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Isaias: uma trajetória de lutas pela realização de um sonho

Ele é o 4º personagem da série de OSG

relogio min de leitura | Redação 27 de outubro de 2019 - 14:56
Ele é o 4º personagem da série de OSG - Personalidades influentes da região com menos de 30 anos
Ele é o 4º personagem da série de OSG - Personalidades influentes da região com menos de 30 anos -

Daniela Scaffo

Apenas 22 anos, cirurgião-dentista e mais de 32 certificados em cursos, especializações e congressos. Esse é o currículo de Isaias Soares da Silva Carneiro, morador de Itambi, zona rural de Itaboraí, que é tema do quarto capítulo da série 'Personalidades da região com menos de 30 anos' de O SÃO GONÇALO. O jovem precisou vender empadas feitas pela sua mãe para comprar o material da faculdade durante o curso e conseguir  o sonhado diploma da faculdade.

Estudante de escola pública durante o ensino médio, o dentista, o mais novo da família de três filhos, explica que tudo iniciou-se por causa de sua base familiar, já que sempre foram impulsionados a estudar. Atualmente, ele aluga dois consultórios odontológicos, em Niterói e Itaboraí. 

"Meus pais sempre incentivaram a gente a estudar. Se não fossem eles como minha base, nada disso seria possível. É importante que os pais façam isso com os filhos: profetizem coisas boas, falem bem deles, independente da classe financeira. A minha vida não era bem estruturada financeiramente, nunca tivemos saneamento básico onde moramos... Pessoas em situação pior que a minha conseguiram também e acredito que todos possam conseguir", disse o jovem.

A venda das empadas começou quando Isaias estava no terceiro período do curso de odontologia. Segundo ele, foi nessa época que ele recebeu uma lista de materiais do curso de radiologia no valor de R$500, que não tinha condições de comprar. 

Com a mãe, a técnica em enfermagem Laudimea Soares da Silva, desempregada devido uma dermatite de contato que desenvolveu à material hospitalar e o pai, Reginaldo Cunha Carneiro, encostado pelo INSS após um acidente de trabalho, o jovem encontrou dificuldades até mesmo em pagar a passagem para ir às aulas. Foi, então, que a família teve a ideia de fazer empadinhas para vender.

"As coisas estavam bem complicadas lá na minha casa e a gente não tinha dinheiro para manter passagem minha e da minha mãe, que fazia serviço social. Levei 10 empadinhas no primeiro dia para vender. As pessoas gostaram muito e deram a ideia de fazer empadão. Comecei a ir para as ruas, vender no shopping, terminal, Alcântara, onde tinha gente eu estava vendendo empadas", explicou o dentista, que tinha bolsa 100% pelo Programa Universidade Para Todos (ProUni), do Governo Federal.

Como o período de aulas de odontologia era integral, Isaias precisava realizar a venda das empadas sempre que tinha disponibilidade, inclusive, nos intervalos das aulas, feriados, aniversários, Natal e outras datas comemorativas. As vendas aumentaram e, por dia, o jovem conseguia passar cerca de 30 salgados e tortinhas de banana, também produzida pela mãe do jovem. 

"Meu pai era carpinteiro de forma de uma empresa, teve uma queda no trabalho e lesionou a cervical. Ficou encostado durante um tempo e depois foi dispensado pelo INSS. A gente não tinha mais auxílio e meu pai teve que catar latinha e no ferro velho até o final da minha faculdade.  Meu pai estudou até a quarta série, então ele sempre me incentivou e sabia que o estudo podia transformar vidas. Era tudo com muita luta mas éramos muito felizes porque a gente tinha determinação e objetivo no que queríamos alcançar. A gente sabia que era um momento passageiro, mas a gente levava como uma forma de força para vermos que tudo era com muita luta, mas um dia alcançaríamos a nossa vitória.   

Isaias conseguiu se formar na Universidade Salgado de Oliveira (Universo) de Niterói, em 2018. Mas antes disso, recebeu a oportunidade de realizar cursos com profissionais da área que se sensibilizaram com a história do jovem, entre eles Felipe Rossi, da ONG Por1Sorriso; Rafael Puglisi, dentista de estrelas como Neymar, Gugu e Silvio Santos; Joy Martins e Kelly Ricca, do Instituto Casal Dentista; Monalisa Guiselini; Thiago Avelar; Roberto Zangirolami; Moisés Galli e Sílvia Helena.  

Para o cirurgião-dentista, o jornalismo mudou a sua vida. Isso porque, em julho de 2016, O SÃO GONÇALO contou a história da família, que abriu um leque de oportunidades para a vida do então estudante. 

"Se não fosse o jornalismo, muita coisa não aconteceria na minha vida. Eu não teria ido a São Paulo fazer curso e diversas outras oportunidades não teriam acontecido. O jornal teve uma repercussão muito boa na época. Muita gente me conheceu, me ajudou diretamente, muitos mandavam material e me emprestavam. Isso serviu de incentivo a outros jovens, quando a gente quer, a gente consegue", declarou Isaias, que se diz viciado em atualização e recentemente participou de um congresso com profissionais da estética e cirurgia, no Sul do país.

Projetos para a população - As oportunidades que recebeu enquanto estava cursando odontologia fizeram com que Isaias tivesse ainda mais vontade de realizar projetos sociais para a população. Em 2017, a convite de Felipe Rossi, viajou para Ilha Arapiranga, região de Belém, no Pará, para participar de um projeto que, segundo ele próprio, transformou sua vida. 

"A gente estava no local para ajudar pessoas em uma localidade esquecida pelos governantes, onde não tinha atendimento odontológico e nem médico. A ONG do Felipe faz essa ação em vários estados do Brasil e em países da África. Também participei de outra ação em São Paulo, em um local que abriga refugiados. Sempre gostei de participar de projetos sociais e agora quero montar o meu próprio, onde nasci, em Itambi.  

O jovem e a sua mãe também tiveram a oportunidade de palestrar para mães em uma escola municipal, em Itaboraí, em 2017, e em uma escola particular para aplicação de flúor e avaliação prévia. 

"Minhã mãe e eu recebemos o convite para darmos palestras em uma escola, chamada Patrícia Aciole, em Itaboraí, para mostrarmos que independente da nossa situação ou lugar de onde viemos, mesmo que seja negativo por causa da criminalidade, a gente não pode deixar isso abater os nossos sonhos. Com fé, foco e determinação, todos podem chegar também.  Muita gente me manda mensagem até hoje e liga, falando que está feliz e agradecido por causa da minha história. A gente tem influencia na vida das pessoas com aquilo que a gente planta, seja com coisa boa ou ruim", declarou. 

Para o futuro, Isaias pensa em fazer um projeto social para trabalhar com jovens e mostrar que o crime não é a única solução, além de poder abrir uma ONG ofertando atendimento odontológico, clínico e fisioterápico. 

Escolha do curso - A escolha em cursar odontologia, segundo Isaias, foi 'coisa' de Deus. Ele explica que estava em dúvida de qual carreira seguir quando ainda estava no ensino médio, mas sabia que gostava da área da saúde, por sempre acompanhar a sua mãe no trabalho.

"Minha mãe era técnica de enfermagem e ela sempre me levava para acompanhar os casos nos hospitais e também quando trabalhava em asilo e casa de família, como cuidadora. Sempre tive esse cuidado com as pessoas, sempre achei que a gente nasce para ajudar e servir, somar com o próximo. Pensei em medicina e fisioterapia, mas também era bom em artes, com modelação 3D, pintura, enfim. Odontologia nunca foi minha praia, nunca tinha pensado em odonto", explicou o rapaz.

Ele revela que foi em uma conversa com Deus, quando ele estava dentro de um ônibus, que Ele mostrou os primeiros sinais: "Vi uma placa escrito dentista. Logo pensei: 'Dentista?'. Continuei andando e orando pedindo uma resposta porque queria terminar o ensino médio e entrar logo na faculdade, então Deus me confirmou assim, através de placas. Cheguei em casa e falei com meus pais que queria fazer odontologia e eles disseram que Deus nunca tinha desamparado nossa família, que apesar de não termos condições, não seria agora que Deus iria desamparar. Gosto muito do que faço. Antes eu trabalhava em uma clínica com comissão, mas vi que eu precisava de uma dependência então aluguei um espaço. Tenho trabalhado de forma digna e tive a minha independência. Hoje consigo ajudar minha família", relembrou Isaias, que pensa em se especializar na área de implantes e dentística.

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