Após ajuda coletiva, gonçalense realiza cirurgia para voltar a enxergar e já consegue distinguir as luzes
Renata realizou o procedimento com células tronco em julho

Daniela Scaffo
As células-tronco se apresentam como promessas no meio científico no campo da medicina regenerativa, que propõem melhora e até mesmo cura de doenças degenerativas. Foi através de um tratamento envolvendo essas células, realizado na Tailândia, que a professora de educação física e capoeira, Renata Antunes Cardoso, de 38 anos, pôde ter esperanças de voltar a enxergar.
A gonçalense, que mora no Rio do Ouro, perdeu 100% da visão após um procedimento de retirada de um tumor frontal no cérebro, em meados do ano abril do ano passado. Ela explica que sentia fortes dores de cabeça e chegou a perder o olfato em 2017, mas os médicos acreditavam se tratar de uma sinusite.
Próximo ao período de carnaval, em 2018, Renata não conseguia mais virar a cabeça e, novamente, teve um diagnóstico errôneo em um hospital particular da região. Foi apenas em 26 de março, após diversas idas a unidade de saúde, que teve o diagnóstico de tumor cerebral.
"Eu sentia muitas dores de cabeça, mas como os médicos alegavam que se tratava de uma sinusite, eu não procurei tratamentos. No início do ano passado, estava dando aula e não consegui mais girar o pescoço. Foi, então, que fui ao médico e disseram que se tratava de um torcicolo. Fui diversas vezes ao médico entre 2017 e 2018, mas foi apenas em março que recebi o diagnóstico. Nesse tempo, cheguei a desmaiar algumas vezes e ter apagões enquanto dirigia", relembrou Renata.
O tumor descoberto era de 8 centímetros, porém, a professora acabou sofrendo duas isquemias, o que cooperou para o aumento do câncer. Na cirurgia, os médicos retiraram cerca de 9,5 centímetros de massa, contando com a margem de segurança. Renata conta que ninguém acreditava que ela fosse sair viva da cirurgia, mas o procedimento ocorreu com êxito.
Logo após sair do centro cirúrgico, ela explica que chegou a enxergar os médicos que realizaram o procedimento, mas logo depois, perdeu 100% da visão. Com o diagnóstico de edema de papila (inchaço do disco óptico que é causado por uma pressão intracraniana aumentada), Renata ficou cerca de quatro meses sem realizar um tratamento adequado para voltar a enxergar.
"Após a cirurgia, o médico achou que eu estava com edema de papila e me explicou que dentro de 15 dias eu voltaria a enxerga. Um mês depois, isso não ocorreu e ele me encaminhou ao oftalmologista. Chegou um momento que eles viram que não era um edema e fui encaminhada para um neuroftalmologista, onde detectaram que o tumor encostou na quiasma óptico", contou.
Foi o marido da gonçalense que descobriu, através de pesquisas, o tratamento com células-tronco. O casal foi até o sul do país, no estado de Curitiba, para buscar mais informações sobre o procedimento que poderia devolver a visão para a professora.
O tratamento, no entanto, tinha um custo total de R$ 115 mil. A família precisou vender carro, casa e outros bens, para arrecadar parte do valor e contou com a ajuda de diversas pessoas através de uma vaquinha online, criada por amigos, para realizar o procedimento.
"Em menos de um mês, consegui o dinheiro para fazer o tratamento. Consegui ajuda de toda a parte e, teve um momento que até precisei negar algumas doações, porque já tinha conseguido o montante e mais o dinheiro das passagens, que era algo que eu nem esperava. Ainda existem pessoas muito solidárias no mundo", explicou Renata.
Em julho, a gonçalense embarcou para a Tailândia para passar pelo procedimento e realizou a aplicação das células-tronco no dia 25 do mesmo mês, no Better Being Hospital (bbh). Hoje, quase quase meses depois do tratamento, Renata conta que já consegue distinguir as luzes e "não ser atropelada por um caminhão", como ela mesma brinca.
"Tenho muita esperança com esse tratamento. Eles dão um prazo de seis meses para o processo regenerativo. Espero ter uma visão para locomoção, pois o que mais me atrapalha hoje é isso. Não consigo ir para a rua sozinha. Se eu conseguir 30%, é lucro, mas eu quero enxergar totalmente", disse.
Apesar de tudo, Renata busca levar uma vida normal, dentro das possibilidades. A gonçalense explica que estuda, faz exercícios na academia e ainda participa das aulas de capoeira.
Enquanto isso, a professora segue realizando os tratamentos que consegue aqui no Brasil. Atualmente, ela faz sessões de craniopuntura, para fazer a ativação da parte ótica, estímulo a luz e terapia ocupacional.
Entretanto, outros dois tratamentos, como o com Oxigenoterapia Hiperbárica e terapia de choque, Renata não consegue encontrar no Brasil.
"Posso ficar dentro de casa, chorando, achando que a vida acabou por causa da cegueira, mas também posso pegar esse problema e escolher como lidar com ele. Eu escolhi a segunda opção", finalizou.