De Itaboraí para a Alemanha, jovem biofísico de 30 anos conta sua trajetória

Ele usa técnicas da neurociência para poder transformar o modelo educacional no Brasil

Escrito por Redação 21/10/2019 15:01, atualizado em 21/10/2019 15:46
Cientista Lucas Rodrigues Jacques da Silva
Cientista Lucas Rodrigues Jacques da Silva . Foto: Filipe Aguiar


Por Daniela Scaffo


A atual crise econômica no Brasil e o fato de ter mestrado e doutorado financiados pelo governo foram as principais motivações para que o cientista Lucas Rodrigues Jacques da Silva, de 30 anos, iniciasse um projeto revolucionário para mudar o Brasil: Neurociência Transformando a Educação.


No terceiro capítulo da série 'Personalidades da região com menos de 30 anos', O SÃO GONÇALO apresenta a história do cientista que atualmente mora na Alemanha, no continente Europeu, mas que foi criado no bairro Quissamã, em Itaboraí, cidade essa, que possui o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), segundo censo de 2010 do IBGE, de 0,693.


Lucas concluiu a graduação em Biofísica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em dezembro de 2012. Em março de 2015, obteve o certificado do mestrado em imunologia e MBA em gestão. Com menos de 30 anos, em abril deste ano, o jovem obteve o diploma de biofísico. Agora, ele trabalha com o modelo do sistema educacional alemão e usa técnicas da neurociência para poder transformar o modelo educacional no Brasil de dentro para fora.


"Após me mudar para Alemanha, em agosto de 2018, percebi como a crise no Brasil estava aumentando cada vez mais, principalmente na educação, a partir disso vi que muitos conhecidos meus estavam saindo do país, o que acaba contribuindo de alguma forma para agravar a crise, pois os jovens que poderiam estar fazendo a diferença ajudando o país e principalmente ajudando os mais novos, estão abandonando o barco. Senti essa responsabilidade também porque estudei em faculdade pública e recebi bolsa de mestrado e doutorado pelo governo e não achei justo simplesmente “meter o pé” do Brasil sem retribuir de alguma forma à população", explicou Lucas.


Com essa determinação, o biofísico explicou que começou a entrar em contato com algumas professoras e escolas que estudou para poder dar palestras voluntárias abordando o tema 'Neurociência Transformando a Educação'. Dessa forma, segundo Lucas, ele pôde usar a formação para contribuir como cidadão. 


Apenas em junho, ele passou por 23 escolas públicas e particulares nos municípios de Itaboraí, Maricá, Tanguá, São Gonçalo, Niterói e Duque de Caxias, oito igrejas, quatro instituições/organizações e três universidades. Aproximadamente 2,5 mil pessoas foram impactadas nesse ciclo de palestras em um curto espaço de tempo. Em outubro, Lucas retorna ao Brasil para dar palestras e cursos para professores.


Dessa vez, ele irá focado no treinamento para professores de educação física da rede municipal de Itaboraí, pois ano que vem iniciará a Base Nacional Comum Curricular, e educação física terá um papel importante na educação infantil, e diversos estudos científicos já demonstraram a importância do exercício para o desenvolvimento intelectual e desenvolvimento do cérebro em diversos aspectos, como criatividade, imaginação, habilidades sociais e emocionais, além da saúde como um todo.


"Muito se fala de lutar pelos nossos direitos, mas poucos jovens têm cumprido os seus deveres, ponto que enfatizo em minhas palestras, além de falar sobre criatividade, imaginação, identidade, neuroplasticidade, aprender a aprender e o poder do cérebro. A partir do contato com algumas poucas escolas, após dar as primeiras palestras outros convites foram surgindo e ao final eu falei em 23 escolas. Comecei falando para alunos mas alguns diretores e coordenadores me convidaram também a falar para os professores, para que esses pudessem colocar em prática no dia a dia e ajudar de forma contínua os alunos. Ministrei cinco cursos em diferentes escolas para professores do ensino fundamental e médio", contou.


Para Lucas, a verdadeira educação transforma pessoas porque as prepara para a vida, não apenas para o mercado de trabalho ou somente para o vestibular. Ele, que acredita na educação e é um grande defensor, explica que “a educação não transforma o mundo, educação muda pessoas e pessoas transformam o mundo”.


O jovem contou que vem de uma família de motoristas de caminhão e foi através dos estudos que pôde trilhar seu próprio caminho e se realizar.


"Eu acredito que conhecimento liberta, e o principal conhecimento que a pessoa precisa desenvolver é o autoconhecimento. Por isso a Educação precisa mudar, os tempos mudaram e o que funcionava antes já não funciona mais, pois o sistema trata os alunos como iguais e padroniza todos em um modelo de notas e atividades que aos poucos removem a individualidade, imaginação e criatividade. Hoje fala-se muito em “pensar fora da caixa”, só precisamos pensar fora da caixa hoje porque aos poucos a vida foi nos colocando dentro dela. E isso vem gerando uma grande crise de identidade", declarou.


Itaboraiense, Lucas explica que durante a sua infância, o município foi considerado o mais miserável do Estado e isso não o impediu de concluir o doutorado na UFRJ e, hoje, morar na Alemanha. Sua expectativa é que as próximas gerações possam agir de forma empenhada em transformar a cidade por completo e possam experimentar uma nova realidade em todos os sentidos: político, econômico e social. 


Assim como ministra nas palestras, Lucas diz que metas são criadas a partir do momento que sabe-se o que quer e o que não quer, e depois corre atrás. Agora, o doutor pretende voltar ao Brasil até quatro vezes ao ano para realizar o projeto, por entender que a educação é um caminho que precisa de total atenção para contribuir com a mudança necessária.


"O ambiente onde vive pode sim dificultar, por isso precisamos reconhecer isso e nos esforçarmos o dobro pra conseguir mudar a nossa realidade. Espero que tudo possa ser diferente e que as pessoas mudem a mentalidade de achar que não são capazes e que Itaboraí e região são desfavorecidos e eles não conseguem avançar por isso. Infelizmente ainda existe uma “síndrome de vira-lata”, e muitas pessoas preferem não arriscar. Nunca será fácil, mas não é impossível. Nunca quero perder a minha conexão com a minha cidade, quero poder ajudar em tudo que tiver ao meu alcance", informou.



Profissão do futuro - Assim como a maior parte dos estudantes do ensino médio, Lucas passou pelo período em que teve dúvidas em qual curso escolher para sua carreira profissional. Por gostar das disciplinas de física, química e biologia, ele conta que chegou a cogitar engenharia, biologia e oceanografia.


Foi através de uma reportagem dizendo que bioengenharia seria uma das profissões do futuro, que o doutor não teve mais dúvidas em qual carreira seguir. 


"Após a reportagem, pensei: 'por que não misturar as matérias que eu gosto em uma única profissão?!' A partir disso surgiu a Biofísica em minha vida. No Brasil é uma área ainda desconhecida mas com grande importância e relevância nos países desenvolvidos. Eu sempre tive o desejo de morar fora e a área científica me possibilitaria poder viver esse sonho, então tudo foi se encaixando e sou bastante realizado na minha profissão", contou.


Ele ainda explicou que teve como influência pessoas próximas que o mostraram o caminho que ele não deveria seguir. 


"Crescer em uma cidade pequena onde todo mundo se conhece e em uma época que não existia a facilidade da internet, fazia com que as pessoas aceitassem o censo comum como verdade e acabavam vivendo em uma zona de conforto, desde muito cedo eu era muito cético e questionador (o que com certeza contribuiu para ser um cientista) e isso me fazia aprender com os erros dos outros e não aceitar o que era comum, sempre quis mais, sempre soube o que queria. Eu era um sonhador, não tinha muitos amigos. Eu sempre gostei muito de ler e ver filmes, o que com certeza me abriu a mente para querer coisas que pessoas ao meu redor não tinham", explicou.


Hoje, Lucas é inspiração para muitas pessoas. Em suas redes sociais, o jovem compartilha depoimentos de quem foi impactado por suas palestras. Nas publicações, há dizeres como: "Eu sou seu fã. Quero ser como você"; "Estudar para ser alguém como o Lucas"; "Sua palestra conseguiu abrir minha mente, fazer pensar diferente. Continue com esse projeto incrível"; "Contribui muito para mim. Além da questão profissional, somou como incentivo a continuar no meu propósito baseado nos princípios que sigo"; entre outros.


"Uma frase que se repete e me impacta bastante - aumentando minha responsabilidade - é: 'quero ser como você'. É emocionante poder ouvir ou ler isso depois de todos os anos de dedicação, olhar para trás e ver que valeu à pena. Primeiro eu agradeço a Deus por ter conseguido defender meu doutorado antes dos 30, Ele que me capacitou e sonhou isso comigo. Abri mão de muitas coisas, sempre me dediquei nos estudos e mesmo tendo que acordar muitas vezes 5h da manhã, chegar em casa 19h da noite, ser assaltado quatro vezes indo e voltando do Rio para Itaboraí, nunca desisti e colocava isso como prioridade. As decisões mais importantes da vida não são sobre o que fazer, mas sim sobre o que não fazer. Eu não sou especial, não sou um gênio, apenas me esforcei ao máximo e não desisti",disse.


A oportunidade de se mudar para a Alemanha surgiu após a esposa de Lucas, Rayana Maldonado Simões Jacques, de 26 anos, ser contratada para trabalhar como enfermeira no quarto maior hospital da Alemanha. Agora, o doutor aguarda para começar o pós-doutorado na Universidade de Münster.


"Desde a época de namoro sonhávamos em ter uma experiência no exterior, poder morar pelo menos por um tempo em outro país. Minha esposa também nasceu e cresceu em Itaboraí e se formou em enfermagem na UFF. Uma das coisas que nos uniu foi os nossos sonhos (grandes) e a forma que corremos atrás para alcançar", concluiu.

/Cientista Lucas Rodrigues Jacques da Silva
Cientista Lucas Rodrigues Jacques da Silva. Foto por Filipe Aguiar
. Foto por Filipe Aguiar

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