Série Os Invisíveis: Conheça o gari coletor que sonhava em ser jogador de futebol
Gabriel diz que os desafios no dia a dia são grandes

Por Thalita Queiroz*
Durante toda a semana o jornal O SÃO GONÇALO vai contar histórias de trabalhadores como garis, panfleteiros, vendedores ambulantes e telemarketing que passam despercebidos no dia a dia e se tornam figuras invisíveis aos olhos da sociedade. A série Os Invisíveis vai mostrar quem são esses trabalhadores que lutam dia e noite em busca de um objetivo.
O primeiro personagem da série Os Invisíveis é Gabriel Fernandes de 24 anos, gari coletor na cidade de São Gonçalo. A saída da garagem acontece às 6h30 e a volta é às 15h e junto de uma equipe composto de outros 3 coletores mais o motorista, Gabriel segue a sua rotina diária. Deixa em casa a esposa Laylla Santos e o seu filho de 1 ano e 7 meses, o pequeno Arthur Gabriel. Com o brilho nos olhos ele revela de imediato: “Levanto para trabalhar todos os dias por eles e para eles, a minha família”, compartilha com emoção o jovem que sustenta a casa sozinho com o emprego de gari coletor.
Durante toda manhã e começo da tarde, Gabriel e sua equipe partem pelas ruas do bairro Coelho, em São Gonçalo, para recolher o lixo dos galões, lixeiras , sacolas, entre outros. Um trabalho exaustivo que requer muita disciplina, boa forma física e ter muito fôlego para aguentar o ritmo intenso. Não há tempo sequer para parar e descansar. Costurando as ruas do bairro, a equipe vai aos poucos concluindo a missão.
Por trás do esse gari coletor existe um Gabriel que tinha o sonho de ser jogador de futebol profissional, mas devido à falta de oportunidade no clube que atuava na época e o pouco salário, ele precisou seguir novos rumos e foi nesse caminho que conseguiu um emprego como gari coletor. “Eu estou trabalhando na empresa há cerca de 10 meses e no meu primeiro dia aqui foi muito difícil. Cheguei em casa muito cansado e o desgaste é muito grande, mesmo eu já vindo de uma rotina do esporte a gente sente sabe”, conta ele.
Sobre o termo “lixeiro”, Gabriel tem uma opinião bem clara sobre isso. “Eu vejo os pais ensinando as crianças a chamar de ‘lixeiro’. Eu jamais vou ensinar meu filho dessa forma. Vou ensinar que somos garis coletores e eu acho que na verdade as pessoas ainda usam esse termo por ser algo da criação dentro de casa”, conta ele que revela que os olhos atravessados, a mudança de calçada e principalmente a mão no nariz para não sentir o cheiro ruim que o caminhão deixa é algo frequente.
O pai do Arthur compartilhou uma situação que lhe marcou durante esses meses como funcionário da empresa Marquise, responsável pela coleta de lixo da cidade de São Gonçalo. “Temos o costume de falar com as pessoas que estão na rua, cumprimentar e tudo mais, e aí teve uma vez que parei para falar com uma senhora e ela disse “Ah, todo sujo vindo falar com a gente?”, disse ela bem alto”, conta Gabriel.
Ele diz que é comum passar despercebido pelas pessoas na rua. “Claro que tem gente que para o que ta fazendo, oferece uma água, responde o nosso bom dia, mas o número de pessoas que simplesmente nos ignoram é grande ainda”. Entre a equipe há um ‘pacto’ de toda vez que eles ouvirem algum tipo de comentário maldoso, incentivar o colega a não se importar muito com isso. “Vamos lá cara, vamos trabalhar, não liga não”.
Gabriel pretende continuar nesse trabalho por um bom tempo e não pretende ir para outro lugar. “Toda a minha família me apoia, minha avó está muito feliz por eu estar empregado. É claro que todo trabalho tem o seu lado bom e o lado ruim, ainda mais a gente que trabalha na rua, mas isso não me desanima não”. Ele ainda completa: “É claro que eu gostaria que as pessoas tivessem mais consideração com o nosso trabalho e dessem valor”, finaliza ele com um tom de esperança que um dia a concepção do gari coletor mude.
Amanhã (25), veja a história da distribuidora de panfletos Ana Paula do Espírito Santo.
*Estagiária sob supervisão Thiago Soares