humanidade), Carlos Gabriel Costa, de 27 anos. Morador do Morro do Cavalão, em São Francisco, a inspiração do niteroiense para a confecção das fantasias de Carnaval surge a partir de um comportamento sociocultural e de movimentos de raça, sexualidade, entre outros.
“Para esse carnaval eu olhei muito para o movimento afrofuturista, que é um movimento de como os pretos veem o futuro. Me baseei nisso porque dá para usar tanto no carnaval quanto em festas mais politizadas, tornando a peça mais versátil. No caso de Niterói, representei a cidade na fluidez e versatilidade das peças, e nas cores mais sóbrias”, explicou.
Especializado no ramo da moda sustentável, Carlos Gabriel iniciou sua trajetória desenvolvendo acessórios através de resíduos de couro, fios, corda, banner e outros materiais recicláveis. Hoje, de acordo com o estilista, o intuito da marca GA’H é “criar roupas e acessórios que tenham como objetivo a individualidade e comportamento do ser transitório, a contemporaneidade, movimentos socioculturais e a disparidade da miscigenação brasileira em diáspora, tendo em voga a moda que sai da periferia para o asfalto”.
Criações carnavalescas do Rio de Janeiro
A capital fluminense é representada pela designer de interiores e artesã Juliana Bonifácio, de 26 anos. Moradora da Lapa e integrante do coletivo Gi Costuras e Arte Cabocla, a estilista iniciou sua parceria com o projeto Acesso Cultural há dois anos. Desde então, juntos, eles realizam trabalhos de moda e levam informação à sociedade através do design.
Desde os primeiros desenhos das peças, até o resultado final, Juliana buscava retratar em suas confecções o ativismo e a beleza negra no Rio de Janeiro. “Esse ano o coletivo se uniu para montar as fantasias, acreditamos que o futurismo e o afrofuturismo vem com tudo. Muito dourado, prateado, vai ser um carnaval mais criativo. Nossa inspiração partiu da nossa ancestralidade e como a gente se vê daqui pra frente”, contou.
Estagiária sob supervisão de Cyntia Fonseca*